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Estudo prova que bebidas energéticas podem aumentar o risco de leucemia?
Um estudo recente publicado na revista Nature está a causar alarme nas redes sociais. Em várias publicações do TikTok e do Facebook sugere-se que este estudo revela que as bebidas energéticas podem aumentar o risco de leucemia. Isto porque, supostamente, a taurina, um dos principais ingredientes destas bebidas, “promove o crescimento das células cancerígenas da leucemia”. Mas será mesmo assim? As bebidas energéticas podem aumentar o risco de leucemia? O que se investigou e concluiu no estudo mencionado?
É verdade que as bebidas energéticas podem aumentar o risco de leucemia?
Em declarações, Albertina Nunes, médica do Serviço de Hematologia do IPO Lisboa, adianta que não há “evidência científica que permita inequivocamente afirmar o aumento de risco de leucemia causado pela ingestão de bebidas energéticas ricas em taurina”.
A hematologista começa por explicar que “a taurina é um aminoácido produzido por várias células do organismo humano, como as da medula óssea, onde as células sanguíneas são produzidas”.
Tal como já tinha esclarecido o nutricionista Ricardo Cotovio, em declarações anteriores, a taurina está presente em “algumas ações importantes, a nível fisiológico, antioxidante e anti-inflamatório, e também tem alguma influência na estabilização celular, na homeostase do cálcio, na produção energética e na neuromodulação”.
No estudo citado nas redes sociais, em que se utilizaram animais e “células derivadas de doentes com leucemia mieloide aguda” (LMA), sugere-se que “as células leucémicas, produzidas na medula óssea, são incapazes de produzir taurina por si mesmas”, refere Albertina Nunes.
As células “dependem de um transportador de taurina chamado TAUT, para capturar a taurina do ambiente da medula óssea, essencial para o seu metabolismo”, acrescenta.
Nesse sentido, surge a menção às bebidas energéticas, como fonte externa de taurina. Segundo os investigadores, “os suplementos de taurina podem acelerar a progressão da leucemia mieloide em modelos de ratinhos”, aponta-se no estudo.
“Uma vez que a taurina é um ingrediente comum em bebidas energéticas e é frequentemente fornecida como suplemento para atenuar os efeitos secundários da quimioterapia”, este trabalho “sugere que pode ser interessante considerar cuidadosamente os benefícios da suplementação com taurina em doentes com leucemia”, explica-se.
Na perspetiva de Albertina Nunes, os investigadores utilizam “esta descoberta como ponto de partida para uma nova terapêutica dirigida contra a leucemia”.
Para a hematologista, “os resultados obtidos são muito interessantes e poderão vir a ser a base para futuras investigações na clínica e até para eventual pesquisa de novos agentes para o tratamento das leucemias agudas, que podem ser doenças graves para as quais ainda temos limitações terapêuticas, por exemplo, quando a doença não responde ou recai”.
Em suma, com base no estudo referido nas redes sociais, não se pode afirmar que as bebidas energéticas podem aumentar o risco de leucemia. Aliás, até à data, não há evidência científica que comprove esta ideia.
Neste trabalho, apura-se que em ratos com LMA e em células humanas leucémicas a suplementação de taurina pode promover o crescimento das células cancerígenas, o que implica a presença da doença.
Os resultados obtidos não podem ser extrapolados, ou seja, não é possível garantir que os resultados em humanos, fora do laboratório, seriam os mesmos. Por isso, são necessários mais estudos, inclusive estudos clínicos para alcançar conclusões mais robustas.
Isto não significa que as bebidas energéticas são isentas de risco. O consumo destes produtos, sobretudo em excesso, traz consequências negativas para a saúde, não propriamente devido à taurina, mas, sim, pelo seu alto teor em açúcar e cafeína.
As bebidas energéticas estão associadas principalmente a problemas dentários e a um aumento do risco cardiovascular, metabólico e renal (ver aqui, aqui e aqui).
Que fatores aumentam o risco de ter leucemia?
Segundo Albertina Nunes, “são poucos os fatores conhecidos que contribuem diretamente para o risco de leucemia”.
No entanto, “está estabelecido, por exemplo, que exposição à quimioterapia ou à radioterapia é fator de risco” (ver também aqui e aqui).
Além disso, sublinha-se num texto da Sociedade Americana do Cancro, a LMA sobretudo “pode ocorrer em qualquer idade, mas torna-se mais comum à medida que as pessoas envelhecem” e, por razões desconhecidas, a doença “é ligeiramente mais frequente nos homens”.
O risco de LMA também aumenta com a exposição a determinados químicos, como o benzeno e o formaldeído (ver também aqui).
Ter determinadas doenças crónicas do sangue ou síndromes causadas por mutações genéticas e ter histórico familiar de LMA também são fatores de risco para o desenvolvimento deste tipo de cancro.
Por outro lado, salienta Albertina Nunes, ter “um estilo de vida saudável, como uma alimentação equilibrada e praticar atividade física regular” aliadas a uma “evicção tabágica” são fatores “protetores de cancro em geral”.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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