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Apanhar sarampo traz “enormes benefícios para a saúde” e previne o cancro?

18 Abr 2025 - 08:00
falso

Apanhar sarampo traz “enormes benefícios para a saúde” e previne o cancro?

Numa publicação na rede social X (antigo Twitter) sugere-se que contrair sarampo “traz enormes benefícios para a saúde a longo prazo”, como “um menor risco de ter determinados tipos de cancro e uma maior resistência imunitária”.

O autor da publicação difunde esta ideia como um argumento contra a vacinação, sob a premissa de que o medo em torno da doença decorre de um desconhecimento das suas supostas vantagens.

No entanto, será o sarampo realmente benéfico para a saúde? E poderá mesmo prevenir o cancro?

Apanhar sarampo pode prevenir o cancro?

“É verdade que as pessoas não vacinadas que contraem sarampo têm menos risco de desenvolver cancro. Mas só porque têm também uma maior probabilidade de falecer”, ironiza Gustavo Tato Borges, médico especialista em Saúde Pública, em declarações ao Viral.

Além disso, sublinha, “não há qualquer evidência científica de que o sarampo previna qualquer tipo de cancro”. A doença “não está relacionada com o tratamento ou a prevenção de cancros”, aponta.

Quanto à alegação de que contrair sarampo contribui para uma maior resistência imunitária, existem várias imprecisões.

De facto, segundo o especialista consultado pelo Viral, o sarampo, tal como qualquer infecção que o organismo consiga ultrapassar, ativa o sistema imunitário. 

Ou seja, “as pessoas que contraíram sarampo e não faleceram têm uma resistência natural mais forte ao voltarem a ter sarampo, em comparação com quem foi vacinado”, explica. 

Ainda assim, ressalva, isso não significa que contrair sarampo confira uma maior proteção contra outras doenças, como o cancro, ou que seja uma abordagem mais segura do que tomar a vacina.

As afirmações que circulam são, portanto, falsas.

De onde surge o mito?

Segundo Gustavo Tato Borges, este mito surge de uma distorção dos resultados de alguns estudos científicos.

“A ciência tem estudado o vírus do sarampo e, em laboratório, consegue modificá-lo para atacar células cancerígenas”, adianta. “Mas isso nada tem a ver com a infecção natural. O vírus selvagem do sarampo é perigoso, altamente contagioso e pode levar à morte”, esclarece.

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O especialista explica que “isolar vírus que nos infetam com facilidade e adaptá-los a uma determinada necessidade de proteção é uma atividade normal da ciência, é assim que muitas vacinas são criadas”.

Contudo, “nunca se trata do vírus na sua forma selvagem, mais agressiva, virulenta. Trata-se de um vírus atenuado e modificado para a nossa necessidade”.

Neste sentido, Gustavo Tato Borges relembra que estes possíveis benefícios extraídos de uma adaptação do vírus não devem ser lidos como uma vantagem de apanhar o vírus na sua forma selvagem

“O risco de ter consequências graves do sarampo, nomeadamente a morte, é muito superior ao benefício que pode trazer para um sistema imunitário reforçado. As consequências de apanhar o vírus naturalmente, não estando vacinado, podem ser dramáticas e mortais”, acrescenta.

Além disso, o médico alerta para outra questão frequentemente ignorada: “Há evidência de que o vírus selvagem do sarampo pode, na verdade, enfraquecer o sistema imunitário durante algum tempo após a infecção, tornando a pessoa mais suscetível a outras doenças.”

Em suma, ser infetado pelo vírus na sua forma selvagem confere “um reforço, mas não é vantajoso e não elimina os restantes riscos, como a possibilidade de morrer.”

Sobre a disseminação destas afirmações, Gustavo Tato Borges é perentório: “acreditar nisto pode levar a um perigoso retrocesso da saúde pública, enfraquece a confiança nas vacinas e dá a ilusão de que o sarampo é uma doença leve quando, na verdade, é mortal”.

A vacina VASPR (vacina combinada contra o sarampo, parotidite epidémica e rubéola) é gratuita e faz parte do Plano Nacional de Vacinação. O especialista acrescenta que a vacina “é altamente eficaz e segura nas crianças e que é importante “não expor as crianças propositadamente a este vírus, nem diminuir a cobertura vacinal” sob o risco de aumentar a mortalidade infantil. 

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O especialista em Saúde Pública usa como exemplo Lubbock, uma cidade no Texas (Estados Unidos da América), onde este ano já morreram duas crianças não vacinadas, algo que não acontecia há uma década.

Questionado sobre a melhor forma de protecção contra a doença, Gustavo Tato Borges não hesita: “a vacinação”. 

“Felizmente, Portugal tem uma boa adesão ao Plano Nacional de Vacinação. Devemos mantê-la”, sustenta.

Como se explica no site do Serviço Nacional de Saúde, o sarampo é uma infeção provocada por um vírus e caracteriza-se pelo aparecimento de febre, tosse, corrimento nasal e manchas vermelhas na pele. Transmite-se por contacto direto com gotículas e propagação no ar. “Suspeitando-se que alguém tem sarampo, importa minimizar todo e qualquer contacto com a pessoa”, relembra o especialista.

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No combate à desinformação, Gustavo Tato Borges também deixa conselhos. “Confiem em fontes credíveis. A Organização Mundial da Saúde, o Centro Europeu de Controlo de Doenças, a Direção-Geral da Saúde — são estas as entidades que nos dão informação fiável. Não partilhem conteúdos de redes sociais que não tenham base científica ou que não sejam assinados por profissionais de saúde acreditados”, conclui.

Leia mais sobre o sarampo aqui.

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18 Abr 2025 - 08:00

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