Comer pipocas pode causar apendicite?
No TikTok, alega-se que comer pipocas é “uma causa muito comum da apendicite”, sobretudo “em adultos”. Segundo o autor do vídeo partilhado, quando as pipocas não são bem mastigadas entopem o apêndice e causam uma apendicite. Mas será mesmo assim? Há evidência científica que comprove esta ideia?
É verdade que comer pipocas pode provocar uma apendicite?
Em esclarecimentos ao Viral, César Resende, coordenador de Cirurgia Geral no Hospital CUF Torres Vedras, adianta que “não há qualquer evidência que sustente” que comer pipocas pode causar uma apendicite.
Segundo o especialista, “há todo um espetro de mitos urbanos em relação ao apêndice e à diverticulite” (uma inflamação que afeta o intestino grosso).
No entanto, de facto, estas condições não têm nada que ver “com pipocas, com uvas” ou outros “resíduos alimentares”, reforça.
Estas ideias erradas surgem, muitas vezes, porque se “confunde correlação com causalidade”.
Por exemplo, “se eu disser que a maior parte das pessoas que têm hemorroidas sofrem também de refluxo gastroesofágico, não quer dizer que ter refluxo gastroesofágico cause hemorroidas”, avança o médico.
Isto apenas significa que ambas “são coisas bastante comuns na população, portanto, podem acontecer” à mesma pessoa, sustenta.
O mesmo acontece quando se fala em pessoas que comem pipocas e pessoas que têm uma apendicite. “São coisas relativamente frequentes”, mas “não há nexo de causalidade entre uma coisa e outra”, esclarece César Resende.
Por isso, conclui, “vai sempre haver algum comedor de pipocas que vai parar ao hospital com uma apendicite”, mas também é possível acontecer o mesmo a “alguém que abomine pipocas”.
O que causa uma apendicite?
César Resende adianta ao Viral que “a apendicite é a infeção intra-abdominal mais comum na população” e verifica-se, sobretudo, “nas camadas mais jovens”.
Caracteriza-se por “uma dor abdominal intensa e progressiva – que inicialmente pode ser confundida com uma cólica ou com uma indisposição” – muitas vezes acompanhada de “falta de apetite e náuseas”, explica.
O quadro clínico desta condição “é grave o suficiente para levar a maioria das pessoas a uma urgência”.
Apesar de se verificar com frequência, “não se sabe exatamente quais são as causas da apendicite”, refere-se num texto informativo do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa).
Isto porque, explica César Resende, não há propriamente “um consenso sobre o que causa” esta inflamação (ver também aqui),
No entanto, não há nada que sugira que se deve “a fenómenos obstrutivos mecânicos” provocados por “resíduos alimentares”, lembra.
“A causa mais frequente de apendicite é a obstrução do apêndice que produz um crescimento bacteriano anormal e que desencadeia o processo inflamatório da apendicite”, salienta-se num guia explicativo publicado no balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24).
César Resende explica que “o apêndice é como se fosse um dedo de luva pendurado no intestino grosso”.
Quando “o orifício da entrada do dedo de luva fica obstruído, o apêndice começa a inchar e mais cedo ou mais tarde inflama”, clarifica.
Durante a operação, quando se remove um apêndice inflamado, “constata-se que o que está a causar obstrução são resíduos de fezes”, também chamados “fecalitos”. Mas não se sabe ao certo porque é que isto acontece.
Por outro lado, também se verificam casos de “inflamação espontânea, que se pensa estar relacionada com infeções virais do trato gastrointestinal”, informa o especialista.
Esta possibilidade surge, sobretudo, em contexto de apendicites na população mais nova, porque “as crianças têm o orifício do apêndice mais largo, portanto, não é tão frequente encontrarmos uma obstrução” nestes casos.
Os “tumores do apêndice” são a terceira possível causa, apesar de ser a “mais rara”, acrescenta.
Como não há consenso sobre as causas concretas que levam a uma apendicite nem se conseguem definir fatores de risco para a doença, “não existe profilaxia”, salienta César Resende.
Por outras palavras, refere-se no texto do NHS, “não existe uma forma garantida de prevenir a apendicite”.

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.
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