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Comer muito rápido pode causar gases e inchaço?

22 Abr 2025 - 09:54
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Comer muito rápido pode causar gases e inchaço?

Dois sacos com líquido e duas colheres: “Este é o seu estômago quando come demasiado rápido”, afirma a autora de um vídeo partilhado nas redes sociais, segundos antes de o saco “rebentar” devido a uma espécie de efervescência.

A explicação surge a seguir: “Quando se come demasiado rápido, engole-se ar em excesso, o que causa gases, inchaço, distensão [abdominal] e muito desconforto.” Por outro lado, comer “devagar” permite “mastigar a comida e dar ao corpo tempo para fazer a digestão”.

Será verdade que comer rápido pode provocar flatulência e mal-estar abdominal? Carlos Borges Chaves, médico de gastroenterologia na Unidade Local de Saúde de Coimbra, e José Camolas, nutricionista membro do Conselho Geral da Ordem dos Nutricionistas e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e no Instituto Egas Moniz, explicam ao Viral os efeitos desta prática.

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É verdade que comer muito rápido causa gases, inchaço desconforto abdominal?

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As alegações nesta publicação são verdadeiras: ingerir alimentos em pouco tempo pode aumentar a quantidade de gases e causar desconforto abdominal. Contudo, o efeito efervescente mostrado no vídeo não é real. Trata-se de uma representação exagerada do que acontece durante o processo digestivo.

Carlos Borges Chaves explica ao Viral que, “quando comemos rápido ou falamos durante as refeições”, podemos estar a “engolir ar de forma não consciente”. Este ar que entra no sistema digestivoterá de sair por algum lado: ou volta a subir sob a forma de eructações [arrotos], ou desce sob a forma de flatulência”.

Quanto maior for a quantidade de ar engolida durante a refeição, “maior será a distensão abdominal”, o que pode causar algum incómodo abdominal. 

“O ato de comer rápido também pode provocar uma sensação de enfartamento, mas, fora isso, não existe nenhum efeito ‘maléfico’ associado a esta prática”, acrescenta o especialista.

No mesmo sentido, José Camolas reconhece que, quando comemos depressa, podemos  engolir ar, o que está associado à formação de gases e a uma sensação de mal-estar na zona do estômago.

No entanto, o nutricionista acrescenta que uma alimentação apressada pode também dificultar o processo digestivo: “Quando comemos muito depressa, mastigamos menos e temos de ‘pedir’ ao estômago que faça o trabalho dos dentes.” 

A mastigação é o primeiro processo mecânico do sistema digestivo e permite a desagregação da comida no bolo alimentar. Perante um alimento que esteja mal mastigado, o estômago terá de “fazer muito mais esforço para que a digestão ocorra”, por meio de movimentos peristálticos e de uma maior produção de ácido

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“O alimento não chega ao estômago tão processado como devia e a digestão não é tão eficaz. Esta situação pode levar a uma maior fermentação do alimento”, explica o nutricionista, sublinhando que a fermentação está associada à formação de gases.

Segundo a Fundação Internacional para as Doenças Gastrointestinais (IFFGD, na sigla inglesa), a flatulência pode ocorrer por duas razões: o “ar ingerido” durante o ato de comer e beber ou a “decomposição normal de determinados alimentos que não são digeridos pelas bactérias inofensivas que estão naturalmente presentes no intestino grosso”.

Quando se come ou bebe é normal ingerir uma pequena quantidade de ar – situação conhecida como aerofagia. Contudo, a IFFGD reforça que comer e beber rápido, falar durante a refeição, mascar pastilha elástica, fumar ou usar uma dentadura solta levam à ingestão de uma maior quantidade de ar.

Uma revisão sistemática e meta-análise, publicada em 2024, associa a velocidade de ingestão com situações de excesso de peso ou obesidade em crianças. 

No artigo, afirma-se que “comer rápido foi associado com um maior risco de excesso de peso/obesidade quando comparado com comer a uma velocidade média”.

Os investigadores recomendam que se analisem os fatores que levam a uma alimentação acelerada e que se desenvolvam métodos para reduzir a velocidade de ingestão em crianças e adolescentes.

Existe uma velocidade certa para comer uma refeição?

Na verdade, não existe uma velocidade padrão para comer nem um tempo adequado para se mastigar os alimentos. Se quiser diminuir a velocidade de ingestão, José Camolas aconselha a “fazer garfadas mais pequenas”, “saborear a comida” e “mastigar bem”, até que o alimento atinja uma textura parecida com papa ou puré.

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Se ingerir alimentos depressa “não for incómodo”, “não haverá problema em manter esse hábito”, afirma Carlos Borges Chaves. No entanto, para quem sofre efeitos negativos desta prática, poderá ser boa ideia “repensar a velocidade de ingestão alimentar”, acrescenta o especialista.

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