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Comer ameixas com o estômago vazio mata o cancro do pulmão?

18 Mai 2025 - 08:00
falso

Comer ameixas com o estômago vazio mata o cancro do pulmão?

Num post partilhado no Instagram alega-se que “estudos recentes mostram que comer ameixas com o estômago vazio mata o cancro do pulmão”. Segundo a publicação, os “polifenóis das ameixas podem inibir a proliferação de várias células cancerígenas”. Mas será mesmo assim? Há evidência científica que comprove que comer ameixas com o estômago vazio “mata o cancro do pulmão”?

Existem estudos a comprovar que comer ameixas em jejum elimina o cancro do pulmão?

Em declarações, Elsa Madureira, nutricionista clínica na área da oncologia e membro da Associação de Investigação de Cuidados de Suporte em Oncologia (AICSO), adianta que “o consumo de ameixas não vai curar o cancro”, sejam elas consumidas em jejum ou não, independentemente de estar em causa o cancro do pulmão ou outro tipo de doença oncológica.

Aliás, sublinha a nutricionista, “não há nenhum alimento ou composto dos alimentos que possa curar o cancro”.

Esta ideia também é reforçada nos sites de várias instituições de saúde internacionais, como o Cancer Council, o Cancer Research UK e o Instituto Nacional do Cancro dos Estados Unidos (NCI, na sigla inglesa).

Num dos textos do NCI, por exemplo, sublinha-se que “não há provas de que qualquer tendência nutricional, alimento, vitamina, mineral, suplemento dietético, erva ou combinação destes possa retardar o cancro, curá-lo ou evitar que volte”.

Na perspetiva de Elsa Madureira, “estas declarações são extremamente perigosas”, porque podem levar algumas pessoas a abandonarem “os tratamentos convencionais, colocando a sua vida ou o prolongamento do tempo de sobrevivência em perigo”.

Os “estudos recentes” mencionados na publicação (como os reunidos nesta revisão sistemática) são maioritariamente conduzidos em laboratório, em que se testaram “extratos de ameixas” em “linhas celulares”, explica a nutricionista.

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De facto, estes estudos têm verificado que, nestes moldes, “existe uma interação de uma série de vias metabólicas que levam, ou à morte celular, ou a impedir o crescimento, ou impedir a metastização”. 

Mas estes possíveis efeitos não são novos e não são exclusivos das ameixas. “Isto é verificado em muitos fitoquímicos que existem nos vegetais e nas frutas”, realça.

No entanto, importa sublinhar que “isto só se verifica a nível laboratorial” e “não se pode extrapolar”, ou seja, não é possível garantir que os efeitos em humanos seriam os mesmos.

Em jeito de conclusão, Elsa Madureira deixa uma ressalva: “Naturalmente, as ameixas – tal como todas as outras frutas e até os vegetais – fazem bem e têm alguns efeitos interessantes para a saúde. Mas não podemos dizer que o consumo de ameixas vai curar o cancro”.

Qual o papel da alimentação na prevenção e no tratamento do cancro?

Apesar de nenhum alimento ou composto prevenir ou curar o cancro, “está provado que uma dieta saudável e equilibrada pode ajudar a reduzir o risco de cancro”, refere-se num texto do Cancer Research UK.

Aliás, salienta Elsa Madureira, “estima-se que 30% a 40% dos cancros podem ser evitados com a adoção de hábitos de vida mais saudáveis, nomeadamente a alimentação saudável e a prática de exercício físico” (ver também aqui).

Neste contexto, recomenda-se uma “alimentação rica em hortofrutícolas, peixes gordos e cereais integrais”, a abstenção da “ingestão de bebidas alcoólicas” e a redução do consumo de “alimentos extremamente ricos em gorduras, sal, açúcar, e muito pobres do ponto de vista nutricional, como os ultraprocessados”.

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Segundo a nutricionista, é importante haver um equilíbrio, sem haver a eliminação completa de alimentos ou grupos alimentares.

Por outro lado, também é importante que os doentes com cancro “tenham uma dieta equilibrada que forneça proteínas, energia e micronutrientes adequados para manter o peso durante o tratamento”, sublinha-se num texto do Cancer Council.

Segundo Elsa Madureira, durante o tratamento, “o objetivo da nutrição pode ser muito díspar, de acordo com o tipo de cancro diagnosticado, da fase da doença e do prognóstico”.

Quando um doente “tem um bom prognóstico, vai fazer um tratamento – seja cirurgia, quimioterapia ou radioterapia – e fica curado”, atua-se, sobretudo, “no controlo da sintomatologia associada aos tratamentos e, depois, investe-se na prevenção a longo prazo, porque este doente pode vir a ter outras doenças, ou mesmo outros cancros”, explica.

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Se o prognóstico “não é favorável”, é preciso “controlar os sintomas”, mas também “dar qualidade de vida àquele doente”, prossegue.

Em ambos os casos, há um grande risco de “malnutrição oncológica”, que “tem um impacto muito grande no prognóstico”.

Tal como esclarece Elsa Madureira, doentes em tratamento oncológico que estejam desnutridos vão ter “menor resistência a esses tratamentos, mais efeitos secundários, maior risco de complicações” e “pior qualidade de vida”.

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18 Mai 2025 - 08:00

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