Bebida proteica com claras de ovo é “o milagre do emagrecimento”?
Num vídeo partilhado no TikTok alega-se que uma bebida proteica que contém claras de ovo é “o milagre do emagrecimento”. Segundo o autor do vídeo, este produto é vendido em diversos sabores – morango, banana e baunilha – e em vários supermercados. Supostamente, metade do pacote tem cerca de 100 calorias e promove a saciedade durante várias horas. Mas será que as claras de proteína fazem emagrecer?
É verdade que esta bebida proteica com claras de ovo é “o milagre do emagrecimento”?
Em declarações ao Viral, Filipa Costa, nutricionista no Hospital Trofa Saúde Alfena, adianta que “não é correto” afirmar que esta bebida proteica com claras de ovo é o milagre do emagrecimento. Aliás, “nenhum alimento, em isolado, tem a capacidade de engordar ou emagrecer”, isso “depende sempre de todo o contexto alimentar”, sublinha.
Contudo, “existem alimentos que promovem maior ou menor saciedade, outros que são mais ou menos calóricos e, dependendo do objetivo clínico, podemos reduzir a quantidade usada de uns em prol de maior quantidade de outros”, explica a nutricionista.
O alimento apresentado no vídeo “é um produto proteico à base de clara de ovo, em que esta é a principal fonte de proteína”, e também contém “proteínas de leite e soro de leite, em menores quantidades”.
A albumina (proteína naturalmente presente na clara) “é a principal fonte de proteína desta bebida, sendo uma proteína de alto valor biológico, ou seja, de qualidade, pois contém os aminoácidos essenciais que o nosso organismo não é capaz de produzir”, esclarece Filipa Costa.
Esta bebida, como qualquer outro produto rico em proteína, e dependendo da dose utilizada, pode promover a saciedade.
Segundo a nutricionista, “a proteína é o macronutriente que melhor promove a redução de apetite por aumento da saciedade, ao estimular as hormonas da saciedade, reduzir a hormona da fome (grelina) e ao abrandar o esvaziamento gástrico”.
Além disso, “a proteína também tem maior efeito termogénico, ou seja, o corpo gasta mais energia para a digerir”.
Este produto em específico, por ser maioritariamente à base de claras de ovos, tem muito pouca gordura, poucos hidratos e é rica em proteína de alto valor biológico, tornando-o num produto de baixo valor calórico.
Em comparação com “a proteína whey (absorção rápida), a albumina tem absorção moderada, prolongando a saciedade por maior tempo”, sublinha.
Por isso, este tipo de bebidas “pode ser um complemento à dieta”, dependendo dos gostos individuais. “Do ponto de vista nutricional, o seu uso pode ser interessante, mas não tem que ser obrigatório”, pois existem “várias possibilidades de equivalência em termos de alimentos ou produtos alimentares ricos em proteína”, clarifica.
Como qualquer outro alimento, este produto “deve ser usado adequadamente, num plano alimentar ajustado, equilibrado e individualizado e não em substituição de todas as refeições diárias ou com eliminação de grupos alimentares”, defende Filipa Costa.
Até porque, “o produto apresentado não tem um impacto direto no emagrecimento porque nenhum alimento tem a capacidade de o fazer”, lembra.
Na perspetiva da nutricionista, “precisamos de terminar com o terrorismo nutricional ou a atribuição de fenómenos a alimentos, como se tivessem super poderes, porque muitas vezes estragam a relação que as pessoas têm com a alimentação, podendo originar problemas de comportamento alimentar”.
Importa ainda referir que o emagrecimento depende de vários fatores: “todo o contexto alimentar, gostos e preferências, nível de atividade física, metabolismo, estado hormonal entre outros”.
Não é um alimento isolado “que pode ter impacto significativo no emagrecimento, mas sim toda a ingestão ao longo do dia dos vários alimentos, gasto calórico, metabolismo, hormonas, genética e por aí fora” (ver também aqui).
Para a nutricionista, “o emagrecimento é muito mais complexo” e não pode “ser reduzido apenas ao gasto calórico ter de ser superior à ingestão calórica”. Este princípio “é uma verdade, e temos de partir daí, mas nem sempre é suficiente”, acrescenta.
Que estratégias são úteis num processo de emagrecimento?
Se pretende perder peso – e, consequentemente, emagrecer -, “deve fazê-lo mediante aconselhamento médico, para que esse objetivo seja alcançado de forma saudável e equilibrada e para que possa ser mantido ao longo do tempo”, aconselha-se no site do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24).
Para Filipa Costa, também é importante “procurar a ajuda de um nutricionista que o ouça e leve em consideração gostos alimentares, profissão (se trabalha ou não por turnos), entre outros”.
Deve-se “fazer as pazes com a alimentação, não havendo alimentos proibidos”, salienta a nutricionista. “Há alimentos que podem não ser ideais, mas podem fazer parte das exceções e está tudo bem”, defende.
No mesmo sentido, é fundamental “não erradicar grupos alimentares desnecessariamente” e “evitar restrições calóricas severas”, aponta.
Uma estratégia crucial é “fugir de dietas que têm nome”. Tal como explica a nutricionista, “uma dieta pode ser categorizada com base nas calorias e/ou distribuição dos macronutrientes, mas tem de ser completamente personalizada e individualizada”.
“Cada doente é único, portanto, se a dieta tiver de ter um nome, terá de ser o nome do doente, porque cada dieta deve ser prescrita individualmente para cada um”, defende.
A atividade física regular também tem um papel importante. É essencial “ser mais ativo e praticar exercício físico, dando a devida importância à musculação”, conclui.