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Comer sementes de maçã previne ou cura cancro?

6 Set 2025 - 08:45
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Comer sementes de maçã previne ou cura cancro?

Em alguns vídeos nas redes sociais incentiva-se doentes oncológicos a comer sementes de maçã para curar o cancro. Alguns alegam ainda que ingerir essas sementes irá prevenir o desenvolvimento de doença oncológica no futuro. Tudo isso graças à amigdalina, uma substância presente no interior de caroços de várias frutas. Os autores dos vídeos referem-se a esse composto como “vitamina B17”. Mas será mesmo assim? Há uma substância “anti-cancro” nas sementes de maçã? 

Sementes de maçã curam ou previnem cancro?

Não existe evidência científica nenhuma que comprove essas alegações”, afirma uma nutricionista especialista em oncologia. O composto em causa já foi estudado há várias décadas. Nos primeiros trabalhos, feitos em laboratório com células tumorais isoladas, observou-se algum efeito. No entanto, quando a investigação avançou para modelos animais e humanos “não demonstraram eficácia sustentada”.

Parte da confusão nasce do modo como se comunicam os resultados científicos. Elsa Madureira refere que há décadas foram feitos estudos in vitro com células em ambiente controlado, mas esse tipo de investigação serve para levantar hipóteses, não para chegar a conclusões clínicas.

“Em laboratório estudam-se doses muito elevadas de um único composto numa linha celular específica. Mas o organismo humano é muito mais complexo. Primeiro, não consumimos apenas esse composto isolado; depois, o que acontece no corpo envolve digestão, metabolismo, absorção e interação com inúmeros outros fatores. Não se pode pegar num resultado em células e concluir que funciona da mesma forma em pessoas”, sublinha.

A amigdalina é um hidrato de carbono presente em vários caroços e sementes de algumas frutas, como maçãs, pêssegos, entre outras. Quando degradada no organismo, pode libertar cianeto, um composto tóxico. 

Daqui nasce outra parte do mito: a ideia de que o cianeto libertado seria seletivamente direcionado para células tumorais, destruindo-as sem afetar as células saudáveis. Na verdade, esclarece a nutricionista, o que se sabe é que o cianeto atua de forma indiscriminada e pode provocar sintomas como dores de cabeça, náuseas, fadiga e, em casos de ingestão elevada, intoxicação grave.

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Mas, como em muitos casos, é a dose que faz o veneno. Em entrevista ao Viral em 2023, Duarte Torres, especialista em alimentação e professor na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP), sublinhou que a quantidade de cianeto libertada pela ação das enzimas numa semente ou caroço de maçã “não é suficiente” para provocar danos.

“Se houver um consumo muito exagerado, pode ocorrer intoxicação, mas isso não é plausível para níveis de consumo baixo”, disse, “ninguém tritura caroços para comer”. Ou seja, mastigar acidentalmente uma ou duas sementes de maçã não representa risco para a saúde. 

A designação “vitamina B17” contribui para o engano. “[A amigdalina] não é uma vitamina, não é considerada um nutriente para o nosso organismo, não está aprovada por nenhuma instituição de saúde”, esclarece Elsa Madureira.

A suplementação desta “vitamina” também é publicitada como uma cura para o cancro — em junho, em entrevista ao Viral a propósito dessa alegação, Paula Ravasco, médica e nutricionista, afirmou que “está completamente fora de questão recomendar” a ingestão de “vitamina B17” para tratar ou auxiliar no tratamento do cancro.

Uma análise de vários estudos publicada em 2016, que pretendia perceber se a amigdalina tinha realmente potencial terapêutico, concluiu que não existe qualquer evidência convincente de que a amigdalina provoque regressão de tumores em pessoas com cancro nem que possa prevenir doença oncológica.

Os autores afirmam que a maioria dos ensaios realizados é antiga, com limitações metodológicas, e os resultados são contraditórios: enquanto alguns relatos isolados sugeriram melhorias temporárias, os estudos mais robustos não encontraram qualquer benefício claro.

Quanto à situação atual, os investigadores destacam que a popularidade da amigdalina voltou a crescer graças à difusão nas redes sociais, mas sem evidência científica recente e de qualidade. Não há esquema terapêutico estabelecido, nem consenso sobre segurança ou via de administração. Ou seja, a substância não demonstrou eficácia sustentada e não deve ser considerada uma opção de tratamento contra o cancro.

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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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6 Set 2025 - 08:45

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