Asma pode piorar no inverno?
A asma é uma doença inflamatória crónica que dificulta a respiração. Há doentes que têm sintomas mais graves e frequentes do que outros e o número de crises também varia de pessoa para pessoa. Nas redes sociais, sugere-se, no entanto, que a chegada do frio é um desencadeante comum de crises de asma. Será mesmo assim? A asma pode piorar no inverno?
É verdade que a asma pode piorar no inverno?
Em declarações ao Viral, Jorge Ferreira, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), começa por confirmar que, de facto, a asma pode piorar no inverno, pois esta “é uma estação que pode trazer alguns desafios para os doentes asmáticos” (ver também aqui e aqui).
Existem vários motivos que justificam um agravamento dos sintomas. O pneumologista destaca quatro: o ar frio e seco, as infeções respiratórias, o tempo que se passa em espaços fechados e a exposição a aparelhos de ar condicionado e a lareiras.
Ar frio e seco
Segundo Jorge Ferreira, “a temperatura e as condições atmosféricas típicas do inverno”, ou seja, “o ar frio e seco”, são “particularmente agressivas” para doentes asmáticos e induzem “com muito maior facilidade sintomas de asma”.
Num texto da Associação Americana do Pulmão explica-se que “as vias respiratórias de todas as pessoas estão protegidas por uma camada de fluido que, quando se respira ar seco”, evapora demasiado rápido.
“Esta secura pode provocar a irritação e o inchaço das vias respiratórias, um problema grave para as pessoas com asma”, acrescenta-se.
Além disso, o frio “faz com que o corpo produza mais muco, que também é mais espesso e pegajoso do que o normal, impedindo ainda mais a respiração”, refere-se.
Os doentes asmáticos que, por si só, “já têm as vias respiratórias inflamadas e uma produção excessiva de muco, passam por um período particularmente difícil”, lê-se no mesmo texto.
Infeções respiratórias
Tal como explica Jorge Ferreira, “nos meses do outono e do inverno há também uma maior predisposição para o desenvolvimento de infeções respiratórias”.
Isto é relevante porque “as infeções são, de facto, um fator-chave para o descontrole ou a falta de controle” da asma.
Segundo um texto dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla inglesa), “infeções respiratórias, como a gripe (influenza)”, a Covid-19 e “o vírus sincicial respiratório, podem ser mais graves para as pessoas com asma porque podem provocar pneumonia e ataques de asma”.
Passamos mais tempo em espaços fechados
No inverno, devido às condições meteorológicas, passa-se muito mais tempo dentro de espaços fechados. “Isto faz com que estejamos mais tempo em contato próximo uns com os outros, em espaços mais fechados”, adianta o pneumologista.
A permanência em espaços fechados com muitas pessoas em conjunto com as infeções respiratórias típicas do inverno fazem “com que seja muito mais fácil qualquer asmático contrair uma infeção”, explica.
Aparelhos de ar condicionado e lareiras
A utilização de aparelhos – como “aquecedores, sistemas de ar condicionado e lareiras – numa tentativa de melhorar a temperatura ambiente, também pode incluir um risco em termos respiratórios e um risco de descontrole da asma”, avança Jorge Ferreira.
Os aquecedores ventiladores, sobretudo, “podem propagar partículas de pó e até de fungos”, o que, “em pessoas sensíveis, podem levar ao desenvolvimento de crises de asma”, prossegue.
Por outro lado, no caso das lareiras, “o próprio processo de aquecimento que utiliza a lenha vai libertar também partículas poluentes agressivas em termos respiratórios”. Por esse motivo, um doente asmático exposto a uma lareira aberta pode ter uma crise.
Que cuidados devem ter os doentes asmáticos no inverno?
Em primeiro lugar, é muito importante utilizar roupa suficiente e adequada para os dias de frio e chuva. “Em determinados contextos pode ser até recomendada a utilização de cachecóis ou máscaras”, refere o presidente da SPP.
Isto porque, explica-se num texto do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa), ter um cachecol perto da boca e do nariz “ajudará a aquecer o ar antes de respirar”.
Para prevenir infeções respiratórias, é essencial “tomar a vacina da gripe, de acordo com as recomendações atuais”, alerta Jorge Ferreira.
Segundo o texto dos CDC, são igualmente importantes medidas de higiene básicas, como lavar e desinfetar as mãos com frequência, manter as mãos “afastadas do rosto”, evitar “o contacto próximo com pessoas doentes” e “limpar e desinfetar superfícies e objetos”
No que diz respeito à utilização de aquecedores e aparelhos de ar condicionado, deve-se certificar de que estão “devidamente limpos” e com a manutenção adequada, para “termos uma certa garantia de que não vamos utilizá-los como veículos difusores de alergénios”, defende o pneumologista.
Se a pessoa preferir “sistemas de aquecimento mais tradicionais, como as lareiras”, é sempre melhor optar “por sistemas fechados com aquecimento, mas sem a disseminação das partículas de combustão da madeira”.
Quando se aquece a casa ou outro espaço fechado, é fundamental não subir demasiado a temperatura e evitar o excesso e a falta de humidade.
Jorge Ferreira sublinha ainda que é muito importante que o doente asmático esteja “devidamente instruído pelo seu médico” sobre como prevenir quadros agudos e como atuar em caso de crise.
Se a pessoa sentir que está a “perder o controlo da doença, deve procurar cuidados médicos”, porque pode “ter uma infeção respiratória mais grave” que está a ser confundida “com uma agudização da asma”, aconselha.