VITAL
Este livro descreve mesmo a cura para o cancro?
No TikTok, em várias publicações, há uma fotografia que se repete: uma página de um livro com um aspeto antigo onde se lê, no topo, “A Cura do Cancro”. Nas linhas seguintes, descreve-se uma suposta cura com um composto feito de arsénio ou zinco (“pasta escariótica”).
“Se for bem aplicado, irá fazer o cancro desaparecer em algumas horas. Em casos mais graves, pode demorar entre dois a cinco dias”, lê-se no texto.
Este tratamento foi desenvolvido por Perry Nichols, um médico norte-americano, no início do século XX. Nichols acreditava que o cancro era um fungo e, por isso, podia ser facilmente curado com este tipo de tratamento.
No entanto, cancro não é um fungo — “mais de cem anos de investigação mostram isso”, sublinha o Cancer Research UK. Mas será que o tratamento desenvolvido pelo médico norte-americano cura o cancro?
Perry Nichols descreveu uma cura para o cancro que funciona?
Não. A American Cancer Society refere que não há qualquer evidência que mostre que este método seja eficaz.
Nichols administrava este tratamento a doentes na sua clínica. Em 1943, um relatório no Journal of the Missouri State Medical Association dava conta dos “perigos das pastas escarióticas no tratamento de cancro”.
Nesse artigo, falava-se de 39 pacientes que tinham procurado uma terapia alternativa antes de irem a hospitais — os autores escreveram que os pacientes tinham “sido vistos por charlatães que usaram o tratamento das pastas”.
Desses, 19 tinham sido acompanhados na clínica de Perry Nichols. Muitos tinham cicatrizes no local do suposto tumor e quase todos tinham recidiva. Só em três casos, o cancro parecia mesmo ter desaparecido. Porém, eram precisamente esses três que nunca tinham feito uma biópsia ou tinham tido um resultado negativo nesse exame.
Segundo um documento da American Cancer Society, com o título “Métodos não comprovados de tratamento de cancro: o método escariótico de Nichols”, muitos dos pacientes que o médico alegadamente tratava nunca tinham tido uma opinião independente — era Nichols, dono de uma clínica de “tratamento de cancro”, o único a dizer ao paciente que tinha cancro.
Em 2002, foi publicado um artigo que se focava em quatro pessoas, todas tinham tido cancro da pele (não melanoma) e tinham usado “agentes escarióticos” como tratamento primário.
Os autores desse estudo concluíram que “a eficácia desses agentes não foi comprovada e o seu conteúdo não é regulamentado”. E “o seu uso pode resultar em consequências sérias” — um dos pacientes tinha cicatrizes graves e o cancro não desaparece utilizando este método.
“A medicina convencional tem um excelente histórico no tratamento do cancro de pele. Os médicos devem desaconselhar o uso de agentes escaróticos para o cancro de pele”, escreve-se no mesmo artigo.
As pastas utilizadas por Nichols não eram vendidas fora da sua clínica, mas outras pastas (diferentes, mas com a mesma base) foram criadas ao longo dos anos. A evidência mostra que este não é um tratamento para o cancro, não diminui tumores e muito menos “cura”, como é afirmado no livro.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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