VITAL
Atividade sexual diminui o risco de ter cancro da próstata? O que diz a ciência
Num vídeo com milhares de visualizações no TikTok, diz-se que a atividade sexual frequente pode ser um fator protetor do cancro da próstata. Será verdade?
A próstata é uma glândula que se situa na pélvis, na zona abaixo da bexiga, atrás da base do pénis e, em conjunto com as vesículas seminais, é o órgão responsável por produzir o sémen. O cancro nesse local desenvolve-se lentamente e de forma assintomática. “Detetá-lo numa fase precoce é essencial, pois permite tratar com uma taxa de cura muito elevada”, lê-se no site da Liga Portuguesa Contra o Cancro.
O cancro da próstata é o mais incidente entre os homens portugueses — em 2022, estima-se que tenham surgido 7529 novos casos — e é a terceira causa de morte oncológica em Portugal.
Mais atividade sexual é equivalente a menor risco de cancro da próstata?
Vários estudos observacionais indicam que maior atividade sexual pode equivaler a menor risco de cancro da próstata, mas é “necessário algum ceticismo na interpretação dos números exatos”, alerta Diogo Alpuim Costa, oncologista nos Hospitais CUF de Sintra e Cascais, num parecer enviado ao Viral e ao Polígrafo.
Um estudo de Harvard publicado em 2004 concluiu que homens que ejaculavam 21 ou mais vezes por mês tinham menos 31% de risco de desenvolver cancro da próstata do que aqueles que o fizessem apenas quatro a sete vezes por mês. E “a redução [de risco] parece ser independente de a ejaculação ocorrer durante relações sexuais ou masturbação”, esclarece Diogo Alpuim Costa.
Foram analisados cerca de 30 mil homens, todos profissionais de saúde norte-americanos. Em 1992, relataram a frequência média mensal de ejaculação em três momentos da vida (entre os 20 e os 29 anos, entre 40 e os 49 anos e no ano anterior). Foram acompanhados durante oito anos até o estudo terminar.
Em 2016, foi publicada a extensão desse estudo, os mesmos homens foram acompanhados durante mais uma década, até 2010. Os resultados mantiveram-se: os homens que ejaculavam 21 ou mais vezes por mês tinham menos cancro da próstata — os resultados mais claros eram relativos a cancros de baixo risco, para cancros mais agressivos os dados eram menos significativos.
“A explicação biológica ainda não é totalmente compreendida”, mas “a principal hipótese para esse efeito protetor é que a ejaculação regular ajuda a limpar toxinas e estruturas cristalinas da próstata, que poderiam contribuir para o desenvolvimento de tumores”, diz o oncologista.
Além disso, explica “a atividade sexual poderá modular o sistema imunitário e promover o funcionamento saudável da glândula”.
Apesar de haver alguns estudos sobre a matéria, “são observacionais e não provam uma relação de causa direta”, apenas uma associação.
“A prevenção do cancro da próstata envolve também fatores como dieta equilibrada, prática de exercício físico, não fumar, moderação no consumo de álcool e exames médicos regulares” e, por isso, “manter outros hábitos saudáveis continua a ser essencial para a prevenção global”, sublinha Diogo Alpuim Costa.
Quais são os principais fatores de risco e sintomas do cancro da próstata?
A idade é um dos fatores de risco do cancro da próstata: mais de 70% dos casos são homens com mais de 65 anos. Também a genética pode ter um papel importante em alguns casos: é comum, quando um homem é diagnosticado com cancro da próstata antes dos 60 anos, que os seus descendentes tenham a mesma doença, diz a Liga Portuguesa Contra o Cancro.
E, como em grande parte dos cancros, os fatores ambientais são relevantes. “A contaminação atmosférica, a poluição e a exposição a algumas substâncias químicas e fertilizantes, por exemplo”, podem fazer aumentar o risco de cancro da próstata.
O diagnóstico precoce é fundamental para a eficácia dos tratamentos e taxa de sobrevivência. Por isso, é importante fazer exames rotineiros a partir dos 45 ou 50 anos: o toque retal e/ou uma análise sanguínea ao Antigénio Específico da Próstata (PSA, na sigla inglesa). Uma alteração detetada nesses exames pode levantar a necessidade de fazer uma biópsia para perceber se a alteração foi desencadeada por um tumor maligno.
Os sintomas de cancro da próstata podem ser significado de um estado mais avançado da doença, já que geralmente evolui muito lentamente.
Numa primeira fase, o doente pode ter incapacidade em urinar ou urinar em pequenas quantidades, urinar mais frequentemente, especialmente durante a noite, sentir dor pélvica ou ter incontinência urinária e urinar sangue.
Outros sintomas, menos frequentes, são sentir uma dor frequente na parte de baixo das costas, quadris e nos músculos, sentir dor ao ejacular ou notar que há sangue no sémen.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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