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Beber chá de canela induz o parto “de forma natural”?

14 Jul 2024 - 09:00

Beber chá de canela induz o parto “de forma natural”?

Em vários vídeos partilhados no TikTok, alega-se que beber chá de canela é uma das dicas mais eficazes para quem quer “induzir o trabalho de parto de forma natural”. Está comprovado que o chá de canela induz o parto? É seguro?

É verdade que chá de canela induz o parto “forma natural”?

Em declarações ao Viral, Maria Inês Cardoso, nutricionista no Hospital da Luz e na equipa online Diana Cruz Nutrição, adianta que “não existe evidência clínica que sustente este efeito”.

Além disso, salienta, ao que tudo indica, beber chá de canela durante a gravideznão é seguro”. 

De facto, há pouca evidência robusta no que diz respeito à utilização de chás e outros produtos naturais na gravidez, “dado não ser ético estudar os seus efeitos nesta população, pelos seus potenciais riscos”, explica a nutricionista.

Ainda assim, “parece haver dados que apontam que o consumo de canela sob a forma de chá e em grandes concentrações pode ter um efeito abortivo”, destaca Maria Inês Cardoso.

Apesar de “a robustez dos estudos não nos permitir inferir conclusões sólidas”, há ainda a possibilidade de a canelagerar malformações no feto”.

Por estes motivos, o chá de canela está “contraindicado nesta fase do ciclo de vida”, sustenta (ver também aqui).

Esta ideia também é reforçada num estudo observacional transversal. Segundo os investigadores, alguns produtos, como a canela, “devem ser evitados por mulheres grávidas devido a possíveis efeitos indutores de aborto”.

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Quanto ao consumo de infusões e chás na gravidez, há apenas evidência consistente para o consumo seguro “de gengibre e de cascas de frutas previamente higienizadas, estando desaconselhado o consumo de qualquer outro chá” (ver também neste artigo do Viral).

Tal como já tinha explicado o ginecologista e obstetra Francisco Cirurgião, em esclarecimentos anteriores ao Viral, seguir esta recomendação, ou seja, não consumir chás de que não sejam de gengibre ou frutas, é particularmente importante “durante o primeiro trimestre da gravidez”.

Este período é um momento sensível e precoce na formação do embrião, “em que qualquer coisa que venha do exterior e interaja com o interior poderá ter um efeito negativo”, justificou o médico.

Contudo, anota Maria Inês Cardoso, “é importante ressalvar que nas quantidades habitualmente utilizadas na alimentação, como tempero, a utilização da canela é segura, embora não exista uma recomendação específica quanto à dosagem máxima”.

Fernando Cirurgião também tinha esclarecido que é preciso ter algum bom senso no que toca à quantidade e à “concentração” de canela que está em causa.

“Uma coisa é comer canela às colheres, outra coisa é polvilhar um arroz-doce com um bocadinho de canela”, exemplificava.

Enquanto não há propriamente um substituto para a canela que se coloca no arroz-doce, em termos “de chás, há outras opções mais seguras”.

Deve-se recorrer a “práticas naturais” para induzir o parto?

Do ponto de vista de Maria Inês Cardoso, recorrer a este tipo de “práticas naturais” com o objetivo de induzir o parto apresenta riscos.

Aliás, destaca a nutricionista, “ao contrário do que muitas vezes é divulgado, as ervas com efeito fitoterápico não são totalmente seguras e podem ter efeitos adversos, como toxicidade hepática e interações com medicamentos”.

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Estes efeitos devem “ser ainda alvo de maior atenção quando estamos a falar do período gestacional”, acrescenta.

A única evidência que existe neste sentido indica que “o consumo de tâmaras a partir das 37 semanas de gravidez tem impacto na redução da duração do trabalho de parto, maior grau de dilatação e menor necessidade de oxitocina para a sua indução” (ver também aqui).

No entanto, a dose estudada traduz-se em 7 a 10 unidades por dia. Esta quantidade, assinala Maria Inês Cardoso, “pode não ser uma porção interessante quando existem alterações glicémicas, como na diabetes gestacional, por exemplo”. 

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Além disso, mesmo que esta informação tenha sido reunida numa meta-análise de 2020, “ainda são necessários estudos mais robustos para sustentar esta recomendação”, conclui.

14 Jul 2024 - 09:00

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