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Défice de magnésio pode causar síndrome das pernas inquietas? O que diz a ciência

12 Mai 2026 - 08:15

Défice de magnésio pode causar síndrome das pernas inquietas? O que diz a ciência

Em alguns vídeos partilhados no TikTok alega-se que o défice de magnésio pode causar síndrome das pernas inquietas (SPI). Assim, defende-se, para tratar a condição “basta” suplementar este mineral. Será mesmo assim?

É verdade que o défice de magnésio pode causar síndrome das pernas inquietas?

Em declarações ao Viral, Vânia Caldeira, pneumologista e membro da Comissão de Trabalho de Patologia Respiratória do Sono da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), começa por adiantar que, quando não há défice registado, não há evidência científica robusta “que relacione a reposição de magnésio com a melhoria das pernas inquietas”, sublinha a médica.

Existem, de facto, alguns estudos em que se sugere que a suplementação com magnésio pode reduzir os sintomas da SPI. Contudo, a evidência disponível tem limitações, o que não permite tirar conclusões concretas.

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Por exemplo, há um estudo de 2022 em que se sugere que o magnésio e a vitamina B6 podem reduzir os sintomas da SPI, mas este trabalho tem muitas limitações, incluindo uma amostra reduzida.

Numa revisão sistemática de 2019 refere-se que não é claro se o magnésio ajuda a aliviar a SPI ou se a suplementação deste mineral tem algum benefício neste contexto.

Noutra revisão de 2024 também se aponta que o magnésio pode ter um impacto positivo neste contexto, mas a evidência apresentada é muito limitada. Tem amostras reduzidas, são estudos de curta duração e há um risco de viés elevado.

Uma das justificações dada pelos investigadores sobre o possível efeito positivo do magnésio é o facto de algumas pessoas com SPI terem défice deste micronutriente. Nesses casos, a suplementação parece ajudar a reduzir os sintomas da doença.

No entanto, é importante sublinhar que uma possível correlação não significa causalidade, ou seja, não há provas de que o défice de magnésio cause a síndrome das pernas inquietas. Sugere-se apenas que o défice deste mineral pode piorar os sintomas e, nesse contexto, a suplementação parece ajudar.

Até à data, refere Vânia Caldeira, “nas guidelines mais recentes” sobre o tratamento da SPI “não há nenhuma indicação para suplementar com magnésio”.

Na perspetiva da pneumologista, a associação feita nas redes sociais entre a suplementação de magnésio e a SPI pode estar a ser confundida com outros fatores.

Um deles é “a deficiência de ferro”. Segundo a médica, “sabe-se, há muitos anos, que a primeira coisa a fazer numa pessoa com diagnóstico de pernas inquietas é uma análise com a cinética do ferro”.

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Mesmo quando não há anemia, a falta de ferro pode ser a causa da SPI em “pessoas dentro dos valores de referência, mas num linear mais inferior”.

Por outro lado, “as cãibras do sono”, outro “distúrbio do movimento do sono”, podem ser confundidas com SPI. 

Enquanto na SPI, a dor vai-se instalando, provocando uma sensação desconfortável, a cãibra do sono “é uma dor mais aguda, súbita e intensa”. No fundo, “é uma contração muscular que só acontece nas pernas”.

Um défice grave de magnésio “pode causar dormência, formigueiro” e “cãibras musculares”, refere-se num texto dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla inglesa). Por isso, nesse contexto, pode fazer sentido suplementar.

O magnésio é um nutriente importante “para muitos processos no organismo, incluindo a regulação da função muscular e nervosa, dos níveis de açúcar no sangue e da pressão arterial, bem como para a síntese de proteínas, ossos e ADN”, lê-se no mesmo texto (ver também aqui)

Além do défice de ferro, existem outros fatores de risco conhecidos para esta síndrome. Vânia Caldeira explica que é uma síndrome “mais frequente nas mulheres” e/ou na gravidez e em pessoas com “doença renal crónica”. 

Para mais, “a história familiar também é um fator de risco”, ou seja, uma pessoa que tem alguém na família com SPI tem maior probabilidade de desenvolver a síndrome.

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O que é a SPI? Como se trata?

Apesar de a síndrome das pernas inquietas ser, em conjunto com a insónia e com a apneia do sono, um dos principais motivos que leva as pessoas a procurarem uma consulta do sono, ainda permanecem muitas dúvidas sobre esta síndrome.

Segundo Vânia Caldeira, o diagnóstico da SPI é clínico, ou seja, baseia-se nos sinais e nos sintomas do doente. As pessoas com SPI descrevem “uma urgência muito grande e quase incontrolável em mexer os membros, sobretudo os pés”. Há pessoas que também sentem dor e desconforto se não o fizerem. 

Por norma, essa urgência em mexer as pernas e os pés “agrava com o repouso, quando a pessoa está quieta, sobretudo à noite”, e melhora com o movimento.

Na perspetiva da médica, é muito importante não desvalorizar os sintomas e ir a uma consulta de sono, porque, muitas vezes, são situações fáceis de resolver.

A primeira coisa a fazer é uma análise aos níveis de ferro e perceber “que medicação é que a pessoa está a fazer”, aponta. 

Há medicamentos que podem causar a síndrome (ver aqui). Por exemplo, refere a pneumologista, “existem antidepressivos que podem causar síndrome das pernas inquietas”.

Nestes casos, basta trocar a medicação e no caso do défice de ferro deve-se fazer “ferro oral ou intravenoso” para repor os níveis.

Se os níveis de ferro estiverem adequados, se não houver nenhuma medicação que esteja a causar a SPI, se a pessoa tiver uma boa higiene do sono e, mesmo assim, os sintomas da síndrome se mantiverem, é preciso passar para o tratamento farmacológico.

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Os medicamentos de primeira linha são “os gabapentinoides”, como a “pregabalina” e a “gabapentina”, que são fármacos com “bons resultados e poucos efeitos adversos” (ver também aqui).

Também é comum, nos casos de SPI, fazer-se “um estudo de sono”. Não é obrigatório, até porque o diagnóstico é clínico, mas, muitas vezes, esta síndrome associa-se à apneia do sono.

É importante perceber se a pessoa tem outra perturbação do sono, porque a apneia, por exemplo, potencia a SPI. Sabe-se que “a apneia de sono não identificada e não tratada” piora a síndrome das pernas inquietas e o tratamento também melhora os sintomas da SPI.

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Neurologia

12 Mai 2026 - 08:15

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