Está provado que comer queijo antes de beber previne a ressaca?
Em vários vídeos partilhados no TikTok alega-se que comer queijo antes de beber previne a ressaca. Segundo a autora de uma das publicações, “o queijo tem muita proteína, gordura e hidratos de carbono complexos que podem revestir o estômago, o que diminui a absorção do álcool”.
Além disso, prossegue, “o queijo pode ajudar o corpo a metabolizar melhor o álcool”, “a evitar danos no fígado” e a repor “nutrientes específicos” excretados pelo álcool. É verdade que comer queijo antes de consumir bebidas alcoólicas previne a ressaca?
Comer queijo antes de ingerir álcool previne a ressaca?
Em declarações ao Viral, Sofia Carvalhana, gastrenterologista no Hospital Lusíadas Lisboa, adianta que “não há evidência científica que permita fazer essa afirmação”.
Segundo um texto informativo do Instituto Nacional sobre o Abuso do Álcool e o Alcoolismo dos Estados Unidos (NIAAA, na sigla inglesa), “a única forma de evitar completamente uma ressaca é não beber álcool ou manter o consumo de álcool num nível mínimo”.
De facto, num estudo recente, publicado em 2023, avaliou-se o impacto de um subproduto do leite “na indução do metabolismo do álcool e no alívio da lesão hepática induzida pelo álcool”.
Os investigadores concluíram que este alimento “pode aliviar a ressaca reduzindo as concentrações de álcool e acetaldeído [etanal] no sangue”.
Contudo, além de este ser um dos poucos estudos sobre o assunto, o trabalho em questão tem várias limitações.
Em primeiro lugar, o estudo foi feito em animais, o que não permite extrapolar os resultados. Isto é, não é possível garantir que os efeitos em humanos seriam iguais.
Os próprios autores da investigação referem que são necessários ensaios clínicos para clarificar os mecanismos de ação e verificar a segurança da técnica.
Importa ainda apontar que neste trabalho é apenas estudado o efeito de um requeijão específico, feito em laboratório, em condições controladas.
Apesar de o queijo e o requeijão serem ambos derivados do leite, não é possível afirmar que os dois teriam o mesmo efeito, muito menos garantir que todos os queijos teriam a capacidade de prevenir uma ressaca quando ingeridos antes do consumo de bebidas alcoólicas.
Sabe-se apenas que “beber álcool com comida é menos nefasto do que beber álcool em jejum, por causa da absorção do álcool”, salienta Sofia Carvalhana.
Tal como já tinha explicado o psiquiatra João Marques, em esclarecimentos anteriores ao Viral, num estômago cheio, “a absorção vai sendo mais lenta e vai dando mais tempo para o meu fígado metabolizar o álcool”, por isso, “não teremos tanto efeito tóxico do álcool”, avança João Marques (ver também aqui).
No entanto, realça Sofia Carvalhana, mesmo que a pessoa coma antes ou durante a ingestão de álcool, este vai ser sempre absorvido e “vai lesar o fígado” de qualquer forma.
Para a médica, “a mensagem que se deve passar é que não é preciso beber muito para ter uma cirrose, alguns anos depois”.
Aliás, a Organização Mundial de Saúde já anunciou que “nenhum nível de consumo de álcool é seguro para a saúde” (ver aqui).
Que fatores influenciam os sintomas da ressaca?
Segundo Sofia Carvalhana, o nível de intoxicação alcoólica e a intensidade dos sintomas da ressaca depende de variações individuais no “metabolismo do álcool”, ou seja, na forma como o álcool é decomposto e eliminado pelo organismo.
Num texto do NIAAA, explica-se que “o metabolismo do álcool é controlado por fatores genéticos, como variações nas enzimas que decompõem o álcool, e por fatores ambientais, como a quantidade de álcool que um indivíduo consome e a sua alimentação geral”.
Para a gastrenterologista, “a quantidade de álcool absorvido” é um fator muito importante neste contexto. À partida, “se for absorvido muito álcool, haverá uma ressaca maior”.
A ressaca e a intoxicação também são mais intensas quando se faz binge drinking, ou seja, quando se ingere uma grande quantidade de bebidas alcoólicas em pouco tempo. Por norma, isto traduz-se em “beber 5 ou 6 bebidas em 2 horas”, aponta a médica.
Outro fator relevante é a frequência com que se ingere bebidas alcoólicas: “Os bebedores crónicos, que bebem muito, como têm enzimas muito ativadas, degradam mais rápido o álcool”.
Por esse motivo, “um bebedor esporádico” que beba a mesma quantidade de álcool que um “bebedor crónico” tem maior probabilidade de ter sintomas de ressaca.