Comer melancia causa enxaquecas? Neurologista esclarece
Num vídeo partilhado no TikTok alega-se que comer melancia causa enxaquecas. A autora do post sugere que isto acontece porque a ingestão de melancia “resulta na criação de óxido nítrico, uma molécula com várias funções, entre elas, a dilatação dos vasos sanguíneos”. Será verdade? Comer melancia causa enxaquecas?
Comer melancia pode causar enxaquecas?
Em esclarecimentos ao Viral, Filipe Palavra, neurologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN), começa por adiantar que “não se pode dizer que comer melancia causa uma crise de enxaqueca” em todas as pessoas que sofrem desse problema.
Apesar de os mecanismos pelos quais a enxaqueca é provocada estarem muito bem estudados, não se sabe ao certo porque é que algumas pessoas sofrem com esta condição e outras não. Pensa-se que há alguma suscetibilidade genética (ver aqui e aqui).
O que está relatado é que existem vários fatores que podem desencadear uma crise de enxaqueca. Segundo um texto do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa), alguns deles são: “o início da menstruação”, “ansiedade e depressão”, “stress e cansaço”, “não comer regularmente ou saltar refeições”, “demasiada cafeína” e “não fazer exercício físico suficiente”.
Atribuir a causa da enxaqueca à melancia implicaria “que já tínhamos descoberto a cura”, ou seja, “impedíamos todas as pessoas de comer melancia e curávamos a enxaqueca”. Mas isso não acontece, pois, até à data, não existe cura para a doença.
Além disso, salienta-se num texto informativo publicado no site da Fundação Americana de Enxaqueca, “nem toda a gente tem gatilhos alimentares”.
O que se pode afirmar, na perspetiva de Filipe Palavra, é que “em pessoas com alguma suscetibilidade, comer um determinado alimento, neste caso a melancia, pode desencadear uma crise de enxaqueca”.
A razão pela qual algumas pessoas, em determinadas situações, podem ter uma crise de enxaqueca quando comem melancia pode estar ligada à questão do óxido nítrico.
Filipe Palavra explica que “o óxido nítrico é o vasodilatador mais importante que existe no nosso corpo”, sendo “indispensável para o funcionamento de muitas das nossas funções”.
Mas, em primeiro lugar, é preciso perceber que “é falso” que “a melancia é responsável pela libertação ou produção de óxido nítrico”, já que esta substância é “produzida naturalmente no nosso organismo em quantidades enormes”, sustenta o médico.
De facto, “na fisiopatologia da crise da enxaqueca, há um envolvimento do óxido nítrico, na medida que a vasodilatação [dilatação dos vasos sanguíneos] é aquilo que está, pensamos nós, na origem do próprio fenómeno da dor”.
Por esse motivo, “uma das estratégias que utilizamos para tratamento da dor da enxaqueca” é recorrer a “moléculas que antagonizam um pouco este efeito vasodilatador do óxido nítrico”, ou seja, que “promovem uma vasoconstrição” (contração dos vasos sanguíneos).
Qual a relação do óxido nítrico com a melancia? Tal como esclarece Filipe Palavra, “a melancia é uma fonte importante de um aminoácido chamado citrulina”, que tem um papel importante “no metabolismo do óxido nítrico”.
Assim, pessoas que sofrem com enxaquecas, “ao comerem alimentos que levem a um aumento significativo da produção de muitas moléculas envolvidas na fisiopatologia da enxaqueca, como, por exemplo, o óxido nítrico, em teoria, podem ter uma crise” (ver também aqui e aqui).
No entanto, é preciso ter em consideração que existem “outras variáveis” que podem “condicionar essa libertação de óxido nítrico”, como a quantidade de melancia ingerida.
Por exemplo, se uma pessoa tem a “tensão arterial” elevada “no momento do consumo” isso vai fazer com que o organismo “produza naturalmente mais óxido nítrico para vasodilatar as artérias e, assim, diminuir o impacto da hipertensão arterial”, destaca.
Além disso, “há medicamentos” e até “outros alimentos que interferem com o metabolismo do óxido nítrico”, prossegue o neurologista.
Por isso, “se isto não for tudo muito bem controlado, não estamos em condições de poder estabelecer uma relação de causa e efeito entre o consumo de melancia, a quantidade ingerida, e a produção de uma determinada quantidade de moléculas de óxido nítrico”, esclarece Filipe Palavra.
Isto significa que pode haver uma associação, mas nunca uma causalidade. No fundo, nem todas as pessoas que sofrem com enxaquecas vão ter uma crise quando comem melancia e mesmo as pessoas que já tiveram uma crise depois de comerem esta fruta podem não ter sempre a mesma experiência.
A melancia não é o único alimento associado ao desencadeamento de crises de enxaqueca. “Algumas pessoas têm uma suscetibilidade em relação a outros alimentos”, como “o chocolate, o vinho tinto, o queijo e o limão”, exemplifica o neurologista.
Segundo um texto publicado no site da Sociedade Portuguesa de Cefaleias (SPC), outros alimentos “frequentemente apontados como desencadeantes de crise” são: “a cafeína em excesso”, “os curados” (como o bacon), “a comida chinesa”, “os citrinos”, “as gorduras” e “os condimentos”.
Ainda assim, acrescenta-se no mesmo texto, “não faz sentido evitar alguns alimentos ou fazer dietas mais ou menos rigorosas na tentativa de evitar as crises”.
Na perspetiva da SPC, “deve ser usado o bom senso e apenas retirar um alimento se notar que cada vez que ingere esse determinado alimento aparece uma crise de enxaqueca e apenas nessas situações”.
Caso contrário, defende Filipe Palavra, “as pessoas com um diagnóstico de enxaqueca passam a fazer uma dieta extremamente restritiva porque acreditam que tudo faz mal e não é verdade”.
Mesmo ao deixarem de comer esses alimentos, essas pessoas vão, eventualmente, “chegar à conclusão de que continuam a ter crises”, porque a alimentação não é o único fator que influencia a ocorrência de uma enxaqueca.
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