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Comer amendoins pode provocar cancro? Nutricionista esclarece

11 Ago 2025 - 08:50

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Comer amendoins pode provocar cancro? Nutricionista esclarece

Vários vídeos nas redes sociais alegam que ingerir manteiga de amendoim pode provocar cancro, porque os amendoins têm uma toxina cancerígena — a aflatoxina. 

Mas será que a alegação é verdadeira? O Viral contactou Rosa Vilares, nutricionista e docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), para perceber até que ponto este risco existe, qual o papel das aflatoxinas e que precauções devem ser tomadas no consumo de alimentos que possam estar contaminados com a substância. 

O que são aflatoxinas?

As aflatoxinas são substâncias produzidas por fungos que crescem em alguns alimentos, nomeadamente nos amendoins. Regra geral, formam-se “pós-colheita, sobretudo se houver atrasos no processo de secagem ou durante o armazenamento caso haja humidade que permita o crescimento dos fungos”, lê-se no site da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE). É possível, mas mais raro, que se formem ainda no campo, no carregamento, no transporte, na embalagem, no local de venda, entre outros.

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“Quando se abre uma noz, por vezes há umas teias” que podem ser identificadoras da presença de aflatoxinas, descreve a nutricionista. Também podem surgir manchas esverdeadas, “como se fosse um bolor”, mas os grãos contaminados raramente têm alterações visíveis suficientes para alertar o consumidor.

A Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC) da Organização Mundial da Saúde classificou as aflatoxinas como cancerígenas (grupo 1) e “a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) confirma que a aflatoxina B1 (AFB1) [a mais presente em amendoins] é mutagénica e pode causar carcinoma hepatocelular (CHC) em humanos”, nota Rosa Vilares.

Em 2020, a EFSA fez um estudo com ratos e concluiu que a exposição alimentar típica à aflatoxina B1 (a mais comum nos amendoins e mais cancerígena) representa alguns riscos para a saúde.

“A regulação europeia define níveis máximos muito restritos para garantir a proteção da saúde, e recomenda a redução máxima da exposição possível”, diz a nutricionista. A quantidade máxima de aflatoxinas permitida pelos regulamentos europeus é de 4 nanogramas por quilo de peso corporal por dia.

Comer amendoins ou derivados provoca cancro?

Comer manteiga de amendoim ou amendoins não causa cancro por si só, mas se estiverem contaminados com aflatoxinas e houver consumo frequente e prolongado, o risco aumenta, especialmente em pessoas com doença hepática (como hepatite B ou C).

“Nós temos umas enzimas no fígado que são chamadas citocromos, e o que elas fazem é desintoxicar”. Para uma pessoa com uma doença hepática, em que as enzimas “estão muito ocupadas a fazer outro tipo de trabalho”, quando “entra no organismo um componente carcinogénico”, acaba por ser potenciado.

O consumo baixo a moderado da aflatoxina B1 (entre 1 e 5 nanogramas por quilo de peso corporal por dia) aumenta o risco de CHC entre duas a três vezes em pessoas que não tenham Hepatite B e entre 10 a 20 vezes no caso de doentes VHB-positivos, diz a nutricionista. No caso de um consumo elevado (mais de 10 nanogramas), o risco para pessoas saudáveis aumenta entre oito e 10 vezes e entre 40 a 60 vezes para um doente com hepatite B. 

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Há um exemplo prático que mostra a ligação entre as aflatoxinas e o risco de CHC: a cidade de Qidong, na China. O consumo prolongado de milho contaminado com aflatoxina B1 levou a uma das maiores taxas de cancro do fígado do mundo. A substituição gradual do milho por arroz e melhorias no armazenamento reduziram a exposição à aflatoxina em mais de mil vezes, contribuindo para uma queda acentuada na incidência de cancro hepático, mesmo antes da vacinação contra a hepatite B.

Quanto mais apertado for o controlo da segurança alimentar num país, menos provável será encontrar à venda alimentos com níveis perigosos de aflatoxinas. Em Portugal, por exemplo, não se deve cessar o consumo de amendoins, manteiga de amendoim ou qualquer outro alimento que possa ter vestígios de aflatoxinas.

“A manteiga de amendoim pode constituir uma componente valiosa numa dieta equilibrada para a população saudável”, conclui a nutricionista. “Tem um perfil nutricional rico e benefícios associados à saúde cardiovascular e ao aporte de micronutrientes essenciais”, mas “a moderação e o conhecimento da sua composição” são necessários “para um consumo consciente e benéfico”.

Como evitar consumir aflatoxinas?

O rigor da EFSA e da ASAE são uma rede de segurança: a abordagem é “muito rigorosa”, diz Rosa Vilares. 

“É sempre conveniente sabermos a origem do produto”, e, “em Portugal, isso está muito bem documentado”. Ou seja, comprar amendoins ou manteiga de amendoim num supermercado é, em princípio, seguro. O mesmo não se pode dizer de um mercado de rua, onde os frutos secos não têm qualquer identificação e não é possível saber as condições em que foram conservados. Nesses casos, a nutricionista diz que se deve ter mais atenção.

Para além disso, importa sublinhar que “na manteiga de amendoim é mais difícil haver esse tipo de risco” do que nos amendoins em si.

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O conselho mais repetido por Rosa Vilares é: evitar consumo excessivo. Essa é a forma mais certeira de diminuir o risco de ingestão de aflatoxinas.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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11 Ago 2025 - 08:50

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