A água, por si só, “não hidrata”? É necessário adicionar eletrólitos?
Nas redes sociais partilha-se a ideia de que a água, por si só, “não hidrata”. Segundo vários vídeos publicados no TikTok, a água só tem a capacidade de hidratar o organismo se for ingerida em conjunto com eletrólitos, ou seja, sais minerais. Nesse sentido, há quem recomende adicionar um pouco de sal à água que se ingere diariamente. Mas é verdade que a água, por si só, não hidrata? É necessário adicionar eletrólitos?
É verdade que a água “não hidrata”? Para hidratar é preciso adicionar eletrólitos?
Em declarações ao Viral, o nutricionista Pedro Meirinhos, membro da Ordem dos Nutricionistas (ON), adianta que a ideia de que a água, por si só, não hidrata é falsa. “A água hidrata e é essencial para o funcionamento do organismo”, começa por salientar.
Num texto publicado no balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24), explica-se que “a hidratação corresponde à reposição de água no organismo, equilibrando a composição corporal, uma vez que este é o principal constituinte do organismo”.
Segundo o mesmo texto, “beber água é a principal forma de manter uma hidratação adequada” (ver também aqui e aqui).
Aliás, a própria água, por si só, “é rica em eletrólitos”, ou seja, sais minerais, que “auxiliam a absorção dos nutrientes pelas células”, acrescenta-se.
Alguns exemplos de eletrólitos são o sódio (sal), “o potássio, o fosfato, o cálcio e o magnésio”, refere-se num texto da Universidade de Johns Hopkins.
“Com exceção do bicarbonato, que o corpo pode produzir por si próprio, os eletrólitos provêm dos alimentos e bebidas que consumimos”, aponta-se.
Assim, além da água, existem outras bebidas e alimentos que podem ser consumidos, “de preferência como complemento, e ajudam a manter-se hidratado”, como chás e infusões, “sopa”, “leite”, “hortícolas e fruta”, realça-se no texto do SNS 24.
Uma boa forma de se perceber se o organismo está devidamente hidratado é através do teste da cor da urina. “Se urinarmos várias vezes durante o dia, se a urina for clara e não tiver cheiro, à partida, tudo indica que estamos bem hidratados”, aponta Pedro Meirinhos.
Os eletrólitos também podem ser encontrados “em bebidas desportivas, cápsulas efervescentes e comprimidos”, refere o nutricionista. Estes produtos, de facto, têm um teor elevado de sais minerais, por isso, “têm uma capacidade hidratante superior à água simples” (ver também aqui).
Contudo, defende, “nem todas as pessoas precisam de água com eletrólitos” adicionados ou suplementos com sais minerais.
Num texto publicado no site do Centro Médico da Universidade de Rochester assinala-se a mesma ideia: “Para o adulto comum, durante o repouso e num clima temperado, as bebidas desportivas não são necessárias. A água simples é suficiente para se manter hidratado”.
Importa ainda salientar que as bebidas ricas em eletrólitos (como as bebidas desportivas) não são adequadas para todas as pessoas e adicionar sais minerais à água (como o sódio) pode ser mais prejudicial do que benéfico para a saúde.
“Tem de haver moderação e é preciso saber o que se está a fazer”, defende Pedro Meirinhos. “A maioria da população já tem um consumo de sal diário elevado”, por isso, sobretudo nestes casos, seguir este tipo de tendência sem acompanhamento “pode ser perigoso do ponto de vista da saúde”, acrescenta.
Os últimos dados revelam que a população portuguesa tem um consumo diário médio de sal de 10,7 gramas, o que equivale ao dobro do valor máximo recomendado. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda, para os adultos, “menos de 5 gramas por dia de sal, ou seja, pouco menos de uma colher de chá”.
O principal efeito negativo para a saúde associado a dietas ricas em sal “é o aumento da pressão arterial, que aumenta o risco de doenças cardiovasculares, cancro gástrico, obesidade, osteoporose, doença de Ménière e doença renal”, lê-se no mesmo texto da OMS.
Quem beneficia da ingestão de água com eletrólitos adicionados?
A ingestão de água com eletrólitos adicionados ou de bebidas desportivas deve ser, preferencialmente, recomendada por um profissional de saúde.
Por exemplo, refere Pedro Meirinhos, em contexto de prática de exercício físico, pode ser aconselhado o consumo de bebidas com eletrólitos.
Além disso, pessoas que tenham trabalhos exigentes em termos físicos, com exposição contínua ao calor e ao sol, como “trabalhadores da construção civil ou jardineiros, têm um gasto diário de energia considerável e provavelmente suam mais”. Nesse contexto, também pode ser recomendado um reforço de eletrólitos para evitar a desidratação.
No texto da Universidade Johns Hopkins, explica-se que, “como os eletrólitos se dissolvem na água, os níveis podem baixar quando o corpo perde água através da eliminação de resíduos (urina e fezes), da evaporação da respiração e da transpiração”.
A evaporação da respiração e da transpiração, sobretudo, “pode ser acelerada nas pessoas que praticam desporto”, acrescenta-se.
A necessidade de ingestão de eletrólitos vai depender, por um lado, “da duração e intensidade da atividade desportiva”, salienta Pedro Meirinhos.
“Um treino de uma hora de pilates não é tão exigente como um treino de uma hora de crossfit ou de corrida”, exemplifica.
Além disso, “depende muito do perfil da pessoa”, sublinha o nutricionista. “Há pessoas que suam bastante durante o treino e há outras pessoas que não, e depois há pessoas que, mesmo ao suarem muito, conseguem manter mais sais no organismo”.
Regra geral, num treino de intensidade moderada com duração de até uma hora “não é necessária a ingestão de eletrólitos”, defende. A água “serve perfeitamente” para garantir a hidratação adequada da maioria das pessoas.
Por último, em caso de doença que desencadeia vómitos e/ou diarreia, pode ser preciso que a pessoa reforce a ingestão de eletrólitos (ver aqui e aqui).
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