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Bactéria é a causa de 98% dos casos de excesso de peso no mundo?

12 Jul 2024 - 09:52
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Bactéria é a causa de 98% dos casos de excesso de peso no mundo?

No TikTok alega-se que “a causa de 98% dos casos de sobrepeso ao redor do mundo” é uma “bactéria gordurosa que está dentro do intestino de milhões de pessoas”. O autor do vídeo vai mais longe e defende que o ganho de peso e de gordura não está relacionado com a alimentação nem com a inatividade física. Mas confirma-se que o excesso de peso e a acumulação de gordura corporal ocorre devido à presença de uma “bactéria gordurosa” no intestino?

A maioria dos casos de excesso de peso deve-se a uma “bactéria gordurosa”?

Em esclarecimentos ao Viral, Francisco Sousa Santos, endocrinologista e autor da página Hormonas em Bom Português, adianta que não existe evidência científica que indique que existe “uma bactéria gordurosa” no intestino que seja responsável pelo excesso de peso ou pelo ganho de gordura corporal.

Segundo o médico, o que tem sido estudado nos últimos anos é a relação entre a microbiota intestinal e o peso

Francisco Sousa Santos começa por explicar que cada pessoa tem uma microbiota (ou flora) intestinal, ou seja, um “um conjunto de milhões de microorganismos que vivem no intestino”.

A investigação tem mostrado que “uma microbiota mais saudável, ou menos saudável, vai potencialmente afetar o peso de várias formas” (ver aqui, aqui, aqui e aqui).

Por um lado, a microbiota intestinal “pode afetar a quantidade de energia que é absorvida dos alimentos para o nosso organismo”, assinala o endocrinologista.

Tal como se esclarece num artigo de revisão recente, os microrganismos “que compõem o microbiota intestinal exercem efeitos diretos na digestão, absorção e metabolismo dos alimentos”. 

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Além disso, a microbiota intestinal “exerce uma variedade de efeitos protetores, estruturais e metabólicos tanto no meio intestinal como nos tecidos periféricos, afetando assim o peso corporal através da modulação do metabolismo, do apetite, do metabolismo dos ácidos biliares e dos sistemas hormonal e imunitário”, acrescenta-se.

Em termos práticos, clarifica Francisco Sousa Santos, “uma flora intestinal menos saudável também pode aumentar o apetite” e promover “um maior estado inflamatório do organismo de forma sistémica”.

Isto acontece porque “os microorganismos que temos no nosso intestino”, nestas condições, “passam a produzir umas substâncias tóxicas durante o seu próprio metabolismo”.

Quando estas substâncias “passam para a corrente sanguínea, ou seja, quando passam a barreira intestinal, aumentam a inflamação de uma forma sistémica”, que “está associada a várias doenças crónicas, inclusive a doença cardiovascular”, explica.

Assim, ao que tudo indica, a microbiota intestinal pode não só impactar a gestão do peso, mas também o desenvolvimento de certas doenças.

O que faz uma microbiota saudável ou não saudável? A prática de exercício físico parece ter algum peso, mas “o principal fator é a nossa alimentação”, destaca Francisco Sousa Santos.

Como qualquer célula, “para o nosso microbioma sobreviver precisa de receber nutrientes” que “vêm da comida”.

Por isso, prossegue, “o tipo de comida que ingerimos vai definir um pouco a proliferação dos microorganismos da flora intestinal”, ou seja, vai determinar “os que crescem mais, os que crescem menos, quais dominam e quais começam a desaparecer”.

Por exemplo, “estilos de alimentação menos saudáveis – ou seja, com comidas processadas, muitas gorduras saturadas e ricas em sal – levam a algum desequilíbrio da microbiota intestinal e até a uma menor diversidade de microorganismos”.

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Pelo contrário, refere-se noutra revisão, “as dietas de baixo teor energético, a ingestão elevada de fibras e o exercício físico são cruciais para melhorar a microbiota intestinal dos pacientes com obesidade”, por exemplo.

Ainda assim, Francisco Sousa Santos considera importante realçar que o papel da microbiota intestinal na gestão do peso “é só uma parte da equação”, porque “há muitas outras causas e fatores que contribuem” para o excesso de peso e para o ganho de gordura, nomeadamente “fatores genéticos, sociais, comportamentais e de estilo de vida (como o exercício físico e o padrão alimentar)”.

Além disso, alguns medicamentos e, por vezes, até há algumas doenças “podem ter alguma influência no aumento de peso”, inclusive “doenças endócrinas”, exemplifica.

Em suma, não existe uma só bactéria que seja responsável pelo ganho de peso, muito menos por 98% dos casos de excesso de peso no mundo. A microbiota intestinal, composta por milhões de bactérias, é apenas um de vários fatores – como a alimentação e o nível de atividade física – que têm influência na gestão do peso.

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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.

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Alimentação

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12 Jul 2024 - 09:52

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