Aromas artificiais matam os probióticos dos iogurtes?
Num vídeo partilhado nas redes sociais, afirma-se que os iogurtes processados são prejudiciais à saúde. Em causa está a adição de aromas artificiais que, alegadamente, “matam” os probióticos.
“Sempre que vir um iogurte que diga sabor a fruta artificial é uma forma de dizer que não tem fruta”, afirma o interlocutor, acrescentando que “estes aromatizantes são antibacterianos” e, por isso, “matam todas as bactérias” naturalmente existentes no iogurte. Mas será mesmo assim?
Os aromatizantes matam os probióticos dos iogurtes?
Em primeiro lugar, importa explicar que os probióticos são microrganismos com propriedades benéficas para a saúde, uma vez que ajudam a repor o equilíbrio natural na microbiota intestinal. Estão naturalmente presentes em alimentos fermentados, como o iogurte, mas podem também ser tomados em forma de suplementos.
A nutricionista Filipa Vicente, professora do Instituto Egas Moniz, explica ao Viral que existem “muitos fatores que podem afetar a viabilidade do efeito probiótico” dos iogurtes, entre eles a adição de ingredientes que “alterem o pH do alimento”. Contudo, isso não significa que todos os ingredientes aromatizantes matem os probióticos.
“Os probióticos são bactérias naturalmente presentes em alimentos fermentados”, explica a nutricionista, acrescentando que “estes microrganismos parecem contribuir para uma flora intestinal saudável e equilibrada”, o que está associado “a bons indicadores de saúde e potencial prevenção de doenças crónicas não transmissíveis”.
Por serem microrganismos, os probióticos são sensíveis ao ambiente em que se encontram. Segundo uma revisão sobre os fatores de viabilidade dos probióticos nos iogurtes, publicada em 2020, o pH ideal para o crescimento das espécies probióticas Bifidobacterium e Lactobacillus varia entre os 6,00-7,00 e 5,50-6,09, respetivamente.
Também a temperatura ou a presença de oxigénio durante a fermentação e conservação do iogurte podem comprometer a viabilidade dos probióticos.
No que toca ao sabor, os investigadores esclarecem que a junção de alguns sumos ou polpas de frutas ao iogurte “pode ter um efeito adverso na sobrevivência de algumas bactérias probióticas”, principalmente devido “à elevada acidez ou a existência de componentes antimicrobianos”.
Por outro lado, sublinham, a utilização de ingredientes para dar sabor ao iogurte (nomeadamente, sabor a morango, pêssego, banana e baunilha) “não influencia negativamente a sobrevivência dos probióticos”, afirmam os investigadores.
Ingredientes como açúcar, vitaminas e minerais, proteína, antioxidantes, cereais, frutas, vegetais, entre outros, têm um impacto positivo no crescimento dos probióticos, pois fornecem “fatores nutritivos essenciais e condições adequadas” para as bactérias.
Filipa Vicente lembra que “os iogurtes não são todos iguais” e que, atualmente, existe “muita variedade de iogurte e produtos similares a iogurte no mercado”. Refere ainda que existe uma grande variedade de aditivos adoçantes para proporcionar o sabor aos iogurtes – tais como os aromatizantes ou os edulcorantes (nutritivos ou não nutritivos).
Um aditivo referido no vídeo é o xarope de milho rico em frutose – um edulcorante nutritivo usado em vez do açúcar para adoçar e conservar produtos alimentares. Por ter uma elevada concentração de frutose (açúcar simples), este ingrediente é muitas vezes classificado nas redes sociais como um “superaditivo”, mas tal alegação carece de evidência científica robusta.
Outros edulcorantes não nutritivos – como o aspartame ou a stevia – são utilizados para dar um sabor doce, sem aumentar o valor energético do alimento. Também para estes ingredientes “não existe evidência, à data, que mostre um claro efeito pejorativo na saúde”, afirma Filipa Vicente, ressalvando que alguns estudos identificaram um potencial efeito destes adoçantes na microbiota intestinal.
“Um iogurte sem açúcar adicionado tem vantagens nutricionais face a um iogurte com açúcar adicionado. Mas a questão é: será necessário usar um iogurte aromatizado artificialmente? É um produto de conveniência e mais prático do que misturar iogurte natural com fruta fresca ‘on the go’”, afirma a nutricionista.
Para Filipa Vicente, “quanto menos ingredientes houver na lista, melhor”. No entanto, a nutricionista reconhece que nem todos os consumidores apreciam o gosto natural do iogurte. Se for o caso, poderá mudar o sabor deste alimento adicionando fruta fresca, cereais sem açúcar, canela ou mel (um edulcorante natural).
Além dos probióticos, os iogurtes são ainda “uma fonte de proteína e cálcio”, assim como “vitaminas do complexo B”. “O iogurte tem também a vantagem de ter uma melhor tolerância em indivíduos intolerantes à lactose”, remata a nutricionista.
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