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Dieta carnívora cura doenças autoimunes? O que se sabe até agora

11 Mar 2025 - 09:14

Dieta carnívora cura doenças autoimunes? O que se sabe até agora

“Mulher reverte doença autoimune em 100 dias”. É este o título de um vídeo partilhado no TikTok em que uma mulher revela ter ficado em “remissão” de uma doença autoimune após comer apenas carne durante 100 dias, ou seja, por seguir os princípios da dieta carnívora.

A dieta carnívora consiste na ingestão exclusiva de alimentos de origem animal – carne (vermelhas e brancas), peixe, ovos e laticínios com baixo teor de hidratos de carbono. Neste plano alimentar, são excluídos ou limitados do prato outros grupos alimentares, como vegetais, frutas, cereais e leguminosas.

A alegação de que a dieta carnívora consegue reverter ou curar as doenças autoimunes é repetida em várias publicações nas redes sociais. Mas será verdade? O que sabe a ciência sobre este regime alimentar?

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A dieta carnívora reverte ou cura as doenças autoimunes?

Não existem evidências científicas robustas de que a dieta carnívora reverta ou cure doenças autoimunes, garantem ao Viral Ana Cavalheiro, nutricionista do Centro Hospitalar do Porto e do Instituto Médico de Estudos Imunológicos, e Sofia Pinheiro, coordenadora da unidade de doenças autoimunes da Unidade de Saúde Local (USL) de São José e professora assistente na Nova Medical School.

“Não está demonstrado que a dieta carnívora tenha qualquer impacto nas doenças autoimunes”, afirma Sofia Pinheiro. A professora assistente recorda que “não foram realizados estudos adequados para verificar os alegados efeitos positivos” deste regime alimentar.

No mesmo sentido, Ana Cavalheiro sublinha a “escassez de evidências científicas” sobre a eficácia desta dieta nas doenças autoimunes e, por isso, não há dados que sustentem a sua recomendação deste regime como complemento ao tratamento deste tipo de patologias.

A nutricionista reconhece a existência de alguns “relatos pessoais” que sugerem benefícios na redução da inflamação e dos sintomas. Contudo, esses efeitos não se generalizam a todos os pacientes, nem aos mais de 100 tipos de doenças autoimunes existentes. Além disso, acrescenta que a dieta carnívora pode representar riscos para a saúde a longo prazo.

Em algumas das publicações que circulam nas redes sociais a promover a dieta carnívora cita-se um estudo como prova científica de que a dieta carnívora teria benefícios para a saúde. 

Com base em mais de 2000 questionários online, os autores desta investigação concluíram que os adultos que seguiam a dieta carnívora há mais de seis meses “experienciaram poucos efeitos adversos e, em vez disso, relataram benefícios para a saúde e elevada satisfação”.

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Mais de 50% dos participantes do questionário afirmaram ter iniciado a dieta carnívora para “melhorar condições de alergias, de pele ou autoimunes, ou a saúde digestiva”. Entre os pacientes que disseram terem doenças autoimunes, 36% relatou que a dieta carnívora “resolveu” a condição, enquanto 53% disse que “melhorou”.

No entanto, este estudo apresenta várias limitações metodológicas e, por si só, não prova que a dieta carnívora cura ou reverte doenças autoimunes.

Num artigo de resposta a este estudo, um grupo de investigadores criticou a utilização de um questionário online, afirmando que este método pode “abrir portas a um enviesamento considerável quando usado para tentar caracterizar hábitos dietéticos, descrever estados de saúde e alterações no dito estado e avaliar deficiências nutricionais”.

Os autores desta crítica referem ainda que a amostra de participantes pode apresentar comportamentos diferentes da população geral e que os dados obtidos pelos questionários online não foram validados – incluindo o historial médico dos participantes, a frequência com que seguem a dieta carnívora e os valores de marcadores metabólicos (que foram indicados no questionário pelos próprios participantes).

É importante sublinhar que, neste estudo, não foram analisados clinicamente os efeitos da dieta carnívora. O estudo não verificou através de ensaios clínicos as referidas melhorias reportadas no questionário, não controlou as variáveis em análise, nem comparou os resultados entre um grupo de teste e um grupo de controlo. Por isso, este artigo não permite validar os benefícios da dieta carnívora e – como é referido pelos investigadores – são precisos mais estudos sobre este tema para obter conclusões robustas.

Potenciais benefícios e riscos: qual o impacto da dieta carnívora nas doenças autoimunes?

As doenças autoimunes resultam de um “mau funcionamento do sistema imunológico”, que leva o organismo a “atacar os seus próprios tecidos”, explica o manual médico MSD. Esta resposta desajustada do sistema imunológico provoca inflamação crónica no organismo, que pode desencadear lesões teciduais.

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Numa primeira fase, a dieta carnívora “pode ajudar a reduzir a inflamação ao excluir alimentos que potencialmente agravam a resposta inflamatória, como glúten, lectinas, fitatos e oxalatos”, esclarece Ana Cavalheiro. Também a redução de hidratos de carbono “pode ajudar a controlar os níveis elevados de insulina e glicose, o que pode ter um efeito anti-inflamatório”.

A perda de peso associada à dieta e o aumento da ingestão de proteína e gorduras de alta qualidade podem também ser fatores que contribuem para o “alívio de alguns sintomas”. Contudo, “não se pode afirmar que leva à remissão ou cura definitiva destas condições”, reforça Ana Cavalheiro.

“A dieta carnívora pode parecer uma alternativa para algumas pessoas que lutam contra doenças autoimunes, proporcionando o alívio imediato dos sintomas e promovendo uma melhor qualidade de vida. No entanto, é preciso ter em conta os efeitos secundários a longo prazo”, alerta a nutricionista.

Por ser “extremamente restritiva”, a dieta carnívora “não é considerada uma abordagem alimentar segura e está associada a diversos riscos para a saúde”, prossegue Ana Cavalheiro. 

“A ausência de frutas, vegetais e grãos resulta em carências de vitaminas, minerais e fibras, fundamentais para o funcionamento adequado do organismo”, sustenta.

Por outro lado, a carne pode também ser uma “fonte considerável de gorduras saturadas e colesterol” e o seu “consumo excessivo está associado a riscos para a saúde”, nomeadamente “aumento de colesterol ‘mau’”, “elevação da pressão arterial” e “maior probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares, renais e certos tipos de cancro”.

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A ingestão excessiva de alimentos de origem animal, principalmente carnes vermelhas, está ainda associada a um “aumento da inflamação crónica”, alerta Ana Cavalheiro. 

Também Sofia Pinheiro refere que “as carnes (especialmente as carnes vermelhas e com mais gordura) têm maior potencial inflamatório e podem até exacerbar a inflamação” provocada pela doença autoimune.

Ana Cavalheiro lembra que a alimentação pode ter um papel “crucial” na melhoria do prognóstico das doenças autoimunes. Seguir uma dieta equilibrada e diversificada pode contribuir “para a prevenção de infeções e de comorbidades associadas” e ajudar “a mitigar efeitos adversos de certos medicamentos”, acrescenta.

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Sofia Pinheiro acrescenta que os alimentos que exacerbam a inflamação podem reduzir os efeitos dos fármacos. “Estamos a tentar controlar a inflamação com fármacos, mas, por outro lado, estamos a exacerbar a inflamação com a dieta”, diz, lembrando que também os alimentos processados e os açúcares podem contribuir para um estado pró-inflamatório.

Conclusão: não há estudos robustos que analisem os benefícios ou os riscos da dieta carnívora entre pacientes com doença autoimune. Para algumas pessoas e em algumas doenças, esta dieta pode levar à redução de alguns sintomas inflamatórios numa fase inicial, contudo, o consumo exagerado e prolongado de produtos de origem animal – principalmente carnes vermelhas – pode ter consequências nefastas para a saúde.

11 Mar 2025 - 09:14

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