Comer chocolate negro alivia as cólicas menstruais? O que diz a ciência
O conselho repete-se nas redes sociais: “Da próxima vez que sentir dores menstruais, experimente comer chocolate negro.” Alega-se, em várias publicações do Tik Tok, que a elevada quantidade de magnésio existente no cacau poderá atuar como anestésico para a dismenorreia (termo médico para as dores menstruais).
Para validar esta informação é citado um estudo científico, publicado em 2023, que comparou os efeitos de comer chocolate negro, beber água de coco ou tomar ibuprofeno (400 mg) no alívio das dores menstruais. Mas será mesmo assim?
Está provado que o chocolate alivia as cólicas menstruais?
Na teoria, o chocolate negro (com mais de 70% de cacau) poderá ser um alimento interessante para aliviar as dores menstruais. Contudo, na prática, não há evidência robusta que valide estes efeitos.
Em declarações ao Viral, Paula Freitas, professora de endocrinologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), e Fernando Cirurgião, diretor do serviço de ginecologia e obstetrícia do Hospital Francisco Xavier, explicam que existem poucos estudos sobre este assunto, e os que existem têm algumas limitações metodológicas.
Ambos os especialistas referem que os estudos têm “um número de participantes muito pequeno”, um facto que não permite “tirar conclusões robustas”. Sublinham também que as metodologias descritas têm limitações que colocam em causa as conclusões alcançadas.
Por estas razões, são precisos mais estudos para perceber os verdadeiros efeitos do chocolate no alívio da dismenorreia.
O artigo científico citado nas redes sociais descreve um estudo comparativo dos efeitos da água de coco verde, do chocolate negro (70%) e de um comprimido de 400mg de ibuprofeno. O estudo foi realizado em 45 participantes, divididos por três grupos de 15 indivíduos.
Nas conclusões do artigo lê-se que o ibuprofeno é “a intervenção mais eficaz” para reduzir as cólicas menstruais. No entanto, os investigadores referem que “não houve diferença significativa na redução das dores entre o ibuprofeno (400mg) e o chocolate negro (70% de cacau, 35g)”.
Assim, os resultados “sugerem que o chocolate negro, com elevada a sua concentração de cacau, poderá possuir propriedades analgésicas comparáveis com as do ibuprofeno”.
Além das limitações já identificadas, Fernando Cirurgião destaca que a dosagem de fármaco referida – 400mg de ibuprofeno – “é uma dose baixa”, que seria apenas utilizada quando “a mulher tem poucas dores, não quando as dores são graves”.
Noutro plano, Paula Freitas acrescenta que, neste caso, “não é possível fazer um estudo duplamente cego” – quando os participantes não sabem a qual grupo de análise pertencem – porque o chocolate, a água de coco e o ibuprofeno têm formas de administração distintas. Essa limitação metodológica pode interferir nos resultados alcançados.
Outros dois estudos foram realizados sobre o tema. Em 2022, um artigo analisou os efeitos do chocolate negro e da música na redução da dor e ansiedade na dismenorreia primária. Nas conclusões refere-se que “a intensidade média da dor menstrual e o nível médio de ansiedade no grupo do chocolate negro e da música diminuíram significativamente após a intervenção”.
Outro artigo, de 2017, procurou mostrar os efeitos de comer 40 gramas de chocolate negro na dismenorreia de adolescentes entre os 18 e os 21 anos. Para tal, os investigadores identificaram o nível de dor antes da intervenção e concluíram que existia uma redução da intensidade da dor após a ingestão do chocolate.
Contudo, as limitações identificadas pelos dois especialistas são comuns aos três estudos: número reduzido de participantes (84 e 50 participantes, respetivamente) e problemas na metodologia fazem com que as conclusões sejam pouco robustas.
Na teoria, o chocolate pode ter efeitos analgésicos
A composição nutricional do cacau poderá ser interessante para o alívio das dores menstruais, mas é necessário provar os efeitos destes micronutrientes.
O magnésio, os flavonoides, os triptofanos e os polifenóis podem ter um efeito de relaxante muscular, analgésico e anti-inflamatório, o que poderá, em teoria, amenizar a dismenorreia ligeira.
Fernando Cirurgião e Paula Freitas esclarecem que o magnésio atua como um “relaxante muscular” e “vasodilatador”, o que pode ajudar a aliviar as contrações uterinas que provocam as dores menstruais.
Além disso, este micronutriente permite ainda “reduzir o teor de prostaglandina”, o que poderá ter uma “ação parecida com os medicamentos anti-inflamatórios não esteroides”, acrescenta o ginecologista.
O cacau é também rico em antioxidantes, o que “ajuda a combater o processo inflamatório” característico da dismenorreia, prossegue.
A ingestão de chocolate oferece também “uma sensação de prazer e bem-estar” que pode “amenizar as dores menstruais”. Fernando Cirurgião explica que esta sensação de prazer pode também ser alcançada noutras atividades, como fazer exercício físico ou ouvir música.
Paula Freitas volta a referir a importância de distinguir o que se sabe na teoria do que se sabe na prática: “Em teoria, pode ser muito interessante, mas, na prática, é preciso demonstrar a eficácia. Não é possível demonstrar a eficácia em estudos com um número de participantes pequeno e uma metodologia limitada.”

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.
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