Dieta, suplementos e enemas. A terapia Gerson cura o cancro?
Apesar de ainda ser promovida como uma cura para o cancro, a terapia Gerson não é recente. Trata-se de uma técnica da medicina complementar e alternativa desenvolvida entre os anos 20 e 30. Recentemente, voltou a ser falada a propósito da minissérie “Vinagre de Sidra”.
A minissérie da Netflix, que mistura factos e ficção, é baseada na história de Belle Gibson, uma influenciadora australiana que fingiu ter um cancro cerebral terminal que “curou” com tratamentos naturais promovidos pelo Instituto Hirsch (fictício). Apesar de não ser mencionado na série, o tratamento natural promovido pela verdadeira Belle Gibson foi a terapia Gerson.
A narrativa também acompanha Milla Blake, que, de facto, tem cancro e substitui os tratamentos convencionais pelas terapias naturais do mesmo instituto. Acredita-se que a personagem foi baseada na influencer Jessica Ainscough, que morreu aos 30 anos devido a um cancro raro, depois de recusar os tratamentos aprovados e seguir a terapia Gerson. Será que a terapia Gerson cura o cancro? Há evidência científica que o comprove?
É verdade que a terapia Gerson cura o cancro?
Não, “a terapia de Gerson não é um tratamento válido ou eficaz para o cancro” e “nunca deve ser utilizada em substituição” de tratamentos de qualidade, “como cirurgia, radioterapia ou quimioterapia”, sublinha-se num texto do Cancer Council (ver também aqui e aqui).
Desenvolvida entre a década de 1920 e 1930 por Max Gerson, esta terapia foi inicialmente criada para tratar enxaquecas, mas depois “tornou-se conhecida do público como um tratamento para um tipo de tuberculose”, explica-se num texto do National Cancer Institute (NCI). Mais tarde, “a terapia Gerson passou a ser utilizada para tratar outras doenças, incluindo o cancro”.
O método criado por Gerson consiste em três partes principais: a dieta, a suplementação e a “desintoxicação”. A dieta inclui “frutas, vegetais e grãos integrais orgânicos para fornecer ao corpo vitaminas, minerais, enzimas e outros nutrientes em abundância”, refere-se no mesmo texto.
A suplementação tem como objetivo adicionar “certas substâncias à dieta para ajudar a corrigir o metabolismo celular”.
Já a desintoxicação consiste em “tratamentos, incluindo enemas [lavagens intestinais], para remover substâncias tóxicas” do corpo.
A terapia Gerson “baseia-se na ideia de que o cancro se desenvolve quando há alterações no metabolismo celular devido ao acúmulo de substâncias tóxicas no corpo”.
Por isso, o objetivo deste método “é restaurar a saúde do corpo, reparando o fígado e devolvendo o metabolismo ao seu estado normal” que, segundo Gerson, pode ser feito ao remover-se as toxinas do corpo e fortalecendo o sistema imunitário com dieta e suplementos.
Mas não há provas científicas de que a terapia Gerson cure o cancro. Além disso, substituir os tratamentos convencionais, eficazes e validados por terapias como esta pode pôr a vida em risco, tal como aconteceu com a influenciadora Jessica Ainscough.
Em 2010, o NCI fez uma revisão sobre o assunto e os investigadores responsáveis não encontraram evidências de que a terapia Gerson ajudasse, de alguma forma, os doentes com cancro.
Também, em 2014, um estudo de revisão analisou 13 dietas diferentes para o cancro. Os autores reviram todos os estudos anteriores sobre a terapia Gerson e concluíram que nenhuma das investigações provou que o método fosse eficaz no tratamento da doença oncológica.
Quais os riscos associados à terapia Gerson?
Alguns elementos da terapia Gerson são saudáveis, como, por exemplo, “comer alimentos com baixo teor de gordura e muitas frutas e vegetais frescos”, refere-se num texto do Cancer Research UK.
Contudo, “não é saudável comer grandes quantidades de um grupo alimentar de uma determinada forma (sumos) sem equilibrar com outros grupos alimentares”. Aliás, “pode ser prejudicial para pessoas que já estão fracas e doentes”, sublinha-se.
Além disso, este método está associado a “muitos efeitos secundários possíveis, alguns dos quais podem ser graves”.
Em relação aos enemas, por exemplo, a terapia sugere que se façam enemas de café que “removem uma grande quantidade de potássio do corpo”.
Mas estes procedimentos podem causar: “infeções”; “desidratação”; “convulsões”; “desequilíbrios de sal e outros minerais no corpo”; “problemas cardíacos e pulmonares, podendo levar à morte”; e “prisão de ventre e inflamação do intestino (colite) devido ao uso regular e prolongado de enemas, que podem enfraquecer os músculos intestinais”.
Noutro plano, “a maioria dos terapeutas Gerson incentiva as pessoas a não fazerem quimioterapia enquanto estão a fazer a terapia”, porque “acreditam que a quimioterapia prejudica a imunidade”, refere-se no mesmo texto.
No entanto, “interromper os tratamentos convencionais contra o cancro e os métodos de controlo dos sintomas pode ser prejudicial” para a saúde, podendo mesmo pôr em risco a vida do doente.
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