VITAL
Seguir uma “dieta alcalina” pode prevenir ou curar o cancro?
Um vídeo com mais de um milhão de visualizações no TikTok garante que o “cancro não pode viver num corpo alcalino” e sugere que é através de uma dieta com alimentos alcalinos (com pH acima de 7) que se elimina o risco de desenvolver a doença.
E a teoria está por todo o lado nas redes sociais, a lógica apresentada é sempre a mesma: ao deixar o pH de um organismo alcalino é possível prevenir o aparecimento de várias doenças, incluindo cancro. O que alegam é que, ao “evitar a acidez” e “promover a alcalinidade”, é possível “equilibrar o organismo”.
Em algumas publicações chega a sugerir-se que a dieta alcalina pode mesmo ser uma cura para o cancro. Mas nenhuma das alegações tem base científica e vários estudos feitos ao longo dos anos mostram que não é possível relacionar a ingestão de alimentos alcalinos com a eliminação do risco de cancro.
O que é a dieta alcalina?
A dieta alcalina parte do princípio de que os alimentos têm um efeito químico no organismo após a digestão: uns acidificam, outros alcalinizam. A carne, os cereais refinados e os refrigerantes, por exemplo, são considerados “acidificantes”, enquanto legumes, frutas e nozes, “alcalinizantes”.
O pH do sangue é controlado pelo corpo humano: varia entre 7,35 e 7,45, independentemente do que se come. A regulação do pH é feita por órgãos como os rins e os pulmões, que mantêm esse equilíbrio constante. O que pode mudar com a alimentação é o pH da urina, mas isso não representa uma alteração do ambiente interno do corpo — nem tem qualquer efeito conhecido na prevenção do cancro.
O que diz a evidência científica?
Parte da confusão que alimenta estas alegações tem origem num fenómeno mal interpretado. Alguns tipos de tumores desenvolvem-se em ambientes extracelulares ácidos. A acidez não é provocada pela dieta da pessoa, mas sim pelas próprias células cancerígenas. Ou seja, o cancro cria acidez à sua volta — não é a acidez que o causa.
Uma revisão sistemática publicada no BMJ Open em 2016 concluiu que não havia evidência que suportasse a relação entre dieta alcalina e menor risco da doença. Os autores da revisão foram diretos: “A promoção de dietas alcalinas ou água alcalina para prevenção ou tratamento do cancro não é justificada”.
Uma análise mais recente, publicada em 2022, observou uma associação entre dietas com alta carga ácida — ou seja, ricas em proteína animal e pobres em vegetais — e um maior risco de cancro. No entanto, os autores alertaram que essa ligação não demonstra causalidade já que o mais provável é que se trate do reflexo de padrões alimentares menos saudáveis, e não de uma suposta acidez no corpo — ou seja, é o tipo de dieta que faz mal, não o pH que ela supostamente gera.
Um estudo da Frontiers in Oncology de 2022 analisou vários estudos sobre o tema. Um deles mostrou que a dieta alcalina, em alguns casos, resultou num aumento do pH da urina. Outro concluía que, em doentes com cancro do pâncreas, a administração oral de bicarbonato de sódio podia aumentar a capacidade terapêutica de medicamentos utilizados no tratamento da doença oncológica ao neutralizar o pH do microambiente tumoral.
Mas mesmo esses resultados devem ser lidos com cautela: os próprios autores alertam que não é possível isolar o efeito da dieta, que os dados são observacionais, e que não existem ensaios clínicos controlados que comprovem qualquer eficácia.
As instituições médicas seguem a mesma linha. A Cancer Research UK afirma que “não há evidência de que uma dieta alcalina possa prevenir ou curar o cancro”. No mesmo sentido, o MD Anderson Cancer Center classifica esta ideia como um mito: “O corpo regula o pH do sangue com grande precisão. A ideia de que conseguimos ‘alcalinizar’ o corpo com a dieta não é verdadeira.”
Importa reforçar que a alimentação tem, sim, um papel importante na prevenção de várias doenças. Dietas ricas em vegetais, fibras e gorduras saudáveis são recomendadas por todas as diretrizes de saúde pública, mas os seus benefícios vêm da qualidade nutricional dos alimentos — e não do seu pH.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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