Detox de cortisol ajuda a emagrecer “sem contar calorias”? Tem riscos?
No Instagram circula a promessa de que fazer um “detox de cortisol” é o segredo para emagrecer “sem contar calorias”. Segundo a publicação, controlar esta hormona, através de uma dieta específica, seria a chave para perder peso de forma rápida e eficaz.
No post escreve-se ainda que “a maioria das mulheres não percebe que o cortisol é que está a bloquear o emagrecimento”. Mas será mesmo assim? Existe base científica para falar num “detox de cortisol”?
O cortisol é o principal culpado pelo aumento de peso?
O cortisol cronicamente elevado, associado ao stress crónico, pode ser “um fator contribuinte, mas não o principal culpado” do ganho de peso, adianta a endocrinologista Joana Menezes Nunes, em declarações ao Viral.
“O que a ciência diz é que o cortisol elevado aumenta o apetite (particularmente por alimentos hipercalóricos, ricos em açúcar e gordura) e favorece a acumulação de gordura na zona abdominal (a chamada gordura visceral, a mais perigosa em termos de saúde)”, detalha.
Já uma investigação publicada no Biopsychosocial Science and Medicine concluiu que a gordura abdominal está associada a maior sensibilidade ao stress e a níveis mais elevados de cortisol, ligando o stress psicológico ao risco de doença.
Ainda assim, a especialista esclarece que esta hormona “é apenas uma peça do xadrez”. Culpar exclusivamente o cortisol pelo ganho de peso “é ignorar que 70% a 80% do peso” é determinado por genética e epigenética, além de fatores como qualidade do sono, distúrbios endócrinos, fármacos promotores do aumento de peso, ambiente, relação emocional com a comida, sarcopenia (falta de massa muscular), alterações hormonais, disruptores endócrinos e outras variáveis.
Joana Menezes Nunes frisa que há “mais culpados nessa doença tão complexa, heterogénea e multifatorial quanto é a obesidade”.
Cortisol elevado é o mesmo que ter síndrome de Cushing?
“A diferença é abismal”, refuta a endocrinologista. A chamada síndrome de Cushing é “uma doença endócrina real e grave”, causada por tumores na hipófise, produção ectópica de hormona ou alterações nas suprarrenais, podendo também resultar do uso prolongado de corticoides.
Nestes casos, esclarece, “os níveis de cortisol estão altos, bastante altos”, e surgem sinais clínicos característicos como a face em “lua cheia”, rubiose facial, acumulação de gordura centrípeta (mais conhecida por “bossa de búfalo”), estrias violáceas largas, fraqueza muscular e osteoporose.
Já o “cortisol do bem-estar comercial” refere-se ao stress fisiológico do dia a dia, relacionado com o trabalho, pouco sono ou ansiedade. “Os níveis podem oscilar ou estar ligeiramente acima do normal, mas não são patológicos”, explica a especialista.
Um estudo transversal com 369 participantes com excesso de peso e obesidade, encomendado pela Obesity Society, confirmou que, embora existam associações pontuais entre cortisol e obesidade abdominal na literatura, não foi encontrada uma relação consistente entre a obesidade e parâmetros de cortisol na ausência de síndrome de Cushing, corroborando a distinção que a endocrinologista sublinha.
Neste sentido, deixa um reparo: “Vender programas para tratar uma doença que a pessoa não tem é algo grave, no meu entender”.
Faz sentido “fazer detox” de uma hormona?
Do ponto de vista fisiológico, não. “O cortisol não é uma toxina; é uma hormona da sobrevivência. Precisamos de um pico de cortisol de manhã simplesmente para conseguir acordar e sair da cama, e para manter a nossa tensão arterial estável, e à noite menos cortisol (quando a melatonina está mais alta) para dormirmos”, explica.
“Fazer ‘detox’ de uma hormona vital faz tanto sentido como fazer ‘detox’ à insulina ou ao oxigénio”, compara a endocrinologista.
Na perspetiva da médica, o que pode fazer sentido é “gerir o stress” através de “sono adequado, exercício físico, terapia ou fármacos, se necessário”.
Existe alguma dieta com evidência para reduzir o cortisol?
“Não existe nenhuma dieta mágica”, aponta. Segundo a endocrinologista, o que pode ajudar a regular o eixo do stress é seguir uma alimentação de padrão anti-inflamatório, como a dieta Mediterrânica, “baixa em sal e rica em fibras, ómega-3 e antioxidantes”.
Numa linha semelhante, o ensaio clínico DIRECT-PLUS, com 294 participantes acompanhados durante 18 meses, demonstrou que a dieta Mediterrânica reduziu os níveis matinais de cortisol em jejum, associando-se ainda a melhoria de vários biomarcadores metabólicos.
Quanto à chamada dieta carnívora, por vezes promovida como “detox de cortisol”, Joana Menezes Nunes considera que esta se trata de “uma contradição fisiológica”.
“A dieta carnívora (apenas carne, ovos, gordura, zero hidratos) coloca o corpo num estado de cetose e obriga o fígado a produzir glicose a partir de proteínas (gliconeogénese)”, explica.
Ou seja, a restrição extrema de hidratos pode constituir “um fator de stress fisiológico agudo que, a curto prazo, pode até aumentar os níveis de cortisol”.
A endocrinologista fala ainda em potenciais riscos associados, como aumento da inflamação e agravamento de processos ligados à aterosclerose.
Uma meta-análise publicada na Nutrition and Health confirmou que dietas com muito baixo teor de hidratos de carbono elevam transitoriamente os níveis de cortisol em repouso a curto prazo, sendo que o aumento inicial do cortisol pode contribuir para uma elevação transitória da gliconeogénese (o processo metabólico pelo qual o organismo produz glicose a partir de substâncias que não são hidratos de carbono).
É possível emagrecer “sem contar calorias”?
“Sim, mas por um motivo simples”, esclarece. Algumas dietas, como a carnívora ou a cetogénica, são “extremamente saciantes”. A elevada ingestão de proteína e gordura prolonga a digestão e reduz o apetite. A pessoa “não conta calorias, mas está a ingerir muito menos do que gastava. A ‘magia’ está no défice calórico provocado pela saciedade precoce.”
A publicação do Instagram em análise assegura também que a chamada “dieta do cortisol” pode levar a uma perda de 22 quilos em seis semanas, cerca de 3,6 quilos por semana, embora não exista evidência científica que o prove.
Mesmo que fosse real, este tipo de perda só poderia ser ponderado “numa fase muito inicial em pessoas com índice de massa corporal francamente acima dos 40 kg/m²”, admite Joana Menezes Nunes. E, mesmo assim, “a maior parte do peso perdido nas primeiras semanas será água e glicogénio, não apenas gordura”.
A especialista alerta para riscos elevados associados a uma perda tão rápida:
– Litíase biliar (formação de pedras na vesícula), frequentemente exigindo cirurgia de urgência;
– Sarcopenia, ou perda de músculo, já que o corpo não consegue perder apenas gordura a esse ritmo e consome também massa muscular;
– Efeito ioiô, isto é, a “receita perfeita” para uma rápida recuperação do peso;
– Alterações do comportamento alimentar, incluindo episódios de ingestão compulsiva (conhecidos como binge eating);
– Queda de cabelo, unhas frágeis, cansaço e flacidez da pele.
Perdas de peso tão rápidas são “uma violência em termos metabólicos, hormonais, nutricionais e de imagem (saúde física e mental)”, resume. O Instituto Nacional de Diabetes e Doenças Digestivas e Renais dos EUA (NIDDK) recomenda explicitamente evitar “dietas-choque” que prometem perda de peso rápida, precisamente por este risco.
É eticamente aceitável um especialista recomendar este tipo de programa?
Segundo Joana Menezes, a prática clínica deve basear-se em orientações nacionais e internacionais, que recomendam para o tratamento de obesidade terapia “cognitiva comportamental, fármacos aprovados e/ou cirurgia bariátrica”.
“Endossar um programa que promete perdas de peso perigosas, poderá, no meu singelo entender, pôr em causa o princípio de primum non nocere (primeiro, não fazer mal – não maleficência) e o princípio da beneficência (isto é, o dever de agir sempre no melhor interesse do doente, visando promover o bem-estar, tratar doenças e aliviar o sofrimento)”, considera.
Ainda assim, ressalva que todos os assuntos devem ser avaliados “por quem de direito” e em sede própria, “não nas redes sociais”.
Em suma, não existe evidência científica que sustente a ideia de que um “detox de cortisol” seja a chave para emagrecer. O cortisol não é uma toxina, mas uma hormona essencial ao funcionamento do organismo. Embora o stress crónico possa contribuir para alterações do apetite e acumulação de gordura abdominal, está longe de ser o principal responsável pelo aumento de peso.
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