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Fazer um aborto aumenta o risco de cancro da mama?

14 Ago 2025 - 08:45
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Fazer um aborto aumenta o risco de cancro da mama?

“Fazer um aborto aumenta a probabilidade de desenvolver cancro da mama?”, pergunta Bethany Cameron, influencer americana com 1,5 milhões de seguidores no Instagram, ao convidado do seu podcast “Digest This”. Seth Gruber, ativista americano anti-aborto, responde: “Sim, sim”.

Gruber é licenciado em Estudos Religiosos e fundou uma associação anti-aborto (The White Roses Resistance) que diz estar a “construir uma nova geração de guerreiros pró-vida dedicados à verdade e à santidade da vida”. Vai a igrejas, conferências e palestras falar sobre o tema e não raras vezes repete que uma interrupção voluntária da gravidez (IVG) pode aumentar o risco de cancro da mama.

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No podcast de Bethany Cameron, enquanto a influencer o ouve com atenção, acusa investigadores que fazem estudos que negam a relação entre IVG e cancro da mama de terem uma agenda “pró-escolha” e diz que um estudo feito nos anos 90 (e várias vezes refutado) é “o melhor” que já se fez.

Estas alegações existem em círculos anti-aborto, que defendem que, durante a gravidez o tecido mamário cresce e fica “preparado” para a amamentação e uma IVG interrompe essa evolução, o que faz com que o tecido cresça sem diferenciação total, e aumenta a probabilidade de desenvolver cancro da mama.  

Num parecer técnico enviado ao Viral e ao Polígrafo, Hélder Ferreira, professor no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e coordenador da unidade de Endoscopia Ginecológica e Endometriose do Hospital de Santo António, explica que “não há evidência científica de qualidade que comprove que a interrupção voluntária da gravidez aumente o risco de cancro da mama”.

O que diz a evidência científica?

“A literatura científica de melhor qualidade mostra consistentemente que não há nenhuma diferença significativa no risco de cancro da mama entre mulheres com e sem histórico de IVG”, diz o médico. Há vários estudos sobre a matéria porque é um tema “que tem sido amplamente estudado nas últimas décadas”.

Hélder Ferreira cita vários artigos que considera “abrangentes” e “de qualidade”, devido aos métodos utilizados, à abrangência da população escolhida, às revistas científicas onde foram publicados, entre outros fatores.

Começa por realçar a importância de haver estudos de coorte prospectivos de grande dimensão, isto é, que acompanham mulheres ao longo do tempo, recolhendo dados sobre IVG antes de um eventual diagnóstico de cancro. Um estudo dinamarquês com 1,5 milhões de participantes concluiu que o risco de cancro da mama é igual com ou sem IVG, e noutros estudos semelhantes, tanto na Europa como nos Estados Unidos, os resultados foram os mesmos.

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Uma análise internacional publicada em 2004 na The Lancet, que contava com dados de 83 mil mulheres, concluiu que “nem os abortos espontâneos nem os induzidos contribuem para o aumento do risco de cancro da mama”, descartando “associações previamente sugeridas por estudos menores”, sublinha Hélder Ferreira.

“Até subanálises específicas mostram resultados neutros”, refere o médico. Um exemplo é o California Teachers Study, que desde 1995 acompanha a vida de mais de 100 mil mulheres que trabalham na área da educação no estado da California. No estudo mencionado por Hélder Ferreira, analisaram-se separadamente mulheres sem filhos e com filhos e os dados indicam que o histórico de IVG não alterou o risco de desenvolver cancro da mama. 

“Uma revisão atualizada [de 2018] que agregou 25 estudos internacionais” concluiu que o risco era “estatisticamente equivalente a risco nulo”. E mesmo “avaliando subgrupos (mulheres com um único aborto, com múltiplos abortos, aborto em idades diferentes) não se observaram diferenças significativas”. 

Outra meta-análise de 2020, que se focou em mulheres que nunca tinham tido filhos, não encontrou “qualquer associação entre a realização de um aborto e o risco de cancro da mama nesse grupo”, diz o médico.

“As afirmações que indicam uma forte associação devem ser vistas com cautela, pois contrariam o consenso científico”, sublinha Hélder Ferreira, a propósito das declarações de Seth Gruber. “Organismos internacionais e painéis de especialistas (como o National Cancer Institute, dos Estados Unidos, e o American College of Obstetricians and Gynecologists) reviram extensamente o tema e concluíram que a IVG não está associada a um aumento do risco de cancro da mama”.

O que é que acontece às mamas quando há uma interrupção da gravidez?

“É pertinente questionar se a interrupção de uma gestação poderia afetar o tecido mamário de forma a alterar o risco de cancro”, considera Hélder Ferreira, porque há uma “plausibilidade teórica” que deve ser estudada.

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Durante a gravidez, graças ao aumento drástico de algumas hormonas (estrogénios, progesterona e hormonas lactogénicas, especialmente), as mamas são estimuladas a “proliferarem tecido glandular, preparando-se para a lactação”, explica o docente do ICBAS. Levando a gravidez até ao fim, há “mudanças permanentes benéficas nas células mamárias, tornando-as mais diferenciadas e menos suscetíveis a transformações malignas”.

Uma gestação levada a termo é, de facto, um fator protetor para o cancro da mama, mas isso não significa que a IVG o provoque. “Não há indicação de que a IVG anule esse fator protetor quando a gestação a termo eventualmente ocorre”.

O que “alguns autores” especulam é que, quando há uma interrupção da gravidez, “essas células mamárias ‘semi-diferenciadas’ poderiam, em teoria, estar mais vulneráveis a agentes carcinogénicos do que estariam caso a gravidez nunca tivesse ocorrido ou caso tivesse chegado até o final”. 

Mas o que a evidência diz é que “a interrupção da gravidez não deixa um legado fisiopatológico identificável nas mamas”, explica o médico.

“Estudos de grande escala sobre abortos espontâneos não mostram aumento de risco de cancro da mama”. Vários estudos confirmaram que mulheres que tiveram um ou mais abortos espontâneos não apresentam risco superior de cancro da mama em comparação com aquelas que nunca abortaram

Após analisar vários estudos sobre o tema, Hélder Ferreira conclui: “Uma gravidez incompleta não parece deixar ‘marcas’ biológicas relevantes no peito relacionadas ao cancro”.

O que os estudos mostram, explica o especialista em ginecologia e obstetrícia, é que “ter um aborto antes do primeiro filho não altera significativamente o risco de cancro da mama em comparação com mulheres que tiveram seu primeiro filho sem história prévia de aborto”. O risco é ditado por outros fatores, “principalmente pela idade em que tiveram o filho e pelo número de filhos, não pela ocorrência de um aborto anterior”.

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Importa ainda referir que “a IVG age a nível uterino e sistémico, mas não se conhece um mecanismo fisiopatológico plausível que ligue diretamente o procedimento de IVG a iniciação de um tumor mamário”. A teoria de que uma interrupção da gravidez pode provocar cancro da mama “reside apenas na dinâmica hormonal temporária, a qual parece não ter impacto duradouro”.

Que problemas existem nos estudos que sugerem a ligação entre IVG e cancro?

Hélder Ferreira diz que é muito comum ouvir pessoas que insistem que existe uma relação entre interrupções da gravidez e cancro a dizerem que o risco aumenta 44%. Esse número é retirado de uma meta-análise realizada com mulheres chinesas em 2014, mas o médico do Hospital de Santo António considera que o estudo pode ser enganador

“Baseou-se em estudos caso-controlo chineses, sujeitos a viés de recolha de informação”. Ou seja, há um grupo com cancro e outro grupo saudável. “Verificou-se que, em províncias onde as mulheres saudáveis reportavam mais livremente a ocorrência de IVG, a associação estimada era significativamente mais fraca, indicando que a ausência de relatos pelos controlos inflacionava o risco nos estudos com menos transparência”.

Além disso, parece também haver um viés de notificação. “As pacientes com cancro muitas vezes analisam mais detidamente suas exposições passadas e podem revelar um histórico de IVG com maior franqueza, enquanto as mulheres sem cancro podem omitir ou negar ter realizado abortos, sobretudo em contextos de estigma”.

Isso resulta num “falso positivo”, já que os estudos passam a indicar artificialmente mais IVG no grupo com cancro “porque houve mais sinceridade, não porque a IVG cause cancro”.

“Estudos mais rigorosos” e “literatura científica de melhor qualidade” mostra consistentemente que não há uma “diferença significativa” de risco de cancro entre mulheres com e sem histórico de interrupções da gravidez.

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O docente do ICBAS apontou ainda outros vieses que podem ser encontrados em alguns estudos. Pode haver viés de publicação porque um estudo com resultados que sugerem um efeito tendem a ser mais publicados ou a receber mais destaque do que aquele que não mostre efeito nenhum entre as duas partes: “Isso pode ter criado uma perceção inicial exagerada do risco”, considera. 

Mas “com o tempo, à medida que estudos maiores e neutros foram publicados, o equilíbrio de evidências se ajustou para refletir a realidade [ausência de efeito significativo]”. 

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Noutros casos, pode haver um “confundimento por fatores reprodutivos”, já que o risco de cancro da mama “é influenciado pela história reprodutiva da mulher”. “Alguns estudos não ajustaram adequadamente o número de filhos ou idade ao primeiro parto”. Sem essas variáveis a serem tidas em conta podia parecer que “o aborto aumentava o risco, quando na verdade o risco maior derivava de as mulheres não terem filhos ou terem filhos mais tarde”. Os estudos mais recentes “controlam essas variáveis” e mostram que não há efeito.

E deve ter-se em atenção a “qualidade do desenho do estudo”: “Estudos prospetivos de coorte oferecem evidências mais confiáveis sobre este tipo de associação do que estudos caso-controlo”. E os resultados “de dezenas de coortes prospectivas ao redor do mundo são consistentemente negativos quanto a risco associado à IVG”.

Hoje, o consenso científico diz que “a evidência epidemiológica mais rigorosa não corrobora os achados desses estudos mais antigos e sujeitos a viés”.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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