Açafrão é tão eficaz como a ritalina no tratamento de PHDA?
Numa publicação partilhada nas redes sociais afirma-se que “o açafrão mostrou que é clinicamente tão eficaz como a ritalina para crianças com PHDA – e as grandes farmacêuticas não dizem nada”.
A perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA) é uma das neurodivergências mais comuns. Esta condição pode ter diferentes manifestações de PHDA, sendo os principais sintomas: desregulação da atenção, hiperatividade e impulsividade.
O tratamento para a PHDA depende da idade da pessoa e das características da neurodivergência. Poderá incluir fármacos estimulantes ou não-estimulantes, sendo a ritalina (nome comercial do cloridrato de metilfenidato) um dos medicamentos mais conhecidos para o tratamento desta condição.
Mas será verdade que o açafrão é tão eficaz no tratamento de PHDA como a ritalina? E pode ser um substituto deste fármaco? Joana Ferreira Gomes, professora na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e investigadora na área da hiperatividade e défice de atenção no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), ajuda a explicar o que se sabe sobre este tema.
Açafrão tem benefícios no tratamento da PHDA? Há evidência científica?
O extrato de açafrão tem sido apontado como uma potencial alternativa para o tratamento de PHDA, mas ainda não existe evidência científica suficiente que permita afirmar a eficácia e segurança deste tratamento.
Joana Ferreira Gomes reconhece que os resultados preliminares “parecem mostrar um ligeiro benefício do açafrão” em pacientes com PHDA, mas garante que os estudos existentes “não são suficientes para recomendar [o açafrão] como substituto da ritalina, um tratamento que sabemos ser eficaz”.
Os “poucos estudos” publicados até hoje sobre o tema têm limitações metodológicas, alerta a especialista, referindo-se à utilização de questionários subjetivos, ao reduzido número de participantes e ao facto de os estudos não terem sido randomizados e duplamente cegos.
“Faltam critérios objetivos, estudos mais corretos [randomizados e duplamente cegos] e falta perceber o efeito do açafrão ao longo do tempo”, afirma a investigadora, lembrando que a ritalina foi alvo de muitos estudos antes de ser recomendada como um tratamento eficaz.
Uma revisão sistemática, publicada em 2023, identificou quatro estudos em que foram analisados os efeitos do extrato de açafrão em pacientes com PHDA.
Dois desses estudos (aqui e aqui) avaliaram o efeito conjunto do açafrão com a ritalina – mostrando haver potenciais benefícios na combinação terapêutica – e os outros dois (aqui e aqui) comparam os efeitos das duas substâncias terapêuticas.
Nos dois estudos comparativos, publicados em 2019 e 2022, conta-se com um total 113 participantes com PHDA (50 e 63, respetivamente) com idades entre os sete e os 17 anos. O primeiro estudo teve a duração de seis semanas, enquanto o segundo prolongou-se por três meses.
As conclusões de ambos os estudos, embora preliminares, apontam efeitos semelhantes entre o extrato de açafrão e a ritalina.
“Apesar de serem comparados em termos gerais, o açafrão tende a ser mais eficaz para os sintomas de hiperatividade, enquanto o metilfenidato [substância ativa presente na ritalina e em outros fármacos para a PHDA] é mais eficaz para sintomas de défice de atenção”, pode ler-se no artigo mais recente.
Os investigadores do artigo publicado em 2019 referem a necessidade de realizar mais estudos para validar a eficácia do açafrão, sublinhando a necessidade de “incluir um espetro mais alargado de pacientes com PHDA”. Consideram também importante que os estudos tenham “períodos de tratamento mais longos”.
Joana Ferreira Gomes destaca que nestes dois estudos existe um número baixo de participantes. “Estamos a falar de pouco mais de 100 doentes observados, quando foram analisados milhares nos estudos sobre a ritalina. Não podemos chegar a este nível de comparação”, afirma, acrescentando que “ainda temos um caminho longo pela frente”.
Vários estudos analisaram os efeitos do extrato de açafrão em perturbações do foro mental, como a depressão. Apesar de não ser utilizado na prática clínica, alguns estudos “indicam o seu potencial efeito benéfico”, complementa a investigadora.
É importante sublinhar que os estudos referem-se aos efeitos do extrato de açafrão (em suplementos) e não da especiaria açafrão, que é utilizada na culinária. Os potenciais benefícios referidos nos artigos científicos “não são sobreponíveis ao açafrão introduzido como tempero na dieta”.
Suplementação de açafrão pode substituir a ritalina? Ou ajudar no tratamento?
“A substituição de ritalina por açafrão é absolutamente contraproducente”, afirma Joana Ferreira Gomes. A especialista reconhece que o fármaco tem efeitos secundários, mas é, à luz do conhecimento atual, “o tratamento que oferece melhor vantagens face às desvantagens”.
No que toca à suplementação com extrato de açafrão, a investigadora alerta que é preciso ter alguns cuidados, principalmente quando o paciente é uma criança. “Estamos a introduzir no organismo uma substância com efeitos potencialmente benéficos, mas não sabemos se poderá estar a interferir com outros fármacos”, refere.
Antes de se começar a tomar qualquer suplemento, é importante perceber se os produtos “têm todas as medidas de segurança e eficácia”, se “foram avaliados para a faixa etária” em causa e se “há interações com medicamentos”.
A introdução de açafrão na dieta do paciente “não tem quaisquer problemas, porque são doses muito baixas”, garante Joana Ferreira Gomes. Por essa razão, também não há evidência de que usar este tempero mais frequentemente possa ter efeitos positivos para os pacientes com PHDA.
Em suma, o extrato de açafrão está a ser estudado como um potencial tratamento para a PHDA. Apesar dos resultados promissores, existem ainda poucos estudos sobre o tema e, por isso, é muito cedo para garantir os potenciais benefícios deste composto natural. Mais investigação é necessária para identificar os reais efeitos do açafrão.
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