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Comer muita cenoura pode deixar a pele alaranjada? Especialista responde

31 Jul 2026 - 08:15

Comer muita cenoura pode deixar a pele alaranjada? Especialista responde

Nas redes sociais corre a ideia de que comer cenoura, abóbora ou outros alimentos ricos em betacaroteno em demasia pode alterar a cor da pele, para um tom mais amarelado ou alaranjado. Para dar resposta a esta alegação, o Viral ouviu Rosa Vilares Santos,  coordenadora dos cursos de Nutrição Clínica e Nutracêuticos na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

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Carotenodermia

A especialista confirma que a alegação tem base científica. “Este fenómeno chama-se carotenodermia e ocorre quando existe uma ingestão muito elevada e prolongada de alimentos ricos em carotenoides, especialmente betacaroteno, como a cenoura, a abóbora, a batata-doce, a manga ou alguns vegetais de folha verde”, explica.

O mecanismo está relacionado com a forma como o organismo processa este pigmento. “O betacaroteno é um pigmento natural de cor alaranjada e um precursor da vitamina A. Quando consumimos mais betacaroteno do que o organismo consegue converter em vitamina A, o excesso é armazenado principalmente na camada mais superficial da pele (estrato córneo) e no tecido adiposo”, refere. O resultado é então uma tonalidade amarelada ou alaranjada, sobretudo visível “nas palmas das mãos, plantas dos pés e, por vezes, no rosto”.

Rosa Vilares Santos recorre a uma analogia simples, nas suas palavras, para explicar o processo: “Imagine que a pele funciona como uma esponja. Se, de forma consistente, for ‘embebida’ em pigmentos naturais provenientes da alimentação, vai acumulando uma ligeira coloração, tal como uma esponja branca ganha cor quando absorve repetidamente um líquido colorido”.

Sublinha, ao mesmo tempo, que “este não é um fenómeno tóxico nem significa que exista excesso de vitamina A”. Isto é, “o organismo regula a conversão do betacaroteno em vitamina A, reduzindo essa conversão quando as reservas são suficientes”, assegura.

Uma revisão publicada no International Journal of Dermatology, que analisou décadas de casos clínicos de carotenodermia, confirma que a acumulação do pigmento ocorre sobretudo no estrato córneo da pele e nas glândulas sudoríparas, sendo desencadeada por uma elevada ingestão de betacaroteno proveniente da dieta. 

Também a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) explica, no seu parecer científico sobre os valores de referência para a vitamina A, que a conversão de betacaroteno em retinol é regulada pelo próprio organismo em função das reservas hepáticas existentes, o que ajuda a justificar por que razão o consumo alimentar de betacaroteno não provoca toxicidade por vitamina A.

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Não é uma questão de uma refeição, mas de meses

Contrariamente ao que os vídeos virais por vezes sugerem, este efeito não surge de um consumo pontual. “Não existe um valor exato que provoque carotenodermia em todas as pessoas, porque a resposta varia conforme a idade, o metabolismo, a percentagem de gordura corporal e a alimentação global”, explica a especialista. “Na prática, este efeito surge após um consumo elevado e regular durante várias semanas ou meses, e não após uma refeição ocasional ou alguns dias de maior consumo”.

Nesse sentido, menciona que “consumir diariamente grandes quantidades de cenoura sob a forma de sumos, purés ou ‘snacks’, associado a outros alimentos muito ricos em betacaroteno, aumenta significativamente a probabilidade de desenvolver esta alteração”.

Com outra analogia utilizada em resposta ao Viral, a nutricionista diz: “Pense numa conta bancária. Depositar uma pequena quantia uma vez não altera muito o saldo. Mas fazer depósitos elevados todos os dias durante meses faz com que o saldo aumente progressivamente. O mesmo acontece com a acumulação de carotenoides na pele”.

Uma revisão de literatura publicada em 2024 também no International Journal of Dermatology, que analisou cerca de uma centena de casos documentados de carotenodermia associada à dieta, chega a uma conclusão semelhante: a descoloração da pele surge de forma gradual, associada a um consumo elevado e mantido no tempo, e pode demorar entre duas semanas e mais de quatro anos a desaparecer por completo depois de reduzida a ingestão de betacaroteno.

Um efeito “estético”, “benigno” e “reversível”

A salvaguarda mais importante para quem consome estes alimentos regularmente é que a carotenodermia não é perigosa. “Na grande maioria dos casos, trata-se de uma condição benigna, exclusivamente estética e totalmente reversível”, garante a especialista. Explica assim que, “quando a ingestão de alimentos ricos em betacaroteno diminui, a pele regressa gradualmente à sua coloração habitual ao longo de algumas semanas ou meses, dependendo da quantidade acumulada”.

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É importante, porém, não confundir esta situação com o consumo excessivo de suplementos de vitamina A pré-formada (retinol), “que pode provocar toxicidade”, adiciona Rosa Villares Santos. “O betacaroteno proveniente dos alimentos não causa essa toxicidade porque o organismo controla a quantidade que converte em vitamina A”.

Há, ainda assim, uma exceção a vigiar: “Quando a carotenodermia surge sem uma ingestão alimentar evidente. Nesses casos, poderá justificar-se uma avaliação médica, pois algumas doenças, como diabetes mellitus mal controlada, hipotiroidismo, doença hepática ou doença renal, podem alterar o metabolismo dos carotenoides”.

Como distinguir de icterícia

Um dos riscos de autodiagnóstico nas redes sociais é confundir a carotenodermia com outras condições. A especialista identifica a icterícia, associada à acumulação de bilirrubina, como a principal confusão possível, e aponta a fórmula para distinguir as duas situações:

  • “Na carotenodermia, a pele pode ficar amarelada ou alaranjada, mas a parte branca dos olhos (escleras) mantém-se branca”. 
  • “Na icterícia, tanto a pele como as escleras ficam amarelas”.

Além disso, explica, “a carotenodermia não costuma provocar outros sintomas. Já a icterícia pode estar associada a fadiga, urina escura, fezes claras, comichão ou dor abdominal”.

Rosa Villares Santos recomenda que “sempre que a pele amarelada surja acompanhada de olhos amarelos ou outros sintomas, deve procurar-se avaliação médica”.

Quem está mais em risco

Segundo a especialista, alguns grupos têm maior probabilidade de desenvolver este efeito. “As crianças pequenas são particularmente suscetíveis porque frequentemente consomem grandes quantidades dos mesmos alimentos, como papas, sopas ou purés de cenoura e abóbora, e têm menor massa corporal”, descreve.

Segundo a especialista, também apresentam maior risco:

  • Pessoas que utilizam suplementos de betacaroteno em doses elevadas;
  • Pessoas com hipotiroidismo;
  • Pessoas com diabetes mellitus mal controlada;
  • Pessoas com algumas doenças hepáticas ou renais;
  • Pessoas com perturbações alimentares ou dietas muito restritivas, “onde existe consumo repetitivo de poucos alimentos.”

Nestes casos, “a capacidade de metabolizar ou eliminar carotenoides pode estar diminuída, favorecendo a sua acumulação”, acrescenta.

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A maior suscetibilidade das crianças pequenas, referida pela especialista, é também apoiada por dados europeus. Um estudo escocês que analisou, durante quase três anos, crianças com níveis elevados de carotenoides no sangue observadas no Royal Hospital for Sick Children, em Glasgow, concluiu que a esmagadora maioria dos casos (87%) tinha origem exclusivamente alimentar e era benigna, associada sobretudo a dietas ricas em cenoura e abóbora sob forma de purés ou papas. Os autores alertam ainda que a condição é muitas vezes mal reconhecida nos cuidados de saúde primários, levando a exames complementares desnecessários para excluir outras doenças.

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Especialista diz que não há motivo para alarme

Questionada sobre se o perigo retratado nas redes sociais é exagerado, Rosa Villares Santos garante que, “para a grande maioria das pessoas, não há motivo para preocupação”.  A especialista recorda que “a cenoura, a abóbora, a batata-doce e outros alimentos ricos em carotenoides são alimentos muito nutritivos, ricos em fibra, vitaminas, minerais e compostos antioxidantes, estando associados a um padrão alimentar saudável”.

“O importante é manter uma alimentação variada e equilibrada”, elucida. “Nenhum alimento, por mais saudável que seja, deve constituir a base exclusiva da alimentação”. A seu ver, “as redes sociais tendem, por vezes, a apresentar a carotenodermia como um problema grave, quando na realidade se trata, na maioria dos casos, de uma alteração estética, reversível e facilmente corrigida ajustando a alimentação”.

“Não devemos deixar de consumir alimentos ricos em betacaroteno por receio da carotenodermia. Devemos apenas evitar consumos excessivos e muito repetitivos durante longos períodos, especialmente sob a forma de grandes quantidades de sumos ou suplementos”, esclarece. Como conclui a especialista, “o benefício está no equilíbrio e na diversidade alimentar, e não na eliminação de alimentos saudáveis”.

Categorias:

Nutrição

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Cenoura | Pele

31 Jul 2026 - 08:15

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