A “grande causa” do autismo é a ingestão de alimentos transgénicos?
A alegação está a ser partilhada num vídeo no TikTok: “A grande causa do autismo hoje é os alimentos transgénicos”, afirma o interlocutor, que se apresenta como especialista em perturbação do espetro do autismo.
“Se pegar num paciente autista e cortar no açúcar e no pão, eu garanto (…) que metade do problema é resolvido”, afirma, acrescentando que a ingestão de trigo geneticamente modificado pelas mães gerou “esse grande problema do autismo”.
O autor do vídeo acredita ainda que “metade dos autistas não é autista” e que os diagnósticos resultam de “erros de profissionais”.
Mas será verdade que comer alimentos geneticamente modificados causa autismo nas crianças? O trigo e o açúcar são causadores desta perturbação?
Comer trigo geneticamente modificado e açúcar causa autismo?
Nenhum alimento ou dieta causa autismo. A alegação de que o número de diagnósticos de perturbação do espetro do autismo aumentou devido à ingestão de trigo geneticamente modificado e de açúcar é falsa.
O psiquiatra Carlos Nunes Filipe, diretor clínico da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo de Lisboa e professor catedrático na NOVA Medical School, garante que “não há qualquer relação entre dieta e autismo, seja qual for a dieta”.
“A origem do autismo é genética, é uma situação com a qual se nasce”, prossegue o especialista, acrescentando que “são raríssimas as situações de autismo adquirido”.
Embora as causas específicas da perturbação do espetro do autismo não sejam totalmente conhecidas, sabe-se que esta condição está frequentemente ligada a fatores genéticos, mas pode também ocorrer na sequência de infeções pré-natais (como infeções virais, rubéola ou citomegalovírus) ou nascimentos prematuros.
Também Patrícia Monteiro, professora e investigadora neurociências (com especialidade em autismo) na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, afirma que a alimentação não causa autismo. “Não há qualquer evidência científica que ligue casos de autismo à ingestão de trigo, glúten ou açúcar”, reforça.
A investigadora considera que a referência ao trigo geneticamente modificado é usada pelo autor da publicação para “chocar a população” e recorda que, durante a digestão, o ADN dos alimentos não é absorvido pelo organismo.
De facto, crianças no espetro do autismo podem apresentar mais sintomas gastrointestinais do que as crianças com desenvolvimento típico. Esta relação foi identificada num estudo, publicado em 2015.
“A comparação dos relatos dos pais sugere que as crianças com perturbação do espetro do autismo ou atraso no desenvolvimento têm uma probabilidade muito maior de ter obstipação frequente, diarreia e dificuldade em engolir do que as crianças com desenvolvimento típico”, escrevem os investigadores.
Perante tais situações, algumas crianças com autismo podem “beneficiar de uma alteração alimentar para reduzir os sintomas”, explica Patrícia Monteiro. Contudo, a investigadora consultada pelo Viral repete que a alimentação não causa a perturbação.
Carlos Nunes Filipe refuta as alegações de que o diagnóstico é mal feito e que existem, atualmente, muito mais crianças com perturbação do espetro do autismo. O psiquiatra lembra que, nas últimas décadas, os critérios de diagnóstico evoluíram e que existe também “maior atenção por parte dos médicos e psiquiatras”.
“Parece existir um pequeno aumento nos casos de autismo, mas está relacionado com o maior acesso à saúde e a meios de diagnóstico”, esclarece.
Na Epidemiologia do Autismo em Portugal, publicada em 2005, analisam-se os dados sobre as perturbações do espetro do autismo nas últimas décadas e identifica, de facto, um aumento na prevalência.
Guiomar Oliveira, autora do documento, ressalva que “é discutível se este aumento decorre de diferenças metodológicas entre os estudos e representa uma melhor acuidade para o diagnóstico ou se corresponde verdadeiramente ao surgimento de mais novos casos”.
Também a Federação Portuguesa de Autismo (FPA) refere a existência de um aumento do número de casos diagnosticados nos últimos 30 anos, ressalvando que “este crescimento pode, em parte, ser resultado de uma maior consciencialização relativamente ao autismo, das mudanças nos critérios de diagnóstico do autismo e do facto de as crianças serem diagnosticadas cada vez mais cedo”.
A Organização Mundial de Saúde admite que uma em cada 100 crianças pode estar no espetro do autismo. Em Portugal, segundo o estudo de Guiomar Oliveira, a prevalência estimada é de cerca de uma em cada mil crianças em idade escolar (dados de 2005).
O autismo é “uma condição neurológica de desenvolvimento, presente desde a infância e de caráter permanente, decorrente de alterações no desenvolvimento e na maturação do sistema nervoso central”, define a FPA.
É uma “condição de espetro”, o que significa que a expressão clínica desta perturbação é diferente de pessoa para pessoa, podendo também variar ao longo da vida.
Em suma, é falso que a ingestão de alimentos modificados – como o trigo – cause autismo nas crianças. A perturbação do espetro do autismo está frequentemente associada a fatores genéticos, podendo também ocorrer na sequência de infeções pré-natais ou nascimentos prematuros.
Categorias: