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Cancro

Comer fruta em jejum previne e trata o cancro? Claro que não

10 Fev 2022 - 10:00

Cancro

Comer fruta em jejum previne e trata o cancro? Claro que não

O autor da publicação alega conhecer a cura para o cancro: “Come a fruta com o estômago vazio. Os pacientes com cancro não deveriam morrer.” É com estas duas frases que é apresentada a premissa que tem vindo a ser partilhada nas redes sociais há já vários anos e em diferentes línguas. “O Dr. Stephen Mark trata os pacientes com cancro e doentes terminais de uma forma ‘não-ortodoxa’ e muitos dos seus pacientes recuperam. Antes de usar a energia (radiação) ou quimioterapia nos seus pacientes, ele acredita na cura natural já que o corpo naturalmente luta contra as doenças”, pode ainda ler-se numa publicação viral, com mais de 500 mil partilhas.

O texto prossegue alegando que “se come farinha junto com a fruta esta apodrece, se fermenta e se transforma em ácido” ou que “todas as frutas tornam-se alcalinas em nosso corpo” ou até que se “dominou a forma correta de comer fruta, você tem o segredo da beleza, a longevidade, a saúde, a energia, a felicidade e o peso normal”.

Será verdade que comer fruta em jejum previne e trata o cancro?

Não, esta publicação é falsa. “Não existem, infelizmente, quaisquer alimentos associados à melhoria do prognóstico em qualquer uma das formas de cancro”, explica Filipa Vicente, nutricionista e professora auxiliar do Instituto Universitário Egas Moniz, em declarações ao Viral. “Existem sim alimentos e grupos de alimentos associados à redução do risco de cancro, sendo que ingestão de hortofrutícolas é um dos hábitos associados à redução do risco”, acrescenta.

A investigação científica sobre o impacto de um determinado alimento na cura ou tratamento de uma doença tem bastantes limitações, uma vez que é “virtualmente impossível” e “insustentável” realizar ensaios clínicos para determinar o efeito de um certo alimento, esclarece Vitor Hugo Teixeira, nutricionista do FC Porto e professor na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, no âmbito de um mito sobre doenças associadas ao leite. O mesmo princípio se aplica à fruta ou a qualquer outro alimento. Para isso teria de se dar um determinado alimento a um grupo de estudo durante vários anos, não se dando a um grupo de controlo, e analisar comparativamente os resultados.

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No entanto, existem estudos que validam o impacto de uma alimentação saudável e equilibrada na redução do risco de cancro. O “Guia Prático ESPEN: Nutrição Clínica no Cancro” avança que “os problemas nutricionais devem ser tidos em conta desde o diagnóstico do cancro” e que devem “ocorrer em paralelo aos tratamentos antineoplásticos”.

O Viral contactou a Sociedade Portuguesa de Oncologia, mas, até à publicação deste artigo, não obteve qualquer comentário sobre esta publicação. À Globo, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica afirma que as alegações apresentadas neste post são falsas. Também o diretor clínico do Instituto Oncoguia, Rafael Kailks, considera a publicação “absurda”. “Isso é completamente falso. Não existe nenhum dado que corrobore a ideia de que comer fruta, seja ela qual for, com o estômago vazio vá tratar qualquer tipo de cancro”, afirma, apelando aos utentes das redes sociais que não partilhem esta publicação.

Filipa Vicente destaca ainda que “as explicações dadas no post carecem igualmente de fundamentação científica enquanto mecanismos para justificar o possível benefício”. Quanto aos hidratos de carbono que existem na fruta e também em alimentos à base de cereais – como é o caso do pão – “têm um esvaziamento no estômago dependente do seu teor de fibra”, sublinhando que “alguma peças de fruta têm mais fibra do que os cereais, pelo que até poderiam atrasar a digestão do pão”.

Além disso, “a demora no esvaziamento gástrico, assim como na digestão e absorção dos hidratos de carbono, pode ter um efeito benéfico do ponto de vista de controlo glicémico e consequentemente na insulina sendo a hiperinsulinemia e a insulinoresistência características da diabetes tipo 2 é um fator de risco para o cancro da mama e do cólon”, esclarece ainda.

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A nutricionista destaca também que “não existe evidência de nenhum motivo para ingerir a fruta ou qualquer outro alimento a uma hora específica do dia”. No entanto, lembra que, segundo os dados do Inquérito Alimentar e da Atividade Física, “56% dos portugueses tem um consumo de hortofrutícolas inferior aos 400 gramas recomendados”.

10 Fev 2022 - 10:00

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