Cancro da próstata: Cirurgia causa sempre disfunção erétil e incontinência urinária?
No TikTok, alega-se que a cirurgia da próstata “vai deixar inúmeras consequências”. Segundo o autor do vídeo partilhado, depois de fazer este tratamento o doente vai “ter incontinência urinária”, “não vai ter ereção”, tem “a combinação dos dois”, ou tem uma série de outras consequências e “não se livra delas”. Mas será mesmo assim? A disfunção erétil e incontinência urinária são uma inevitabilidade nos homens que fazem esta cirurgia?
Em declarações ao Viral, Isaac Braga, urologista no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, explica os riscos associados à cirurgia da próstata, a importância deste tratamento e as alternativas que existem.
A cirurgia para tratar o cancro da próstata causa sempre disfunção erétil e incontinência urinária?
Isaac Braga explica que, existem, de facto, “complicações funcionais, pós-operatórias, que são, sobretudo, a disfunção erétil e a incontinência urinária”. Contudo, salienta, isto “não acontece a todos os doentes”.
O médico adianta que, atualmente, existem “três técnicas” de cirurgia da próstata (ou prostatectomia radical): “a cirurgia aberta” e a “cirurgia minimamente invasiva” que se subdivide na “laparoscopia convencional” e na “cirurgia robótica”.
Na cirurgia aberta, “o médico remove completamente a próstata e os gânglios linfáticos regionais, através de uma incisão no abdómen”, esclarece-se num texto informativo da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC).
Por outro lado, na laparoscopia convencional “são colocados instrumentos dentro da cavidade abdominal do doente e a cirurgia é feita dessa forma”, informa Isaac Braga.
A cirurgia robótica é semelhante, mas “os instrumentos são colocados dentro da barriga do doente com o auxílio de um sistema robótico”.
Segundo o médico, “as três técnicas são consideradas equivalentes em termos de cura oncológica”.
As técnicas minimamente invasivas “parecem trazer algumas vantagens, porque permitem uma visão mais aproximada e uma disseção mais minuciosa dos nervos e da própria próstata”, justifica o urologista.
Os doentes que fazem estes tratamentos também têm, “aparentemente, uma recuperação mais rápida” e menos probabilidade de ficarem com sequelas.
Apesar disso, o tratamento de primeira linha continua a ser “a cirurgia aberta, porque nem todos os hospitais, ou até mesmo realidades, têm as diferentes técnicas disponíveis”, esclarece Isaac Braga.
Em relação aos efeitos secundários da cirurgia, estima-se que “cerca de 70% dos doentes têm problemas de controlo da bexiga 6 meses após uma prostatectomia radical”, refere-se num texto do Cancer Research UK.
Contudo, acrescenta-se, a maioria dos doentes melhora após esse período e, “para alguns, demora 1 ou 2 anos” até recuperarem totalmente.
Uma baixa percentagem dos homens pode ficar com “problemas urinários permanentes”, refere-se. Segundo Isaac Braga, este número ronda os 15%.
No caso da disfunção erétil, o risco é maior. “Na literatura, esta percentagem varia um pouco entre 60% e 80%” dos doentes que fazem cirurgia.
A questão é que a probabilidade de os doentes apresentarem estas sequelas vai depender não só do sucesso da cirurgia, mas também de fatores individuais.
Vai depender muito “de como o doente estava antes” do tratamento. Por exemplo, refere o especialista, “se o doente já tiver queixas urinárias, por exemplo, o risco de vir a desenvolver incontinência urinária aproxima-se da maior taxa, dos tais 15%”.
Se o doente não tiver queixas, “é provável que fique sem incontinência”, salienta.
O mesmo serve para a disfunção erétil. Se já havia uma queixa, a probabilidade de o doente ficar com problemas é maior.
Além disso, “doentes que tenham outros fatores de risco, por exemplo, diabetes e doença cardiovascular, podem ter uma maior probabilidade de desenvolver a disfunção erétil após a cirurgia”, acrescenta.
Mesmo que a pessoa tenha problemas nesse sentido, segundo outro texto do Cancer Research UK, é possível ter uma vida sexual.
“Existem vários tratamentos que podem ajudar”, como medicamentos, “bombas penianas” e “implantes”, refere-se no mesmo texto.
Ambas as sequelas são sempre “piores imediatamente a seguir à cirurgia”, destaca Isaac Braga. Os doentes “podem esperar melhorias até dois anos após a cirurgia”, sendo que depois desse período “não é de esperar alterações substanciais”, aponta.
Em que situações é necessária a cirurgia? Há alternativas?
Até à data, as cirurgias só são feitas “a pessoas com doença localizada ou localmente avançada”, avança o urologista.
Na fase de doença localizada, o cancro pode ser considerado de “baixo risco, risco intermédio e alto risco”, explica.
Sendo que esta divisão é atribuída consoante “a agressividade do próprio tumor (o grau tumoral), os valores do PSA (análise no sangue do antigénio específico da próstata) e as características do tumor ao toque retal”.
Para os doentes “com um tumor da próstata de baixo risco”, o tratamento “é a vigilância ativa”.
Neste nível de risco, o doente também pode fazer as chamadas “terapias focais”, que são “modalidades de tratamento consideradas experimentais” (não são de primeira linha), mas que não estão disponíveis em todo o lado.
Segundo Isaac Braga, o objetivo destes tratamentos é “tratar o nódulo de baixo risco, preservando o resto da próstata e com isto tentar minimizar os efeitos secundários”.
Atualmente, existem “os ultrassons de alta intensidade focados na zona da próstata” (HIFU, na sigla inglesa), “a eletroporação irreversível” e “a crioterapia”.
Se houver “progressão da doença” e o doente passar para o nível de risco intermédio ou alto, “fala-se de tratamento com intenção curativa, ou seja, ou cirurgia ou radioterapia”, informa.
Ambos os tratamentos, “em termos de controle da doença, são considerados semelhantes”, mas “o perfil de efeitos secundários é diferente”.
A cirurgia tem os riscos associados já mencionados, a radioterapia tem efeitos derivados da radiação.
“A radiação imposta causa a morte das células da próstata, controlando assim o tumor”, esclarece o médico.
Ao mesmo tempo, acaba por ter efeitos negativos “nos órgãos onde passa, ou seja, na bexiga, no intestino e também na própria próstata”, prossegue.
Por esse motivo, este tratamento acaba por poder “dar incontinência urinária”, mas também um efeito não comum na cirurgia, que “são as queixas intestinais”.
A escolha da cirurgia ou da quimioterapia depende, sobretudo, “da decisão da equipa multidisciplinar que acompanha a pessoa” e da “preferência do doente”.
Ainda assim, existem situações específicas que podem ajudar a tomar essa decisão. Por exemplo, “se uma pessoa tem uma doença inflamatória intestinal”, faz-se, “preferencialmente, a cirurgia, pelo receio de a radiação agudizar essa doença”.