Quem usa mais o lado esquerdo do cérebro é mais lógico e menos emocional?
“Qual hemisfério do seu cérebro é mais dominante?” É esta a questão que inicia uma série de vídeos partilhados no Tik Tok em que se apresentam supostos “testes psicológicos” para descobrir se usamos mais o lado direito ou o lado esquerdo do cérebro.
Segundo a teoria partilhada nas redes sociais, quem usa mais o lado (ou hemisfério) esquerdo é uma pessoa “analítica e lógica” e quem usa mais o direito é “criativo e intuitivo”. Apesar de muitas publicações apresentarem testes diferentes, as conclusões são sempre semelhantes: o lado esquerdo é racional e o lado direito é artístico.
Estas publicações baseiam-se na teoria do “hemisfério dominante” que atribui a cada metade do cérebro um tipo de pensamento, sendo o lado esquerdo, supostamente, responsável pelos pensamentos analíticos, lógicos e objetivos e o direito pelas ideias criativas, subjetivas e intuitivas.
Mas será esta teoria cientificamente validada? Haverá um lado do cérebro dominante e isso interfere com a personalidade de cada pessoa? Rui Araújo, neurologista no Centro Hospitalar de São João e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia, esclarece todas as dúvidas.
Há um lado do cérebro dominante que influencia a personalidade?
Muito ainda está por saber sobre o funcionamento do cérebro, mas a ideia de que este órgão está totalmente separado e que existe um hemisfério dominante em cada pessoa é “completamente ultrapassada”, afirma Rui Araújo.
Segundo o neurologista, esta teoria “parte de noções antigas e ultrapassadas de que o cérebro estava dividido, de que o raciocínio mais lógico estava do lado esquerdo e que o hemisfério direito era mágico, pois era onde estava a criatividade e a atividade artística”, explica o especialista.
A origem do mito da teoria do “hemisfério dominante” poderá ter alguma ligação à ciência, mas há evidências mais recentes que mostram que não é real.
A ideia de que o lado esquerdo é mais racional terá surgido quando se descobriu que a região cerebral em que se processa a linguagem está, normalmente, no hemisfério esquerdo.
A partir desse conhecimento “deu-se o salto para a ideia de que tudo teria o seu lugar”, acrescenta Rui Araújo, ressalvando que, no cérebro, “está tudo envolvido e tudo comunica” através do corpo caloso (zona que liga os dois hemisférios).
Apesar de a chamada área de Broca (região cerebral que processa a linguagem) estar situada no córtex esquerdo, isso não significa que atue sozinha. Sabe-se, atualmente, que o processamento da linguagem envolve várias regiões do cérebro – incluindo o hemisfério direito.
Diferentes estudos analisaram a hipótese do hemisfério dominante. Em 2013, um grupo de investigadores analisou o cérebro de 1011 pessoas (via ressonâncias magnéticas) e concluiu que, embora a atividade cerebral dependa da tarefa que o indivíduo está a realizar, não existe um hemisfério dominante.
Já, em 2007, outro estudo tinha desacreditado esta teoria. Os investigadores analisaram a relação entre a vocação pessoal e o processamento cerebral e concluíram que, embora houvesse uma elevada correlação entre a perceção musical e as funções do hemisfério direito, não foi identificada uma correlação entre os conceitos matemáticos e o hemisfério esquerdo sozinho.
Além disso, é importante sublinhar que uma pessoa pode ser, em simultâneo, analítica e artística, racional e emotiva.
A personalidade e a vocação das pessoas depende de vários fatores – como a genética, a educação e as vivências acumuladas – e não pode ser avaliada e validada por um teste sem fundamento científico partilhado nas redes sociais.
A divisão da população em duas classes é incorreta, limitativa e pode, inclusive, ter consequências na autoestima de algumas pessoas.
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