Tamanho da cintura e da anca ajuda a prever o risco de doença cardíaca?
“Sabias que se pegares numa fita métrica e medires à volta da cintura e também à volta da anca, vais conseguir descobrir quão provável é vires a ter doenças cardiovasculares?” É com esta pergunta que se inicia um vídeo sobre o rácio cintura-anca que está a ser partilhado nas redes sociais.
Na publicação explica-se que este rácio é obtido através da divisão da circunferência da cintura (no ponto abaixo das costelas) pela da anca (na parte mais larga do fémur). Afirma-se ainda que, se o resultado for igual ou superior a 0,85 nas mulheres e 1 nos homens, o risco de desenvolver doença cardíaca é “alto”.
Será verdade que o rácio cintura-anca é um indicador eficaz para prever o risco de desenvolver doença cardíaca? Está validado pela ciência? A endocrinologista Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), e o cardiologista José Pedro Sousa, especialista no IPO do Porto e membro da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, respondem a estas e outras questões.
O rácio cintura-anca ajuda a prever o risco de problemas cardíacos?
É verdade que o rácio cintura-anca ajuda a avaliar o risco de um indivíduo desenvolver problemas cardíacos ou outras doenças metabólicas.
A endocrinologista Paula Freitas afirma que este rácio “é um indicador útil e fidedigno para a predição do risco de doença cardiovascular”, mas ressalva que “não é perfeito nem absoluto” e deve “ser interpretado dentro do contexto individual” do paciente (sexo, idade, nível de atividade física ou outras características antropométricas).
Existem vários indicadores para estimar a acumulação de gordura corporal. O Índice de Massa Corporal (IMC) – peso a dividir pelo quadrado da altura – é o indicador mais conhecido para avaliar situações de desnutrição ou excesso de peso. Além do rácio cintura-anca, também a medição da circunferência da cintura e a relação cintura-altura apresentam resultados fidedignos no diagnóstico de excesso de peso e obesidade.
“Um rácio cintura-anca aumentado indica uma maior acumulação de gordura na região abdominal”, o que está correlacionado com “uma maior quantidade de gordura visceral”, explica a endocrinologista.
A gordura visceral, que “é metabolicamente mais ativa e produz citocinas pró-inflamatórias”, está associada ao aumento do risco de doença cardíaca, acidentes vasculares cerebrais (AVC), diabetes e outras doenças metabólicas, cancro (ovário e endométrio) e doenças mecânicas (como apneia obstrutiva do sono, refluxo gástrico e incontinência urinária).
Também o cardiologista José Pedro Sousa diz que o rácio cintura-anca é uma “variável biométrica de fácil obtenção” com “muito elevado valor de prognóstico”, principalmente na “capacidade de prever a instalação de doença cardíaca”.
“A aferição da gordura abdominal corresponde ao método mais tangível de se inferir acerca da quantidade de gordura visceral (depositada em torno dos órgãos internos)”, esclarece o cardiologista, acrescentando que este tipo de gordura é “responsável pelos efeitos fisiopatológicos deletérios classicamente atribuídos à obesidade”.
José Pedro Sousa lembra que a obesidade “assume um impacto cardiovascular direto”, uma vez que induz “uma sobrecarga funcional cardíaca” que “se traduzirá na dilatação e/ou hipertrofia do miocárdio (o músculo do coração)”.
O excesso de peso e a obesidade têm também impactos indiretos na saúde cardiovascular, uma vez que estão associados a diabetes, aumento do colesterol, hipertensão arterial e apneia obstrutiva do sono.
O Serviço Nacional de Saúde avança que a prevalência de excesso de peso atinge 67,6% da população portuguesa, estimando-se que 28,7% esteja em situação de obesidade. Segundo o último relatório de COSI (referente a 2022), 31,9% das crianças portuguesas tinham excesso de peso e 13,5% eram obesas.
Num relatório publicado em 2008 pela Organização Mundial de Saúde (OMS), afirma-se que existe “evidência convincente” para afirmar que tanto o rácio cintura-anca como a circunferência da cintura são “medições úteis para prevenir o risco de doença”. Ambos os índices estão associados a “um aumento do risco de doença”, com uma “associação evidente em diferentes populações” (apesar de a maioria dos dados derivar de populações europeias).
Outros estudos (que poderá ler aqui e aqui) também validam a eficácia do rácio cintura-anca como um indicador do risco de desenvolver doença cardíaca. Alguns artigos científicos referem que os indicadores que medem a gordura abdominal – como o rácio cintura-anca, a circunferência da cintura ou a relação cintura-altura – apresentam resultados estatisticamente superiores ao IMC na previsão do risco de problemas cardiovasculares e podem ser utilizados em diferentes populações.
O rácio cintura-anca considerado saudável deve estar abaixo de 0,85 para mulheres e 0,9 para homens. A partir deste valor, o risco de desenvolver complicações metabólicas “aumenta substancialmente”, pode ler-se no relatório da OMS.
Paula Freitas alerta que, “quanto maior for o valor [do rácio], maior tende a ser o risco”, ou seja, que o risco de desenvolver doença cardíaca “não se estabiliza simplesmente por ultrapassar o limite saudável, mas continua a aumentar progressivamente conforme a relação cintura/anca se eleva”.
José Pedro Sousa acrescenta que a “elevação do rácio cintura-anca deverá funcionar como um alerta” para o paciente, motivando-o a adotar “um estilo de vida salubre, particularmente no que refere à prática de uma alimentação saudável e de atividade física”.
Quando existe uma acumulação excessiva de gordura – conhecida como excesso ponderal – poderá ser necessário recorrer “a estratégias medicamentosas e, até, cirurgias”, acrescenta o cardiologista.
As doenças cardiovasculares são uma das principais causas de morte a nível mundial, segundo a OMS. Estima-se que, em 2022, morreram mais de 19 milhões de pessoas devido a problemas cardiovasculares. Alimentação desadequada e inatividade física estão entre os principais fatores de risco para doenças do foro cardíaco e AVC.
“A maioria das doenças cardiovasculares pode ser prevenida através da abordagem de fatores de risco comportamentais e ambientais, como o uso de tabaco, a dieta inadequada (incluindo excesso de sal, açúcar e gorduras) e a obesidade, a inatividade física, o consumo nocivo de álcool e a poluição do ar”, pode ler-se na página oficial da OMS.
Em suma: o rácio cintura-anca é, de facto, um indicador fidedigno que ajuda a prever o risco de doenças cardíacas. Este rácio permite aferir a quantidade de gordura visceral, que é metabolicamente ativa e está associada a variadas condições médicas – como problemas cardiovasculares, doenças metabólicas e cancro.
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