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O dióxido de cloro é uma cura “simples e barata” para o cancro?

20 Ago 2025 - 08:45
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O dióxido de cloro é uma cura “simples e barata” para o cancro?

Num vídeo com mais de meio milhão de visualizações no Instagram, uma mulher garante que a cura para o cancro existe e é “simples e barata”. Acrescenta ainda que pode curar “inúmeras doenças”, não só o cancro. A substância a que se refere é uma solução de dióxido de cloro. Mas será verdade? Há uma cura simples para o cancro? 

Em entrevista ao Viral e ao Polígrafo, João Vasco Barreira, oncologista e co-autor da página Twin Docs, explica que o dióxido de cloro é um “desinfetante químico” que não é “seguro para consumo”.

O dióxido de cloro cura cancro?

Não, “nem o cancro nem outra doença”, diz o oncologista.

A crença de que o dióxido de cloro curaria várias doenças começou em 2006 quando Jim Humble publicou The Miracle Mineral Solution of the 21st Century (A Solução Mineral Milagrosa do século XXI). No livro, alegava que o dióxido de cloro, uma mistura de clorito de sódio com um ácido (sumo de citrinos, vinagre, etc.), era a solução para várias doenças — chamou-lhe MMS [Miracle Mineral Solution] e começou a vendê-la. 

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Jim Humble, que já tinha sido cientologista, criou uma igreja — a Genesis II —, que segundo Mark Grenon, um dos co-fundadores, “não tem nada a ver com religião” e foi criada como forma de “legalizar o MMS”. 

Para além de prometerem que o MMS curava cancro, Alzheimer, autismo, entre outras condições. Em 2010, o governo canadiano emitiu um comunicado no qual alertava para os potenciais perigos de ingestão desta substância. Sublinhava ainda para que servia o clorito de sódio realmente: desinfetar superfícies e tingir (como uma espécie de lixívia) tecidos, polpa de celulose, entre outros.

Em 2020, foi adicionada mais uma doença à já extensa lista das que, supostamente, poderiam ser curadas por MMS: a Covid-19. Os devotos da Genesis II vendiam frascos da substância e prometiam que aquela era a prevenção e cura para a doença.

Em outubro de 2023, vários membros da família Grenon foram condenados a vários anos de prisão pela venda da substância. Terão feito mais de 1 milhão de dólares (cerca de 859 mil euros) a vender MMS como prevenção e cura para Covid-19.

Tanto a Food and Drugs Administration (FDA), a autoridade reguladora do medicamento dos Estados Unidos, como outras autoridades de saúde alertam para os perigos do consumo de MMS. E também não há evidência científica que mostre qualquer efeito positivo da ingestão de dióxido de cloro.

Um estudo publicado em 2023 concluiu que uma “solução de longo-termo estabilizada” de dióxido de cloro provoca a morte de células cancerígenas e o impacto é menor em células saudáveis. 

Tudo isto foi feito em laboratório, em placas de Petri, e não em seres humanos, por isso o estudo não prova que a ingestão desta substância cura o cancro. Os próprios investigadores dizem que é necessária mais investigação para perceber quais as possíveis aplicações do dióxido de cloro.

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Outra investigação, de 2016, chegou à mesma conclusão: em laboratório, o dióxido de cloro mata de forma mais eficaz células cancerígenas do que saudáveis. Mas um estudo in vitro não pode ser extrapolado para a utilização sugerida por quem vende MMS e não há estudos feitos em humanos.

“É uma cura falsa” porque os resultados de estudos in vitro não provam que a substância funcione no corpo humano, diz João Vasco Barreira. Seriam necessários outros estudos e ensaios clínicos.

Quais os riscos de ingerir dióxido de cloro?

“Consumir doses elevadas desta lixívia [dióxido de cloro] pode causar náuseas, vómitos, diarreia e sintomas de desidratação severa”, alerta a FDA. E “não há nenhuma dose segura”, sublinha o médico. Pode ainda provocar “níveis muito baixos de pressão do sangue”, que podem pôr em risco de vida uma pessoa que tome a solução.

Os efeitos costumam aparecer nas primeiras 24 horas após a ingestão e há também quem relate dores abdominais, irritação na garganta e nos olhos, tosse, queimaduras, entre outras. 

“Em situações mais graves, pode provocar anemia hemolítica, problemas respiratórios, falência respiratória aguda e, na pior das hipóteses, pode levar à morte”, alerta o médico.

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“[Divulgar esta suposta cura] é aproveitar-se do desespero dos doentes oncológicos” que, geralmente, estão “vulneráveis e suscetíveis a qualquer tipo de informação” que alegue curar o cancro.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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20 Ago 2025 - 08:45

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