Aveia, abacate e probióticos. Comer certos alimentos reduz os níveis de cortisol?
Há uma nova tendência a crescer no TikTok: a promoção de alimentos que, supostamente, reduzem os níveis de cortisol. As sugestões são imensas, mas alguns alimentos repetem-se em vários vídeos: aveia; chá de camomila; alimentos com probióticos e prebióticos; espinafres; peixes ricos em ómega 3; e frutas como o abacate, as cerejas e as amoras. Mas é verdade que comer certos alimentos reduz o cortisol?
Há alimentos que reduzem os níveis de cortisol?
Em declarações ao Viral, Joana Menezes Nunes, médica especialista em endocrinologia e nutrição, defende que afirmar que comer determinados alimentos, por si só, reduz os níveis de cortisol é simplista e enganador do ponto de vista científico.
A endocrinologista começa por explicar que “o cortisol é o principal glucocorticoide [conjunto de hormonas] produzido pela glândula suprarrenal e desempenha um papel central no metabolismo da glicose [açúcar no sangue], na resposta do corpo ao stress e a nível cardiovascular, anti-inflamatório e imunológico”.
Em relação ao impacto da alimentação, pode-se dizer que “uma alimentação mediterrânica reduz a inflamação do organismo, melhora a disposição, é mais rica e nutritiva para todos os processos celulares e metabolismo e, como tal, será mais benéfica para a todos os processos endócrinos, como a produção de cortisol” (ver também aqui, aqui, aqui e aqui).
Também se pode afirmar que “alimentos com propriedades anti-inflamatórias poderão ajudar na regulação de todos os processos hormonais, como alimentos ricos em magnésio, em ómega 3, frutos vermelhos ricos em antioxidantes, alimentos fermentados como o iogurte e a kombucha”, exemplifica.
Ainda assim, qualquer alimento, por si só, não terá a capacidade de reduzir os níveis de cortisol. A alimentação só tem um impacto significativo no cortisol a nível global.
Noutro plano, uma dieta rica em alimentos processados, “ricos em sal, açúcares e gorduras más”, associada ao “álcool em excesso”, tem “um efeito nocivo para todo o organismo humano e a suprarrenal não será exceção”, avança Joana Menezes Nunes (ver também aqui).
Mas a alimentação não é o único fator que ajuda a manter os níveis adequados de cortisol. Deverá ser sempre “aliada à prática de exercício físico, a uma boa higiene do sono e a uma regulação exímia dos níveis de stress e ansiedade, boa rede de suporte social, evicção de toxinas e disruptores endócrinos”, esclarece.
Na perspetiva da endocrinologista, se houver suspeita de alteração da produção ou regulação do cortisol, é necessária uma avaliação médica especializada para se perceber se há uma doença que deve ser tratada.
“O autodiagnóstico, a automedicação e seguir conselhos sem validação científica ou orientações de pessoas que não são credenciadas” é desaconselhado.
Até porque o tratamento das doenças associadas à produção excessiva é complexo e “dependerá sempre da causa”. Pode ser necessário recorrer “a medicamentos específicos para reduzir os valores de cortisol”, “a cirurgia” ou, até, “a radioterapia”.
A produção excessiva de cortisol pode causar a Síndrome de Cushing, caracterizada por alterações físicas, metabólicas e cardiovasculares. A Doença de Cushing é uma forma específica da síndrome (quando a causa está na hipófise). Existe ainda o Cushing ectópico, que ocorre quando tumores fora do eixo hipotálamo-hipofisário-adrenal (por exemplo, no pulmão) levam a hiperprodução de cortisol. Por fim, existe o Cushing iatrogénico, secundário à utilização prolongada de corticosteroides em doses elevadas.
Além disso, a produção excessiva de cortisol pode ser “um efeito secundário da utilização prolongada de corticosteroides em doses consideráveis”.
Quais as complicações associadas ao cortisol elevado?
Existem várias consequências associadas aos níveis de cortisol elevados não tratados. Por norma, “o cortisol em excesso ou produzido de forma anómala altera a quantidade e a distribuição da gordura corporal – nomeadamente no tronco e parte superior das costas (chamada giba dorsal)”, refere Joana Menezes Nunes.
Cursa também “com a existência de uma face grande e redonda (chamada em lua cheia), braços e pernas mais finos em proporção a um tronco espesso”, associados a “uma fraqueza muscular (notada em atividades como levantar de uma cadeira ou sacudir/estender a roupa)”, prossegue a médica.
A pele “torna-se fina e delgada, apresentando hematomas provocados facilmente e dificuldade de cicatrização de contusões e feridas”. Além disso, podem aparecer “manchas no abdómen e no tórax semelhantes a estrias” arroxeadas.
Ao longo do tempo, “uma concentração elevada de corticosteroides no organismo leva a aumento da pressão arterial (hipertensão arterial), osteoporose, diminuição da resistência às infeções, diabetes, coágulos e alteração do humor”, aponta.
Nas mulheres, pode ocorrer “alteração dos ciclos menstruais e, em algumas pessoas, as glândulas suprarrenais também produzem uma grande quantidade de hormonas sexuais masculinas (testosterona e similares), o que causa acne e um aumento na quantidade de pelos faciais e corporais”, por exemplo.
Por outro lado, nas crianças, “poderá ocorrer atraso do crescimento e baixa estatura”, se não houver um diagnóstico e um tratamento atempado.
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