Azeite, beterraba e chocolate amargo: “Limpam as artérias” e “ajudam a prevenir enfartes”?
Num vídeo partilhado no TikTok alega-se que o azeite, a beterraba e o chocolate amargo “limpam as artérias” e “ajudam a prevenir enfartes”. Segundo o autor da publicação, o azeite “ajuda o coração e melhora os níveis de colesterol” e a beterraba “é rica em nitratos, que melhoram o fluxo sanguíneo e até ajudam na pressão arterial”.
No mesmo vídeo sublinha-se que o chocolate amargo tem flavonoides, “substâncias anti-inflamatórias e antioxidantes”, que ajudam a melhorar “a função dos vasos e a pressão arterial”. Mas será que estes alimentos, por si só, “limpam” as artérias e previnem enfartes?
É verdade que o azeite, a beterraba e o chocolate amargo “limpam as artérias”?
Em declarações ao Viral, Ana Margarida Pinto, nutricionista e investigadora no Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa (CCUL) onde lidera a Unidade de Nutrição e Saúde Cardiovascular, adianta que “a evidência científica não suporta a ideia de que qualquer alimento, por si só, ‘limpe’ as artérias”.
Apesar de esta expressão ser “frequentemente utilizada nas redes sociais”, não corresponde “ao que sabemos sobre a aterosclerose, que é um processo complexo e crónico caracterizado pela acumulação de gordura nas paredes das artérias”, explica a investigadora.
Não existe “nenhum alimento com capacidade de eliminar ou ‘desobstruir’ placas ateroscleróticas já formadas”, sublinha.
O que a evidência demonstra é que “determinados alimentos, quando integrados num padrão alimentar saudável, podem contribuir para reduzir fatores de risco cardiovascular, melhorar a função dos vasos sanguíneos e retardar a progressão da aterosclerose”, explica Ana Margarida Pinto (ver também aqui, aqui e aqui).
Em alguns contextos, “nomeadamente com intervenções alimentares intensivas e sustentadas, foi também observada uma regressão modesta do volume de placa aterosclerótica”.
Assim, mais do que “limpar” as artérias, “a alimentação pode desempenhar um papel importante na desaceleração da doença, na estabilização das placas ateroscleróticas e na redução do risco de eventos cardiovasculares”.
Embora os resultados dos estudos dependam do contexto clínico e da adesão ao padrão alimentar, “a direção da evidência é consistente: aquilo que comemos tem um impacto mensurável na saúde das nossas artérias e na saúde cardiovascular a longo prazo”, salienta a professora da FMUL.
Os alimentos mencionados “ajudam a prevenir enfartes”?
Tal como nenhum alimento tem a capacidade de “limpar” as artérias, também não existem alimentos que, por si só, previnem enfartes. No entanto, refere Ana Margarida Pinto, “quando fazem parte de um padrão alimentar saudável e equilibrado, podem contribuir para reduzir o risco cardiovascular”.
O azeite virgem extra “é o alimento para o qual existe evidência mais robusta, sobretudo no contexto da dieta mediterrânica, estando associado à melhoria do perfil lipídico, à redução da inflamação e a um menor risco de eventos cardiovasculares”.
Mais, o azeite é o símbolo da dieta mediterrânica. “É composto maioritariamente por ácidos gordos monoinsaturados” e o seu consumo, “em quantidade moderada, tem vindo a ser associado a um aumento da capacidade antioxidante, proveniente de componentes como a vitamina E, carotenoides e compostos fenólicos e, consequente à diminuição do risco cardiovascular”, lê-se num texto do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS).
A beterraba “destaca-se pelo seu teor em nitratos, que podem melhorar temporariamente a função vascular e contribuir para pequenas reduções da pressão arterial”, refere Ana Margarida Pinto (ver também aqui).
O chocolate amargo, sobretudo “quando apresenta elevado teor de cacau (superior a 70%), contém flavonoides com propriedades antioxidantes”, adianta a nutricionista.
Alguns estudos sugerem “pequenos benefícios na função endotelial e na pressão arterial, mas os resultados são menos consistentes e não justificam recomendar o seu consumo com o objetivo específico de prevenir doença cardiovascular”.
Além disso, “muitos chocolates disponíveis no mercado contêm quantidades significativas de açúcar e gordura, o que também deve ser considerado”, defende.
Apesar disso, lembra a investigadora, “a evidência científica mostra de forma consistente que o efeito depende sobretudo do padrão alimentar global e não de alimentos isolados”.
Na perspetiva de Ana Margarida Pinto, “focar a atenção num único alimento pode criar expectativas irrealistas e desvalorizar aquilo que realmente faz diferença para a saúde cardiovascular: a qualidade global da alimentação e a sua manutenção ao longo da vida”.
Qual o impacto da alimentação na prevenção de doença cardiovascular?
Para a nutricionista, “a alimentação é um dos pilares fundamentais da prevenção cardiovascular e desempenha igualmente um papel importante no tratamento e prevenção secundária de pessoas com doença cardiovascular estabelecida”.
Uma alimentação saudável “contribui para melhorar o perfil lipídico, controlar a pressão arterial, reduzir a inflamação, melhorar o controlo glicémico e ajudar na gestão do peso corporal”.
Estes efeitos “traduzem-se numa redução do risco de enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral e outras doenças cardiovasculares”, explica Ana Margarida Pinto.
Contudo, é importante referir que “a alimentação integra uma abordagem mais abrangente de estilo de vida, que inclui também atividade física regular, sono adequado, cessação tabágica e, quando necessário, terapêutica farmacológica”, sublinha (ver aqui, aqui e aqui).
A evidência apoia, sobretudo, “padrões alimentares como a dieta mediterrânica, caracterizadas por um elevado consumo de hortícolas, fruta, leguminosas, cereais integrais, azeite virgem extra, frutos oleaginosos e peixe, bem como um baixo consumo de alimentos ultraprocessados, carnes processadas, bebidas açucaradas e produtos ricos em sal e gorduras saturadas”.
Assim, em vez de procurar alimentos com alegados efeitos “milagrosos”, a melhor estratégia “para proteger a saúde cardiovascular passa por adotar, de forma consistente, um padrão alimentar saudável, variado e sustentável, integrado num estilo de vida globalmente saudável”, defende a investigadora.
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