Da difteria ao tétano: As falsidades e imprecisões nas declarações de Gustavo Santos
O ex-apresentador e escritor Gustavo Santos, conhecido por partilhar ideias anti-vacinas nas redes sociais, foi convidado para o videocast semanal The Leite Show, apresentado por Flávio Furtado. Durante a entrevista, Gustavo Santos faz várias alegações sobre a vacina contra a difteria e contra o tétano.
Sugeriu que “ninguém morre de difteria na Europa, porque as condições de vida subiram muito”, e que passar água oxigenada nas feridas impede a bactéria do tétano de se desenvolver. Referiu ainda que um dos pilares da vacinação é a imunidade de grupo, que, “no tétano não faz sentido”, porque “a bactéria não é contagiosa”.
E, por fim, afirmou que quem tem tétano, “normalmente, são pessoas na casa dos 60, 70 anos que trabalham na agricultura ou na construção”. Por isso, defendeu que não tem lógica as crianças tomarem a vacina contra o tétano.
Todas estas afirmações são, segundo Miguel Prudêncio, imprecisas. O investigador na área das vacinas do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular (GIMM) e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) defende que as alegações de Gustavo Santos são perigosas para a saúde pública, sobretudo porque o ex-apresentador tem “uma grande visibilidade que lhe é conferida pelas redes sociais”.
Em declarações ao Viral, Miguel Prudêncio desconstrói, uma a uma, as afirmações imprecisas de Gustavo Santos sobre a difteria e o tétano.
1 – “Já ninguém morre de difteria na Europa”?
A difteria é uma doença infecciosa “causada pela toxina da bactéria Corynebacterium diphtheriae”, lê-se no site do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24).
A infeção pode ocorrer “ao nível das vias respiratórias superiores, com aparecimento de lesões localizadas nas amígdalas, laringe, nariz, e também na pele”.
De facto, “hoje em dia, felizmente, ninguém morre de difteria na Europa – ou, se sim, são casos muito raros -, mas a razão pela qual isso acontece é porque as pessoas estão vacinadas contra a difteria”, adianta Miguel Prudêncio.
Mas a bactéria não desapareceu. “Ao contrário do que acontece, por exemplo, com o vírus da varíola (a única doença infecciosa erradicada), a bactéria que causa a difteria não está erradicada”, explica.
Segundo o investigador, “continuam a existir casos de difteria” e há países em que “a difteria é endémica”, sobretudo “devido a uma vacinação insuficiente”, sublinha-se num texto da Organização Mundial da Saúde.
Como as pessoas viajam cada vez mais entre países, quem transporta a bactéria pode levá-la para regiões onde a difteria “não é um problema visível”. Se houver pessoas não vacinadas nessas comunidades, a bactéria “tem o potencial de causar doença”.
Na entrevista em análise, Gustavo Santos referia ainda que esta doença só era um problema em 1800 ou em 1900, quando se vivia em casas húmidas, “sem luz solar, onde não há refrigeração para conservar a comida e em que se bebe água dos riachos para onde as fábricas mandam os tóxicos todos”. Nesse contexto, acrescentava, “o sistema imunitário está tão em baixo que qualquer vírus, bactéria ou fungo que apareça” pode matar.
Contudo, Miguel Prudêncio sublinha que esta alegação não faz qualquer sentido, porque “a bactéria que causa a difteria tem como único hospedeiro o ser humano”.
A humidade “favorece o aparecimento de fungos e ácaros”, por exemplo, “mas isso não tem qualquer relação com a bactéria da difteria”, sublinha.
O mesmo se aplica à comida. “A comida mal conservada pode ser facilmente contaminada por bactérias que causam infeções gastrointestinais”, mas “a bactéria que causa a difteria não se multiplica na comida nem é transmitida por ingestão de alimentos estragados”, esclarece.
2 – “O tétano é uma bactéria anaeróbica que morre automaticamente quando é exposta ao oxigénio”. Se fizer um corte, basta “passar água oxigenada que a bactéria não tem hipótese de se desenvolver”?
Como na maioria da desinformação, “há sempre uma parte ínfima de verdade naquilo que se diz”. O problema “é o que se extrapola a partir dessa parte”, adianta Miguel Prudêncio.
De facto, “a bactéria do tétano é anaeróbica”, o que significa que “não sobrevive na presença do oxigénio”.
Acontece que, “quando as bactérias estão expostas a condições que não lhes são favoráveis, a forma que elas encontram de lidar com essas condições adversas é formarem esporos altamente resistentes”, explica o investigador.
Ao contrário da difteria, “o tétano não se transmite de pessoa para pessoa”, sublinha. Trata-se de “uma infeção aguda e grave” que se transmite “pela contaminação de qualquer tipo de ferida com esporo da bactéria Clostridium tetani, que se encontra no meio ambiente”, lê-se noutro texto do SNS 24.
Portanto, a água oxigenada (peróxido de hidrogénio) até pode destruir a bactéria, mas “não destrói os esporos”, salienta Miguel Prudêncio.
“Quando há um golpe profundo em que há uma contaminação com os esporos da bactéria, a água oxigenada não penetra suficientemente fundo na pele para chegar à zona onde esses esporos estão”, acrescenta.
Mais, “um corte profundo onde não existe uma exposição ao oxigénio” é o ambiente ideal para “os esporos se transformarem em bactérias e causarem a doença”, acrescenta.
3 – Um dos pilares da vacinação é a imunidade de grupo, que “no tétano não faz sentido”, porque “a bactéria não é contagiosa”?
Miguel Prudêncio explica que “consoante a forma como os microorganismos se propagam e se transmitem, a imunidade de grupo pode ou não ser um elemento importante da vacinação”.
Por exemplo, “uma doença como o sarampo, a gripe, ou a difteria, transmitidas por via aérea, a imunidade de grupo é muito importante, porque são microorganismos que podem ‘saltar’ de pessoa para pessoa”.
Nesses casos, “a imunidade de grupo vai fazer com que seja mais difícil ‘saltar’ para uma pessoa que não esteja protegida”. Além disso, “se houver uma elevada taxa de vacinação, à partida, uma pessoa que não possa ser vacinada por razões de saúde está protegida pelas pessoas à sua volta que estão vacinadas”.
No caso do tétano, “isto simplesmente não se aplica, mas isto não retira importância à vacinação”, defende o investigador. A vacina, neste contexto, “confere proteção individual” e “as pessoas continuam a precisar de estar protegidas”.
4 – Quem tem tétano, “normalmente, são pessoas na casa dos 60, 70 anos que trabalham na agricultura ou na construção”, por isso não faz sentido as crianças tomarem a vacina contra o tétano?
Em primeiro lugar, “é mentira que só as pessoas com 60 ou 70 anos é que podem contrair e sofrer as consequências do tétano”, começa por avançar Miguel Prudêncio.
Aliás, “o tétano em recém-nascidos (tétano neonatal) é extremamente perigoso”. O investigador refere que, “sem cuidados hospitalares intensivos, a taxa de mortalidade do tétano para um recém-nascido é próxima de 100%”.
Nesse sentido, é importante as grávidas terem a vacina contra o tétano em dia, para “passarem os anticorpos protetores” ao bebé.
Apesar disso, é verdade que o tétano é um problema maior nas pessoas com 60 e 70 anos do que na generalidade dos adultos.
Segundo Miguel Prudêncio, existem dois motivos para isto. “A primeira é que, em princípio, quanto mais velhos somos, mais fragilidades temos e, tendencialmente, as nossas defesas são menores”.
A outra razão é que o tétano requer reforços regulares e “as pessoas nem sempre os fazem, ou porque se esquecem, ou porque a partir de uma determinada idade acham que já não devem fazer o reforço”.
“Se aliarmos o facto de serem necessários reforços regulares da vacina ao facto de as pessoas mais idosas terem menos defesas, é evidente que acaba por haver uma prevalência e consequências mais graves nos mais velhos”, esclarece.
Segundo os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), cita o investigador, “no tétano, os adultos entre os 65 e os 80 anos têm uma taxa de letalidade de cerca de 31% e, para adultos com mais de 80 anos, essa taxa de letalidade sobe acima dos 60%” (ver aqui e aqui).
Também faz sentido que as pessoas que trabalham na agricultura ou na construção corram um maior risco de contrair tétano, “porque são pessoas mais expostas a material potencialmente infetado” e têm maior probabilidade de fazer “feridas, golpes ou cortes”.
Como termo de comparação, “pessoas acima dos 60 e 70 anos que trabalham em profissões que expõem a esse tipo de ferimentos têm mais probabilidades de contrair tétano do que uma pessoa com 40 anos que trabalha num escritório”, exemplifica.
Mas isto não significa que “as pessoas não vacinadas com outras idades não possam contrair a doença, nem que seja apenas nessas idades e nessas profissões que o risco existe”, sublinha Miguel Prudêncio.
É “precisamente graças à vacina” que o tétano já não é o problema que era antes. “Sem a vacina, a situação seria bastante pior, a todos os níveis”, acrescenta.
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