Comer brócolos previne e reduz o cancro?
Num vídeo partilhado no TikTok, alega-se que os brócolos são considerados alimentos “anti-cancro”. Isto porque, defende o autor do vídeo, os brócolos são compostos por “sulforafano”, um “antioxidante” que “consegue prevenir e reduzir” vários tipos de cancro. Mas será mesmo assim? Comer brócolos, por si só, previne e reduz a doença oncológica?
É verdade que comer brócolos, por si só, previne e reduz o cancro?
Em declarações ao Viral, a médica e nutricionista Paulo Ravasco adianta que comer brócolos ou qualquer outro alimento, por si só, não previne a doença oncológica.
Aliás, “não existe uma única substância com a capacidade de prevenir uma doença como o cancro”, acrescenta a diretora do Programa de Pós-graduação Internacional “Nutrição e Metabolismo em Oncologia” da Universidade Católica Portuguesa (UCP).
No mesmo sentido, várias organizações de saúde – como o Cancer Council, o Breastcancer.org e o Cancer Research UK – assinalam, em textos publicados nos seus sites, que nenhuma dieta ou alimento específico vai impedir, por si só, o aparecimento de cancro, nem curar a doença.
De facto, como se refere no vídeo em análise, os brócolos têm sulforafano, “um composto com algumas propriedades antioxidantes e inflamatórias”, refere Paula Ravasco (ver aqui, aqui e aqui).
No entanto, salienta a médica, esta substância também está presente noutros alimentos, sobretudo “em vários tipos de vegetais”.
O que faz dos alimentos de origem vegetal interessantes do ponto de vista nutricional e da saúde “é a sua riqueza em substâncias antioxidantes, anti-inflamatórias, minerais e vitaminas”, defende a especialista.
Por isso é que estes alimentos devem ser inseridos numa alimentação diária variada e equilibrada. A dieta, num todo, pode, de facto, “ajudar a prevenir doenças como o cancro”, aponta.
Assim sendo, é importante que a população siga “as orientações para uma alimentação adequada da Organização Mundial da Saúde e da Roda dos Alimentos”, recomenda.
Só assim é que “conseguimos ter todas essas substâncias importantes em quantidade suficiente”, já que “não vai ser só uma substância que vai ter o potencial de impedir ou prevenir o desenvolvimento do cancro”, esclarece Paula Ravasco.
Em conjunto com uma alimentação adequada devem ser tidos em conta “outros fatores, incluídos no estilo de vida”, que também contribuem para “promover mais saúde” e, consequentemente, “ajudar na prevenção de doenças”.
O perigo de alegações sobre “superalimentos” que previnem e curam o cancro
Na perspetiva de Paula Ravasco, “é criminoso induzir as pessoas no erro” de que existe “uma única substância com a capacidade de prevenir uma doença tão complexa como o cancro”.
Alegações como esta, partilhadas nas redes sociais, são perigosas, porque aumentam “o risco de as pessoas desacreditarem a medicina, que as pode realmente ajudar a travar uma doença tão complicada como o cancro”, defende.
A partilha deste tipo de desinformação pode mesmo “desencorajar as pessoas de seguirem terapêuticas” eficazes, como “a quimioterapia, a radioterapia e a cirurgia”, explica a médica.
“É muito mais fácil dizer às pessoas: ‘coma brócolos todos os dias e não vai ter cancro ou vai ficar curado’”, exemplifica.
No entanto, não há soluções simples para uma doença tão complicada. O cancro é, de facto, “uma doença grave e complexa que decorre de vários fatores”, como “fatores genéticos, exposição a substâncias químicas, inatividade física, dietas desadequadas, disfunção metabólica”, entre outros.
Os fatores que contribuem para o desenvolvimento da doença oncológica “são tantos que é impensável encontrar uma substância” que o previna ou cure.
Muitas vezes, refere Paula Ravasco, “utilizamos três ou quatro fármacos de quimioterapia e não conseguimos impedir o crescimento de uma célula” cancerígena.

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.
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