Beber café faz bem ao fígado e reduz o risco de problemas hepáticos? O que se sabe até agora
Em vários vídeos partilhados no TikTok, sugere-se que beber café todos os dias, em doses seguras, faz bem ao fígado e reduz o risco de problemas hepáticos. Numa das publicações, alega-se que os “estudos mostraram que tomar café diariamente pode reduzir o risco de inflamação, cirrose, cancro do fígado e doença hepática gordurosa avançada”. Isto porque “o café possui substâncias antioxidantes que melhoram a inflamação e protegem as células do fígado”. Será mesmo assim?
Confirma-se que o café faz bem ao fígado e reduz o risco de problemas hepáticos?
De modo geral, “o consumo moderado de café não prejudica a saúde do fígado e pode ajudar a proteger contra certas doenças hepáticas”, começa por adiantar John Jones, líder do grupo de investigação em Controlo Metabólico do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra (CNC-UC)
O investigador explica que “o consumo de café parece proteger contra a doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica (MASLD, na sigla inglesa), atualmente, uma das doenças hepáticas mais comuns, com uma prevalência superior a 30% na população adulta da maioria dos países desenvolvidos em todo o mundo”.
No mesmo sentido, as diretrizes atuais do Colégio Americano de Gastroenterologia (ACG) sobre desnutrição e recomendações nutricionais nas doenças hepáticas referem que os dados específicos sobre os efeitos positivos do café na saúde do fígado “são especialmente convincentes”.
“Estudos individuais e meta-análises de dados de diversos grupos de doentes mostram uma diminuição da esteatose hepática com o consumo de café”, lê-se nas diretrizes.
Além disso, vários dados mostram que o consumo de café está associado à redução da progressão da fibrose hepática. “Os riscos de cirrose e CHC [carcinoma hepatocelular] também parecem ser menores nos consumidores de café, com base em grandes estudos epidemiológicos”, sublinha-se.
No entanto, o café “provavelmente não será eficaz no caso de doenças hepáticas mais graves, como a cirrose, em que a fibrose já está bem estabelecida”, salienta John Jones.
O consumo desta bebida “pode ser benéfico na fase inicial da MASLD, mas apenas como complemento a outras intervenções relacionadas com o estilo de vida, tais como a perda de peso e a redução do consumo de açúcar”, acrescenta.
Os benefícios do café parecem vir, sobretudo, da cafeína, que “inibe a produção de colagénio pelas células estreladas — a origem da fibrose hepática — ao bloquear o recetor A2A de adenosina”.
Além disso, “em modelos pré-clínicos, alguns dos compostos polifenólicos presentes no café inibem o stress oxidativo e a inflamação hepática”, aponta o investigador.
Importa ainda referir que os potenciais benefícios só se verificam se houver um consumo moderado de café, dentro das recomendações.
A dose adequada “depende, em certa medida, da forma como o café é preparado (expresso, café de filtro, café instantâneo liofilizado, etc)”.
Num estudo português, do qual John Jones é coautor, foram constatados “níveis significativamente mais elevados de cafeína e metabolitos da cafeína na urina de pessoas que bebiam pelo menos 2 a 3 chávenas por dia (expresso, como é habitual em Portugal) em comparação com aquelas que nunca bebiam café”.
De modo geral, “considera-se segura uma ingestão de até 400 mg de cafeína por dia, o que corresponde a 4 a 6 doses de café expresso ou a cerca de 4 chávenas (225 ml) de café de filtro” (ver também aqui).