VITAL
A deteção precoce do cancro não tem qualquer impacto na sobrevivência?
Num vídeo com milhares de visualizações no TikTok, um alegado médico garante que a deteção precoce de um cancro não tem qualquer impacto na sobrevivência — é igual detetá-lo numa fase inicial ou final.
Mais à frente diz que as mamografias, as colonoscopias e outros exames utilizados em rastreios são “fraudes”.
Será mesmo assim? O oncologista Pedro Simões diz que, para responder, é preciso “desmontar as ideias” — vamos por partes.
Detetar um cancro em fase inicial não tem impacto na sobrevivência?
“O tratamento de qualquer tipo de cancro, quando é detetado numa fase inicial, é muito mais simples e com menos comorbilidades do que quando é detetado numa fase tardia”, isso é certo, começa por dizer o especialista.
E ilustra com um exemplo: “Quando um cancro da mama é detetado numa fase precoce — um pequeno nódulo, sem envolvimento de gânglios linfáticos ou outros órgãos — o tratamento pode passar apenas por uma pequena cirurgia seguida de radioterapia. Numa fase mais avançada, pode ser necessário um tratamento mais intensivo de quimioterapia”.
“A sobrevivência é francamente melhor quando o cancro é detetado numa fase menos avançada”, garante Pedro Simões.
Um estudo publicado na JAMA Oncology no final de 2024 concluiu que a prevenção e rastreios evitaram mais mortes por cancro entre 1975 e 2020 do que os avanços nos tratamentos. Os investigadores debruçaram-se sobre cinco tipos de cancro: mama, colo do útero, colorretal, pulmão e próstata.
“Oito em cada dez mortes por estes cinco tipos de cancro que foram evitadas nos últimos 45 anos devem-se aos avanços na prevenção e rastreio”.
Os rastreios são outra questão. Antes de focar a conversa aí, Pedro Simões ressalva que não há qualquer dúvida de que a deteção precoce de um cancro garante sempre melhor hipótese de sobrevivência do que uma deteção tardia.
Evidência diz que impacto dos rastreios é mais positivo
Os rastreios são uma questão “mais complexa”, diz o médico, porque há “estudos com respostas discrepantes relativamente a se fazer o rastreio melhora a sobrevivência global e a longo prazo”. Ainda assim, “grande parte dos estudos parece indicar que sim” e, por isso, Pedro Simões considera falso que o rastreio não tenha nenhum impacto na sobrevivência.
Vários artigos científicos, à semelhança do publicado na JAMA Oncology em 2024, sugerem que os rastreios podem, de facto, aumentar a sobrevivência. O oncologista, em conversa com o Viral, referiu essencialmente o impacto do rastreio do cancro do colo do útero, do pulmão, colorretal e da mama.
Esses são “os principais rastreios recomendados” e “a evidência parece demonstrar que não só a realização do rastreio, mas a realização do rastreio de uma forma regular está relacionada a uma melhoria da sobrevivência”.
No caso específico do cancro da mama, “não é tão claro se [o rastreio] melhora ou não a sobrevivência a longo prazo de todas as pessoas”. Alguns estudos (a maioria) indicam que há um aumento da sobrevivência, outros dizem que ele existe, mas é mínimo.
E há outras críticas feitas aos rastreios: uma delas o facto de poder haver “falsos positivos”, que fazem com que seja necessário fazer uma biópsia que não leva a nenhum diagnóstico oncológico, “com todos os riscos associados e com o aumento da ansiedade por parte dos doentes que são submetidos a esses procedimentos”.
Existe também a possibilidade de se detetarem tumores que nunca iriam evoluir no tempo de vida do doente. Por exemplo, no caso do cancro da próstata, “no rastreio regular — esse não temos realmente a certeza se melhora a sobrevivência — há descrição de casos que são tumores tão pequenos e tão pouco agressivos que muito provavelmente nunca iriam causar problemas no período de vida daquela pessoa”.
Essa deteção faz com que o doente seja submetido a tratamentos como “cirurgia, ou radioterapia, que têm complicações a nível da saúde da pessoa.” Quando isto acontece, por exemplo, a uma pessoa com 80 anos, é “um achado”, o mais provável era “nunca causar complicações.”
Apesar disso, ao pôr todos os fatores numa balança, o impacto dos rastreios continua a ser mais positivo, é o que diz “a evidência mais atual”.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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