Comer bacon “cru” faz mal? Especialista esclarece
Costuma comer bacon sem o cozinhar antes? Em várias publicações partilhadas nas redes sociais, alega-se que comer bacon “cru” apresenta os mesmos riscos que comer qualquer outro tipo de carne de porco mal cozinhada. Num vídeo do TikTok diz-se que foram encontrados ovos de ténia no cérebro de um homem que comia bacon mal cozinhado. Supostamente, o homem contraiu uma doença devido à ingestão do parasita. Mas será que comer bacon “cru” faz mal? Pode causar uma infeção devido ao consumo de parasitas?
Não se deve comer bacon “cru”?
Em primeiro lugar, refere a especialista em segurança alimentar Isabel Ratão, em declarações ao Viral, é preciso perceber que o bacon “não é um alimento cru”.
Esta “carne é sujeita a secagem e/ou cura e/ou fumagem, seguida de refrigeração, para garantir a conservação”, informa.
Tal como explica a professora do Instituto Superior de Engenharia da Universidade do Algarve, “o bacon é um alimento processado (curado e fumado), com elevado teor de sal, presença de fosfatos e nitritos.
Os fosfatos “aumentam a suculência” do alimento e os nitritos “aumentam o sabor e cor e evitam o crescimento” de uma bactéria chamada “Clostridium botulinum”, explica.
Mesmo os tipos de bacon “que não apresentam fosfatos e nitritos sofrem processamento, pelo que, não sendo crus, podem ser consumidos sem cozinhar”, salienta a especialista.
Apesar de tudo, na perspetiva de Isabel Ratão, importa salientar que “as condições que tornam o bacon seguro do ponto de vista microbiológico são algumas das que o tornam pouco saudável”.
O bacon “não é propriamente um alimento saudável”, defende. Além do seu “elevadíssimo teor de gordura, também possui muito sal e variados aditivos”, aponta.
Aliás, segundo a mais recente avaliação da Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC, na sigla inglesa), uma instituição que pertence à Organização Mundial de Saúde, existe evidência científica suficiente para afirmar que o consumo de carnes processadas (como o bacon) aumento o risco de cancro colorretal (ver aqui).
Além disso, mesmo que, de modo geral, o bacon seja considerado seguro do ponto de vista microbiológico, não se pode afirmar que “é isento de perigo”.
Segundo a professora, “os tratamentos não garantem a eliminação de todos os microrganismos e dos parasitas”. Aliás, acrescenta, “nenhum alimento é isento de riscos”.
Se houver falhas em termos “de higiene no processamento, podem ocorrer parasitas e até mesmo contaminação” do alimento com bactérias, como “listeria e salmonella”.
No entanto, não é comum haver riscos nesse sentido, porque, “na maior parte das vezes”, o bacon não é consumido antes de ser cozinhado, porque “as propriedades organoléticas [sabor, odor, cor, aspeto] melhoram muito com a confeção”.
Além disso, de facto, “qualquer alimento cozinhado é, em princípio, mais seguro”, salienta.
O caso do homem que tinha ovos de parasitas no cérebro
Nos vários posts partilhados nas redes sociais diz-se que comer bacon “cru” faz mal, porque foi noticiado, este ano, o caso de um homem que tinha ovos de ténia (um parasita) no cérebro, porque, supostamente, sempre comeu bacon mal cozinhado.
No entanto, a informação noticiada foi distorcida nas publicações. O doente em questão contraiu uma infeção chamada cisticercose, causada pelo parasita Taenia solium. Não foi o facto de ele comer bacon mal cozinhado que esteve na origem desta infeção, mas, sim, hábitos de “lavagem incorreta das mãos” (ver aqui e aqui).
Tal como se explica num texto dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla inglesa), comer carne de porco, por si só, “não pode provocar cisticercose”.
Os ovos de ténia podem estar em alimentos, na água e em superfícies. Contudo, a infeção só é contraída quando se está em contacto com “as fezes de alguém” que ingeriu ovos de ténia, refere-se no mesmo texto.
Por outras palavras, ingerir estes ovos, por si só, não causa a infeção. Mas, se a pessoa não tiver cuidados higiénicos básicos, pode haver uma “autoinfeção” e a infeção de outras pessoas.

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.
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