Chá de erva-baleeira é a “cura para todas as dores”?
Num vídeo partilhado no TikTok alega-se que o chá de erva-baleeira (Cordia verbenacea) “é a cura para todas as dores“, nomeadamente dores nas articulações e nos músculos. Segundo a autora do vídeo, o chá de erva-baleeira “é o melhor anti-inflamatório natural que existe”, sendo capaz de tratar condições como “artrite”, “artrose” ou “fibromialgia”. Será mesmo assim?
É verdade que o chá de erva-baleeira cura “todas as dores”?
Em declarações ao Viral, Vítor Teixeira, reumatologista e membro da direção da Sociedade Portuguesa de Reumatologia (SPR), adianta que “não há evidência robusta” de que beber chá de baleeira seja “um tratamento eficaz” para condições reumatológicas (como artrite, artrose e fibromialgia) ou que alivie a dor.
Existem poucas investigações sobre a erva-baleeira. Há, apenas, “estudos pré-clínicos, isto é, estudos in vitro (feitos fora de um organismo vivo) ou estudos em animais” (ver, por exemplo, aqui, aqui, aqui e aqui).
Segundo Vítor Teixeira, os estudos sugerem, de facto, “que a erva-baleeira pode ter algumas propriedades anti-inflamatórias e analgésicas”.
Contudo, nenhum dos trabalhos disponíveis permite afirmar que o chá de baleeira “é a cura para todas as dores” ou que é útil no tratamento de doenças reumatológicas.
Aliás, os investigadores responsáveis pelos estudos disponíveis referem que é necessária mais evidência científica sobre a erva-baleeira.
Em primeiro lugar, “não existem estudos em humanos” e “não podemos extrapolar os resultados” de investigações feitas em células ou animais, ou seja, não se pode garantir que os efeitos em humanos seriam os mesmos.
Os compostos, quando estudados em células ou animais, têm um determinado efeito. No entanto, como não há investigações em humanos, “não sabemos qual é a absorção num humano, qual é a metabolização ou se o composto é logo eliminado sem sequer fazer efeito”, exemplifica.
Além disso, nos estudos que existem foram utilizados extratos e óleo de erva-baleeira. Não há evidência sobre o chá de baleeira. Para o reumatologista, essa “também é uma questão relevante”, porque tomar um extrato ou um óleo não é a mesma coisa que beber um chá. São tudo questões “que podem influenciar os resultados”, defende.
Há riscos associados à toma de chá de erva-baleeira?
Como “não há estudos em humanos, a longo prazo e relacionados com o consumo regular, não temos muita informação sobre a toxicidade” da erva-baleeira, salienta Vítor Teixeira.
Em ratos, o extrato de erva-baleeira “parece ser relativamente seguro”, aponta. Ainda assim, mais uma vez, “os dados de segurança em humanos são muito limitados”.
No mesmo sentido, também não se sabe se esta planta ou o chá feito a partir da erva-baleeira “pode interagir com medicamentos”, acrescenta o médico.
De qualquer forma, avisa o especialista, os produtos naturais não são inócuos e é preciso ter cuidado com o que se consome, com a frequência da ingestão e com a quantidade ingerida (ver também aqui e aqui). “Existem inúmeros casos de toxicidade (sobretudo hepática) associados a produtos naturais”, salienta.
Até porque, prossegue o reumatologista, “este tipo de produtos não é regulamentado como os medicamentos”. Quando são colocados à venda, não se sabe “se as ervas estão contaminadas (ou se foram contaminadas durante a colheita, no processamento ou no armazenamento), se têm metais pesados, pesticidas, micotoxinas”.
Neste contexto, “há sempre estas questões que podem influenciar a segurança e a toxicidade destes produtos”, realça.
Por outro lado, recorrer a “soluções” como esta para aliviar ou tratar dores nas articulações ou nos músculos “pode atrasar o diagnóstico” e, por consequência, “atrasar o tratamento adequado”, defende Vítor Teixeira.
No âmbito das “doenças do foro reumatológico” – como “a artrite reumatóide, a artrite psoriática, o lúpus e a gota” -, pode-se “perder uma janela de oportunidade para prevenir a progressão das doenças e evitar danos irreversíveis”, explica.
Além disso, estas são doenças cuja intensidade da dor associada pode variar consoante vários fatores, “pode variar ao longo do dia” e da vida. É fácil um doente “ter a falsa sensação de melhoria” ao beber chá de erva-baleeira, simplesmente porque o momento em que o tomou “coincidiu com flutuações da doença”.
Em jeito de conclusão, Vítor Teixeira deixa uma nota: “Não podemos ser totalmente céticos em relação a estes produtos, mas temos de exigir estudos de boa qualidade. Enquanto não houver, não podemos ver este ou outro chá como substituto para tratamentos médicos convencionais extensamente estudados, quer em termos de eficácia, quer em termos de segurança”.
- Quais são as vacinas obrigatórias para cães e gatos? E como atuam?
- Porque é que algumas pessoas ficam violentas quando bebem álcool?
- Acaba ao fim de dois anos? Afinal, quanto tempo dura a paixão?
- Hepatite A nas crianças. É importante informar e prevenir
- Sementes de mamão eliminam lombrigas? O que diz a ciência