Beber leite com canela e curcuma faz perder a vontade de beber álcool e fumar?
Um copo de leite quente com três paus de canela, uma colher de curcuma e um pouco de mel. Esta é a receita que está a ser partilhada nas redes sociais para “desintoxicar o organismo” e, supostamente, fazer com que as pessoas deixem de fumar ou beber álcool.
No vídeo, alega-se que esta receita “desintoxica o corpo e ajuda a pessoa a perder o desejo de continuar a consumir álcool ou cigarros”, deixando para trás estes “desejos prejudiciais” num “piscar de olhos”.
Será verdade? A nutricionista Helena Trigueiro, a pneumologista Sofia Ravara e o psiquiatra João Marques avaliam a veracidade desta publicação e explicam quais os procedimentos eficazes no tratamento de casos de tabagismo e alcoolismo.
Leite com canela, curcuma e mel é eficaz no tratamento de tabagismo e alcoolismo?
Não é verdade que beber leite com canela e curcuma (também conhecida como açafrão da índia) seja eficaz para deixar de beber álcool ou de fumar. Helena Trigueiro explica ao Viral que “não há alimentos que, por si só, influenciem a cessação tabágica ou a diminuição do consumo de álcool” – nem de forma isolada, nem combinados.
Também João Marques, vice-presidente da secção de psiquiatria da adição da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, esclarece que “não existem alimentos ou receitas que funcionem como ‘aversor’ ao álcool ou como bloqueador dos seus efeitos psicoativos”. O psiquiatra sublinha ainda que “não há qualquer evidência científica que corrobore” a alegação partilhada neste vídeo.
Os ingredientes desta receita são muitas vezes partilhados nas redes sociais, promovendo diversos benefícios. A curcuma, por exemplo, é referida em preparados para aliviar ansiedade e depressão, reduzir rugas e manchas da pele ou perder peso, mas sem evidência científica robusta que o comprove.
Também a canela tem sido associada a preparados que, alegadamente, ajudam a perder peso, reduzem o colesterol ou tratam infeções urinárias. No entanto, “não existem dados científicos que liguem diretamente [esta especiaria] à redução da vontade de fumar”, afirma Sofia Ravara, coordenadora da Comissão de Trabalho de Tabagismo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP).
A pneumologista reconhece que “existe uma crença popular de que beber leite pode piorar o sabor do cigarro” ou “ajudar a ‘limpar’ o organismo, retirando a nicotina mais rapidamente” do corpo, mas adianta que estes efeitos “nunca foram comprovados cientificamente”.
O consumo de tabaco está associado a doenças respiratórias, cardiovasculares e do cérebro, assim como doenças oncológicas, diabetes e diminuição de fertilidade. Por outro lado, a ingestão excessiva de álcool aumenta o risco de intoxicação, de cancro, de diabetes, provocando também distúrbios do sono, problemas sexuais, doença do fígado e enfraquecimento do sistema imunológico.
O Relatório Anual 2023 – A situação do País em Matéria de Álcool, publicado pelo Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), revela que 62% da população portuguesa entre os 15 e os 74 anos consumiu bebidas alcoólicas nos últimos 12 meses e 55% nos últimos 30 dias. Entre os consumidores atuais, 37% apresenta um consumo diário ou quase diário.
O vinho (30%) é a bebida alcoólica preferida pelos portugueses que consomem bebidas alcoólicas diariamente ou quase diariamente, seguido pela cerveja (12%) e pelas bebidas espirituosas (2%). Em média, os portugueses bebem cerca de 12 litros de álcool por ano.
Em 2021, morreram em Portugal 2526 pessoas devido a doenças atribuíveis ao álcool – o valor mais alto dos últimos dez anos, a par com o registado em 2020 (2.544 mortes). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), estima-se que, em 2019, tenham morrido 2,6 milhões de pessoas devido ao consumo de álcool.
No que toca ao tabagismo, 21% da população portuguesa com 15 ou mais anos é fumadora, segundo dados do Pordata referentes a 2023. A Sociedade Portuguesa de Pneumologista revela que, em 2019, morreram 13.559 portugueses devido ao tabagismo. A OMS estima que, mundialmente, morrem mais de sete milhões de pessoas por ano devido ao consumo e exposição ao tabaco.
Quer deixar de fumar? Qual o tratamento adequado?
Se procura deixar de fumar, saiba que beber leite com curcuma e canela não vai ajudar nesse objetivo. O processo de desabituação à nicotina é complexo e demorado, podendo estar associado a sintomas de privação.
Sofia Ravara explica que, quando o indivíduo deixa de fumar ou vapear, “os níveis de nicotina diminuem rapidamente no sangue e no cérebro”, o que aciona “uma resposta de ‘alarme’ causada pela privação nicotínica”.
A privação de nicotina pode causar “sofrimento psicológico e físico”, tal como “nervosismo, agitação, impaciência, dificuldade em concentrar-se e focar-se numa tarefa, zanga, angústia, tristeza, fome, tremores”. Ao mesmo tempo, o indivíduo sente um “desejo intenso” de voltar a fumar, o que pode causar um círculo vicioso.
O tratamento da dependência nicotínica é o primeiro passo do processo de cessação tabágica. A pneumologista explica que existem dois tipos de medicação: os substitutos de nicotina, que “libertam nicotina para o cérebro e tratam a privação”; e os medicamentos não nicotínicos, que “atuam nos recetores nicotínicos cerebrais, diminuindo o desejo de fumar/vapear e inibindo a recompensa”.
A alimentação também faz parte do processo de cessação tabágica: “A mudança para uma dieta saudável deve ser vista como um complemento importante ao tratamento principal da cessação tabágica”, afirma Sofia Ravara. A especialista aconselha os pacientes a beberem “bastante água”, seguirem “alimentação variada e completa” e evitarem alimentos, bebidas ou rituais que possam servir de gatilho para fumar.
Sofia Ravara lembra que a “motivação é muito importante para deixar de fumar”. Por isso, aconselha os pacientes a manterem em mente os “motivos pelos quais é importante deixar de fumar”, assim como os “benefícios que pode ter” quando alcançar esse objetivo – tanto na saúde individual, como na saúde familiar.
E para combater a dependência de álcool?
O álcool é também uma substância que causa dependência no indivíduo. João Marques explica que a dependência psicológica é a primeira a manifestar-se e está associada ao “prazer” que o consumo de álcool proporciona.
“Ao consumirmos a substância etanol [termo químico para álcool], estamos a ativar uma zona cerebral que está ligada ao reforço positivo através da libertação de dopamina”, esclarece o psiquiatra, lembrando que a dopamina “é identificada pelo nosso cérebro como algo bom, algo que é prazeroso”.
A busca por esta sensação de prazer pode levar o indivíduo a consumir bebidas alcoólicas em maiores quantidades e mais frequentemente, aumentando o risco de desenvolver síndrome de dependência de álcool. Nesta fase, o corpo ressente-se perante uma diminuição do consumo de álcool, exibindo sintomas de privação, tais como “tremor, sudação, hipertensão arterial, coração a bater mais rápido” e, em casos graves, pode também “levar à morte”.
“O álcool é a única privação, dentro das substâncias, que pode matar”, alerta o psiquiatra, acrescentando que “deixar de beber sozinho é sempre um risco, principalmente quando temos quadros de dependência alcoólica”.
O processo de tratamento começa pela “desintoxicação” de etanol do organismo, que deverá ser realizada “em regime hospitalar ou de internamento”, afirma João Marques. Numa segunda fase, psicólogos e psiquiatras ajudam o paciente “a gerir a relação com o álcool” no dia a dia, evitando que volte a consumir bebidas alcoólicas.
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