VITAL
Cabelos brancos são um processo de defesa do corpo contra o cancro?
Investigadores japoneses publicaram, no início de outubro, um estudo na revista científica Nature Cell Biology. Pouco depois, começaram a surgir vários vídeos nas redes sociais nos quais se citava esse estudo como prova de que, supostamente, “os cabelos brancos são um processo de defesa contra o cancro”.
Mas será mesmo assim? O surgimento de cabelos brancos indica que o corpo está a defender-se de um cancro?
Os cabelos brancos aparecem quando o corpo está a defender-se de um cancro?
Não, a associação não é a que é descrita em vídeos nas redes sociais — foi feita uma interpretação abusiva das conclusões dos investigadores.
Alia Ramazanova, médica de clínica geral e especialista em tricologia, diz claramente: “A afirmação, na forma como efetivamente tem sido publicada nas redes sociais, não é verdadeira”.
“O cabelo branco e o seu aparecimento nunca vão proteger o nosso organismo de qualquer tipo de cancro”. O que pode acontecer, segundo o estudo publicado no início de outubro, é que “certos mecanismos de proteção tenham como efeito secundário o aparecimento de cabelos brancos”.
Mas o estudo foi feito em ratos, pelo que, ainda que sirva para levantar uma hipótese, não é suficiente para provar que o mesmo efeito seja verificado em seres humanos. Além disso, associa esse mecanismo apenas ao melanoma, não a todos os cancros.
Os cabelos brancos surgem porque os melanócitos, responsáveis pela produção de melanina, vão diminuindo essa produção, o que faz com que os cabelos nasçam brancos ou grisalhos.
Os melanócitos “também estão na origem dos cancros de pele, dos melanomas”, diz a especialista — quando há uma proliferação descontrolada destas células, pode desenvolver-se uma neoplasia.
Para isso acontecer, é necessário “um dano” causado, por exemplo, pela radiação ultravioleta. Os investigadores pegaram nessas informações e estudaram tanto os melanócitos como as suas células-mãe, localizadas nos folículos capilares.
E, explica Alia Ramazanova, concluíram que “o facto de termos cabelos brancos pode significar que o nosso organismo está a lutar com uma possível alteração no material genético, na parte da informação genética destas células, e está a tentar travar a sua proliferação”.
Ou seja, quando há um dano do ADN que espoleta a proliferação de melanócitos, o organismo dos ratos estudados, como reação, diminui a produção de melanina. E é esse mecanismo que pode fazer com que o cabelo fique branco.
O que acontece é que o cabelo branco surge como reação a algo que está a acontecer no organismo e não como forma de proteger contra o cancro.
O aparecimento de cabelos brancos é perfeitamente normal e pode ser resultado não só da idade, mas também de fatores como genética, stress, alimentação, entre outros.
Além disso, “não tem efeito de proteção sobre nada”. “O cabelo mantém a mesma estrutura, é um cabelo que vai manter os seus ciclos de crescimento da mesma forma que tinha enquanto tinha a sua coloração”.
Segundo o estudo pode haver um processo “estimulado pelo organismo” em que é diminuída ou parada a produção de melanina, mas “não há qualquer efeito em termos de proteção”.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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