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Beringela em pó baixa o colesterol, ajuda a emagrecer e “desintoxica”? O que diz a ciência

19 Abr 2026 - 08:15

Beringela em pó baixa o colesterol, ajuda a emagrecer e “desintoxica”? O que diz a ciência

Nas redes sociais, multiplicam-se alegações de que a beringela em pó pode reduzir o colesterol, ajudar a emagrecer e até “desintoxicar” o organismo. Mas até que ponto estas promessas têm valor científico?

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A beringela em pó reduz o colesterol?

A beringela em pó resulta da desidratação do fruto da espécie Solanum melongena, da família das solanáceas (a mesma do tomate). “Apesar de ser um alimento com bom teor em fibra, a evidência científica é fraca e pouco robusta”, explica a farmacêutica e nutricionista Maria João Campos, em declarações ao Viral.

Ou seja, embora existam indícios de possíveis efeitos positivos, faltam estudos sólidos que confirmem de forma consistente os benefícios frequentemente divulgados.

Parte da investigação científica disponível tem-se focado sobretudo nos compostos da beringela e nos seus efeitos bioquímicos. Um estudo conduzido por investigadores do Instituto Politécnico de Bragança, publicado na revista Applied Sciences, confirma que a beringela é rica em compostos fenólicos e apresenta atividade antioxidante relevante, considerando as diferentes formas de consumo.

Quando se analisam estudos clínicos em humanos, os resultados são pouco conclusivos. Um ensaio publicado no Brazilian Journal of Medical and Biological Research avaliou o consumo de preparações de beringela em pessoas com colesterol elevado e concluiu que os efeitos foram apenas “modestos e temporários”.

O pó é nutricionalmente diferente da beringela fresca?

Uma das diferenças mais relevantes entre o pó de beringela e a beringela fresca está na concentração dos nutrientes.

“Enquanto a beringela fresca apresenta 92,5% de água (TCA), o processo de desidratação concentra a fibra alimentar e os compostos fenólicos”, refere a também professora convidada da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.

Na prática, isto significa que o pó permite ingerir mais fibra e polifenóis numa menor quantidade. Ainda assim, “nutricionalmente, o pó não apresenta efeitos qualitativos novos”, acrescenta a nutricionista contactada pelo Viral. Maria João Campos descreve que se pode retirar do pó benefícios típicos dos alimentos com alto teor em fibra: “a modulação da glicémia pós-prandial e a inibição da oxidação lipídica”.

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A beringela em pó ajuda a emagrecer?

A ideia de que a beringela em pó emagrece é comum, mas não está aprovada para esse efeito por entidades como a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA, na sigla em inglês).

A EFSA é a entidade responsável por aprovar alegações de saúde. No caso da beringela em pó, não há qualquer alegação aprovada”, esclarece a nutricionista.

Ainda assim, Maria João Campos reconhece que isso não significa que este complemento seja totalmente inútil no controlo de pes, “uma vez que a sua composição nutricional (nomeadamente o teor em fibra) pode ajudar a criar uma sensação de saciedade, o que contribui para o controlo de peso”.

De forma mais abrangente, uma revisão científica sobre o papel da beringela no metabolismo, disponível na National Library of Medicine, indica que, embora existam compostos com potencial biológico (como ácidos fenólicos e antocianinas), a maioria das evidências advém de estudos em animais ou em laboratório. Os autores destacam a necessidade de mais ensaios clínicos robustos em humanos para confirmar efeitos como a redução do colesterol ou impacto no peso corporal.

Que compostos da beringela podem influenciar o colesterol ou o peso?

Um dos compostos-chave da beringela é a pectina, uma fibra solúvel. 

“O seu mecanismo de ação assenta na formação de uma matriz viscosa intraluminal que sequestra os ácidos biliares, forçando o fígado a recrutar colesterol endógeno para a síntese de novos sais, além de promover a saciedade, retardando o esvaziamento gástrico”, detalha Maria João Campos.

No entanto, há um detalhe importante: a quantidade necessária.

“De acordo com a EFSA, a alegação de saúde para a manutenção de níveis normais de colesterol exige uma ingestão diária de 6 g de pectinas. Considerando que uma beringela média fornece cerca de 2 g de fibras solúveis totais, o consumo do fruto ao natural torna-se desafiante em termos logísticos para atingir esse benefício”.

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Maria joão Campos aponta que é aqui que o pó pode ter alguma vantagem, porque pode ser considerado “um ingrediente funcional, com condições para cumprir a utilização da alegação”.

A beringela em pó “desintoxica” o organismo?

Uma das alegações mais populares, a de que “desintoxica” o organismo, não tem base científica.

“Fisiologicamente, o conceito de ‘detox’ por meio de alimentos é um mito. O organismo já possui sistemas especializados (…), nomeadamente o fígado e os rins”, remata a nutricionista.

E conclui:“A beringela em pó não ‘desintoxica’, ela apenas contribui, como muitos outros, na excreção”.

Existem riscos no consumo de beringela em pó?

Apesar de ser natural, a beringela em pó não é isenta de riscos, sobretudo em doses elevadas. Maria João Campos alerta que o pó “pode potenciar o efeito de fármacos anti-hipertensivos, levando a quadros de hipotensão indesejados”.

Além disso:

  • Pode aumentar o risco litíase renal , ou de pedras nos rins (devido aos oxalatos);
  • Pode atingir níveis tóxicos de certos compostos, como a solanina;
  • Pode causar obstipação se não houver ingestão adequada de água.

“Por tudo isto, a prioridade deve ser sempre a ingestão de fibra através de uma alimentação variada e de matriz alimentar convencional, reservando a suplementação para objetivos funcionais específicos e sempre sob supervisão de um profissional de saúde”, reforça a nutricionista ao Viral.

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Como deve ser integrada numa alimentação equilibrada?

A especialista enquadra a beringela em pó como um complemento, não um substituto.

“Numa alimentação equilibrada, a beringela em pó deve ser considerada um ingrediente funcional complementar, e não um substituto da matriz vegetal íntegra”.

Pode ser útil em casos específicos, como dificuldade em atingir a ingestão diária de fibra, mas sempre com acompanhamento: “A sua utilidade depende da personalização” e “pode ser uma estratégia para a modulação da glicémia e do perfil lipídico em pacientes com dificuldades em atingir as metas diárias de fibra, desde que integrada num plano que privilegie a diversidade alimentar”.

A beringela em pó não é um “produto milagroso”. Pode ter algum interesse nutricional, sobretudo pela concentração de fibra, mas não há evidência robusta para muitas das alegações, não existe aprovação oficial para efeitos como o emagrecimento e o seu consumo excessivo pode trazer riscos.

Pode integrar uma alimentação equilibrada, mas não substitui uma dieta variada nem dispensa aconselhamento profissional.

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Alimentação

19 Abr 2026 - 08:15

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