VITAL
Comer ananás cura cancro?
Num vídeo com milhares de visualizações publicado no TikTok, diz-se que várias frutas, como os mirtilos, podem curar cancro. Outra das frutas mencionadas é o ananás, que, ao “ajudar o sistema imunitário e destruir proteínas que não deviam existir”, teria o mesmo efeito — isto tudo devido a uma enzima digestiva, a bromelaína.
Mas será mesmo assim? Comer ananás pode mesmo destruir células cancerígenas?
Comer ananás pode curar cancro?
Por si só, nenhum alimento pode curar o cancro. A oncologista Ana João Pissara disse, em declarações anteriores ao Viral, que, “apesar de a alimentação ter um papel fundamental na prevenção do cancro e mesmo após o diagnóstico”, nenhuma mudança, por si só, “mata células cancerígenas”, como se alega no vídeo.
Várias instituições, como a Cancer Research UK, sublinham que, no que toca ao risco de cancro, manter uma dieta saudável tem um impacto superior a ingerir um qualquer alimento específico.
Para prevenir o aparecimento de cancro, a Organização Mundial da Saúde recomenda “manter um peso saudável”, adotar “uma dieta saudável e com bastantes frutos e legumes” e “fazer exercício regularmente”.
Mas o que realmente cura o cancro são os tratamentos comprovados, como a cirurgia, a quimioterapia, a imunoterapia, as terapêuticas alvo e a hormonoterapia, entre outros.
A bromelaína é uma enzima digestiva que existe no ananás e, segundo o que se diz no vídeo, é graças a esse componente que essa fruta elimina células cancerígenas.
É mentira que comer ananás, por si só, elimine células cancerígenas e cure cancro. A afirmação parte de uma extrapolação de alguns estudos que sugerem que a bromelaína pode ter algumas “propriedades anti-cancro”.
Esses estudos referem-se, sobretudo, a investigação in vitro e em modelos animais, não a efeitos observados em pessoas.
Uma revisão publicada em 2022 analisou os dados existentes sobre a bromelaína e concluiu que esta substância pode ter efeitos anticancerígenos, como a redução da proliferação celular, em células isoladas.
Mas os efeitos são mais visíveis quando a bromelaína é utilizada em conjunto com outras substâncias, o que significa que não é clara a extensão dos efeitos desta enzima.
Além disso, os autores sublinham que estas observações ocorrem em condições experimentais muito específicas e com doses de bromelaína que não são atingidas através do consumo de ananás. Até ao momento, não existem provas clínicas robustas de que a bromelaína possa ser relevante para a cura ou tratamento do cancro em humanos.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
Categorias: