Vontade constante de comer ou mastigar gelo é sinal de défice de ferro? O que diz a ciência
Em vários vídeos no TikTok diz-se que a vontade constante de comer ou mastigar gelo pode ser um sinal de défice de ferro.
Num dos vídeos é relatado que as pessoas sentem um “alívio imediato” ao comer gelo e que esse alívio se deve a “um problema de saúde”: carência de ferro. Mas será verdade mesmo assim? E terá esta prática consequências negativas?
Vontade constante de comer ou mastigar gelo é sinal de défice de ferro?
Nádia Sepúlveda, médica especialista em Medicina Geral e Familiar, explica que o desejo “incontrolável” de mastigar gelo denomina-se de pagofagia, um tipo de pica, que é “um transtorno alimentar que leva à ingestão de substâncias sem valor nutricional”.
A médica refere que estudos sugerem que “pode estar associado à deficiência de ferro”, contudo, o motivo exato “ainda não é totalmente compreendido”.
No mesmo sentido, Cláudia Marques, professora da NOVA Medical School, completa que, apesar de alguns estudos associarem a perturbação ao défice de ferro, a maioria são casos clínicos, ou seja, “reportam apenas um caso específico”, em que a pessoa estudada “tinha simultaneamente défice de ferro e ingeria uma substância não nutritiva”.
Estes estudos “têm limitações”, explica Cláudia Marques, uma vez que “não permitem perceber se existe de facto uma associação” entre as duas coisas ou se se trata “apenas de uma mera coincidência”.
Um artigo publicado na Industrial Psychiatry Journal, em 2024, relata casos de três mulheres, diagnosticadas com anemia, internadas em psiquiatria com “vários problemas de saúde mental e hábitos alimentares de gelo”. Houve “melhorias significativas” nos sintomas psiquiátricos e na pagofagia nas três mulheres após algumas semanas com suplementação oral de ferro. Contudo, são apenas três casos.
Um neurocientista refere, num texto publicado na revista Ciencia Latina, que a síndrome de pica tem “pouco consenso na comunidade científica”.
A professora da NOVA Medical School adianta que alguns estudos associam o gelo ao défice de ferro “especialmente em grávidas”. Ou seja, grávidas que tenham vontade de comer ou mastigar gelo “podem apresentar menos reservas de ferro” do que as grávidas que não têm essa compulsão.
A compulsão em comer gelo pode ser uma “consequência de maior stress ou até uma forma de aliviar alguns sintomas gastrointestinais”, contudo, sublinha, a razão “não está completamente esclarecida”.
Já a médica Nádia Sepúlveda diz que “não há certezas, apenas hipóteses” quanto às razões para a associação entre o gelo e o défice de ferro. Uma das hipóteses sugere que mastigar gelo pode “melhorar temporariamente a função neurológica e reduzir o cansaço associado à anemia”.
Um artigo do Brazilian Journal of Health Review analisou o caso de um homem de 40 anos, que estava “agitado e desorientado, com dores intensas na região abdominal, náuseas e diarreia”.
No dia seguinte à hospitalização, manifestou o desejo “quase incontrolável” de consumir substâncias não alimentares, neste caso papel, e confessou que ingeriu blocos de notas no dia anterior.
Foi diagnosticado com síndrome de pica e encaminhado para o serviço de psiquiatria com especialização em transtornos alimentares. No mesmo texto, é dito que as causas deste distúrbio “ainda não são completamente conhecidas”.
Em declarações ao Viral, Rui Nogueira, médico especialista em Medicina Geral e Familiar e presidente da Mesa da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde (SPLS), sublinha que a compulsão em consumir substâncias não nutritivas pode estar relacionada com “alterações psíquicas”.
“É difícil perceber se a anemia provoca este comportamento ou se já há terreno propício a alterações de comportamento”, afirma o responsável da SPLS.
Nádia Sepúlveda refere que ingerir gelo constantemente tem consequências, sobretudo, a nível dentário: pode causar desgaste e fraturas nos dentes e aumentar a sensibilidade dentária.
Já o médico Rui Nogueira aponta que a ingestão de uma grande quantidade de gelo pode “baixar a temperatura corporal”.
Qual a importância do ferro no organismo?
Ao Viral, Cláudia Marques explica que o ferro desempenha um “papel importante” no transporte de oxigénio, uma vez que faz parte da hemoglobina, que é a proteína dos glóbulos vermelhos que transporta o oxigénio, e no armazenamento temporário de oxigénio no músculo porque faz parte da mioglobina, proteína muscular onde o oxigénio é transportado e armazenado.
A médica Nádia Sepúlveda acrescenta que o ferro é “fundamental” para o crescimento, desenvolvimento, funcionamento celular e produção de hormonas.
Nesse sentido, refere a especialista em Medicina Geral e Familiar, o défice de ferro no organismo pode levar a anemia, causando “fadiga, fraqueza, dificuldade de concentração, palidez, queda de cabelo e maior suscetibilidade a infeções”.
O médico Rui Nogueira refere que a falta de ferro tem “consequências graves” devido à dificuldade na produção de glóbulos vermelhos, “células sanguíneas fundamentais que transportam oxigénio”.
Já a professora da NOVA Medical School refere que “há outros défices nutricionais”, como o défice de ácido fólico ou de vitamina B12, que também podem provocar anemia. Doenças que causem perdas de sangue ao longo do trato gastrointestinal, como o cancro ou a doença inflamatória intestinal, também podem estar na origem do défice de ferro, exemplifica.
“É importante avaliar se a causa da anemia é verdadeiramente o défice de ferro”, diz ainda.
Um bom aporte de ferro na alimentação é “essencial para manter níveis adequados de ferro para a síntese de hemoglobina”, contudo, em caso de défice, é necessária a “toma de doses mais elevadas de ferro”, em medicamento”, para corrigir esse défice e voltar aos valores normais, explica a docente da NOVA Medical School. Em alguns casos, o ferro pode também ser administrado por via endovenosa.
No mesmo sentido, a médica Nádia Sepúlveda diz que, se houver deficiência de ferro, a alimentação “por si só pode não ser suficiente”, sendo necessária suplementação com “dose e duração adequadas”, sob orientação médica e/ou nutricional.
A alimentação pode ajudar, acrescenta: por um lado, ao aumentar o consumo de alimentos ricos em ferro, como carnes vermelhas, ovos, leguminosas, vegetais de folha verde escura, e, por outro, potenciar a sua absorção aliando-os a alimentos ricos em vitamina C.
Adicionalmente, Cláudia Marques específica que carnes vermelhas, vísceras, como fígado e coração, e o sangue, consumido, por exemplo, em pratos como o arroz de cabidela ou no chouriço de sangue e na morcela, são “ricos em ferro porque as carnes vermelhas e o sangue contêm hemoglobina e mioglobina”, ou seja, proteínas que têm ferro na sua estrutura.
O marisco, como lapas, ameijoa, berbigão, mexilhão e camarão, são igualmente “excelentes fontes de ferro”. Até porque o ferro presente nestas fontes alimentares é o “heme”, que é mais “biodisponível, ou seja, que conseguimos absorver melhor”.
As leguminosas, frutos gordos, cereais integrais são também “boas fontes de ferro”, no entanto, devem ser consumidos juntamente com fonte de vitamina C porque o ferro presentes nestas fontes é não heme (que não é tão biodisponível), esclarece a docente universitária.