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“Burro velho não aprende línguas”: Mito ou ciência?

18 Dez 2025 - 08:45

“Burro velho não aprende línguas”: Mito ou ciência?

Diz a sabedoria popular que “burro velho não aprende línguas”, ou seja, que as pessoas mais velhas não têm capacidade para aprender coisas novas.

Mas será verdade que a capacidade de aprender e reter novas informações diminui ao longo da vida? Filipe Palavra, neurologista na Unidade Local de Saúde de Coimbra e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia, e Tiago Proença dos Santos, neuropediatra no Hospital de Santa Maria e membro da direção da Sociedade Portuguesa de Neuropediatria, ajudam a compreender a ciência por detrás deste ditado popular.

Quando envelhecemos, perdemos a capacidade de aprender algo novo?

“É óbvio que temos capacidade de aprender coisas novas ao longo da vida”, responde Filipe Palavra. Partindo do ditado popular, o especialista garante que “uma pessoa mais velha pode perfeitamente aprender uma língua nova”, no entanto, reconhece que o processo de aprendizagem poderá ser “mais lento”.

Também Tiago Proença dos Santos afirma que “é possível que as pessoas mais velhas aprendam algo novo”, embora seja “mais fácil fazê-lo durante a infância”. 

O cérebro neonatal desenvolve ligações entre neurónios (sinapses) mais facilmente. “Durante os primeiros anos de vida, as crianças têm maior capacidade de fazer aprendizagens porque o cérebro apresenta maior neuroplasticidade. No final da infância, começamos a perder esta capacidade”, esclarece o neuropediatra.

A neuroplasticidade é a capacidade que o cérebro tem de se reorganizar, por via de novas conexões neurológicas. É uma propriedade que se prolonga ao longo da vida e permite que o ser humano aprenda coisas novas, guarde memórias ou recupere após doenças e lesões – por exemplo, um acidente vascular cerebral (AVC).

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Num artigo de revisão, publicado em 2025, explica-se que a neuroplasticidade “não é estática ao longo da vida”. Esta propriedade do cérebro “evolui desde o desenvolvimento inicial até ao envelhecimento”, sendo influenciada “por fatores genéticos, ambientais e de estilo de vida”.

“Embora os mecanismos fundamentais da plasticidade permaneçam semelhantes em diferentes fases [da vida], a sua capacidade e eficiência podem variar consideravelmente, moldando a função cognitiva, a resiliência emocional e a suscetibilidade a distúrbios neurológicos”, escreve o investigador.

Na infância, “a neuroplasticidade está no seu pico”, o que permite à criança aprender rapidamente e adaptar-se a novos elementos e contextos que a rodeiam. Na idade adulta, “a neuroplasticidade persiste”, podendo ser influenciada “pelo estilo de vida” do indivíduo, nomeadamente a “educação, atividade física, relações sociais e dieta”.

“Ainda que menos pronunciado do que no desenvolvimento inicial, os adultos ainda podem formar novas ligações sinápticas, reorganizar os circuitos existentes e adaptar-se às crescentes exigências cognitivas, especialmente quando regularmente envolvidos em atividades mentalmente estimulantes ou fisicamente ativas”, escreve ainda o investigador.

Filipe Palavra sublinha a importância do treino e da estimulação cognitiva para potenciar a neuroplasticidade ao longo da vida. “O cérebro é como um músculo: se o usarmos muito, ele desenvolve-se; se deixarmos de o exercitar, fica ‘flácido’ e deixa de funcionar com tanta eficiência”, compara o especialista.

Além da neuroplasticidade, existem outros fatores que podem dificultar a aprendizagem na idade adulta. O neurologista explica que tanto a memória (de trabalho e episódica), como a atenção “vão diminuindo” com a idade, o que também dificulta a capacidade de “recordar factos recentes”.

Ou seja, o processo de aprendizagem torna-se “mais difícil à medida que a idade vai avançando” porque a “velocidade de processamento é mais lenta”, a “memória de trabalho e a atenção ficam comprometidas” e a “memória episódica torna-se menos eficiente”, conclui Filipe Palavra. No entanto, ressalva o especialista, “ser mais difícil não é ser impossível”.

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18 Dez 2025 - 08:45

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