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Fact-Checks

A quimioterapia falha 97% das vezes?

12 Set 2024 - 09:46
falso

A quimioterapia falha 97% das vezes?

A alegação surge num vídeo de YouTube e rapidamente se disseminou nas redes sociais: “97% das vezes a quimioterapia não funciona.” O autor desta afirmação é o naturopata Peter Glidden, que cita um estudo para justificar a sua opinião.

“A única razão pela qual a quimioterapia é usada é porque os médicos ganham dinheiro”, diz ainda, defendendo a utilização de tratamentos holístico para curar o cancro.

Mas será verdade que os tratamentos de quimioterapia falham em 97% dos casos? O que concluiu, na verdade, o estudo citado por Peter Glidden?

A quimioterapia é ineficaz em 97% dos casos?

Não é verdade que a quimioterapia seja ineficaz em 97% dos casos. A quimioterapia é um dos tratamentos utilizado em “vários tipos de tumores e tem benefícios francos em termos de controlo da doença e dos sintomas”, explica ao Viral Ana João Pissarra, oncologista no Hospital da Lusíadas Lisboa. 

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Além de “retardar a progressão do cancro”, atuando sobre as células cancerígenas de crescimento rápido, a quimioterapia ajuda também a “reduzir os sintomas associados à doença”, acrescenta a especialista.

Este tipo de tratamento integra as terapêuticas sistémicas, uma vez que “atua em todo o organismo” e tem como finalidade “destruir ou desacelerar o crescimento das células cancerígenas, que possam ter metastizado para além do tumor original”, explica-se  no site do Serviço Nacional de Saúde, num texto de perguntas e respostas que tem como fonte a Sociedade Portuguesa de Oncologia.

“Esses fármacos evitam também que o cancro se dissemine para outras partes do corpo, mas podem afetar não só as células cancerígenas como também as células saudáveis”, pode ler-se no mesmo texto.

Além da quimioterapia, fazem parte deste grupo terapêutico a hormonoterapia, a imunoterapia e as terapêuticas-alvo. Os médicos podem prescrever ainda terapêuticas locais, nomeadamente a cirurgia, a radioterapia e a radiologia de intervenção, que atuam apenas na região em que está o tumor. 

No mesmo sentido, o Instituto Americano para o Cancro (NIH, na sigla inglesa) esclarece que a quimioterapia “trava ou retarda o crescimento de células cancerígenas, que crescem e dividem-se rapidamente”. Pode ser usada, por um lado, para tratar o cancro e reduzir a probabilidade de reaparecimento, ou, por outro, para diminuir o tamanho dos tumores.

Recorde que o cancro é definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um “grande grupo de doenças que pode começar em praticamente todos os órgãos ou tecidos do corpo”. 

Estas doenças resultam de um “crescimento incontrolável de células anormais” que “ultrapassam os limites habituais para invadir partes adjacentes do corpo e/ou espalhar-se para outros órgãos”.

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Origem do mito e explicação dos dados

A interpretação errada de um artigo científico, publicado em 2004, poderá estar na origem deste mito. Nesse estudo, os investigadores analisaram a eficácia da quimioterapia, como tratamento único, na percentagem de sobreviventes ao fim de cinco anos. Os dados recolhidos dizem respeito a pacientes dos Estados Unidos da América e da Austrália e dividem-se pelos diferentes tipos de cancro.

Nas duas tabelas (uma para cada país analisado) refere-se o número de novos casos de cancro em adultos com mais de 20 anos (por tipo), o número absoluto de pacientes que sobreviveram após cinco anos devido à quimioterapia e a percentagem que este valor representa.

Os investigadores referem que, utilizando unicamente a quimioterapia como tratamento, 2,1% (EUA) e 2,3% (Austrália) do total dos pacientes sobreviveram ao fim de cinco anos. No entanto, o estudo não diz que os restantes pacientes (perto de 97%) não obtiveram efeitos após o tratamento com quimioterapia. Este vasto grupo inclui os pacientes que realizaram outros tratamentos ou uma terapêutica combinada, que pode incluir a quimioterapia.

Além de ser falso que a quimioterapia é ineficaz em 97% dos casos, o próprio estudo apresenta exemplos de tipos de cancro – como cancro dos testículos ou linfoma de Hodgkin – em que a percentagem de sobrevida após cinco anos é bastante significativa: 37,7%-41,8% e 40,3%-35,8%, respetivamente (EUA-Austrália). 

O Instituto Nacional do Cancro dos EUA (NIH, na sigla inglesa) explica que, “para algumas pessoas, a quimioterapia pode ser o único tratamento a receber”, no entanto, “na maioria das vezes, [o paciente] fará quimioterapia em conjunto com outros tratamentos contra o cancro”.

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Exemplo disso é o cancro do cólon: no estudo citado refere-se que a quimioterapia (como tratamento único) tem uma percentagem de sobrevida de cinco anos de 1,0%-1,8%; contudo, dados do relatório de Tratamento do Cancro e Sobrevivência nos Estados Unidos (2016-2017) mostram que o tratamento combinado de quimioterapia e cirurgia é o mais comum (aplicado 67% dos pacientes nos estádios III) e que menos de 1% da população realiza apenas quimioterapia.

A prescrição do tratamento depende sempre, segundo o NIH, “do tipo de cancro” que está a ser combatido, “se se espalhou e para onde”, e se o paciente tem “outros problemas de saúde”.

Numa terapêutica combinada, a quimioterapia pode assumir um papel de: adjuvante, quando é administrada após o tratamento curativo (cirurgia ou radioterapia); neoadjuvante, quando há necessidade de diminuir o tumor antes da cirurgia ou radioterapia; ou paliativa, quando o tumor já está numa fase avançada (com metastização) e o objetivo é retardar a progressão e reduzir os sintomas da doença oncológica.

Importa também sublinhar que o estudo citado foi publicado em 2004, o que significa que as conclusões podem não estar atualizadas face aos novos fármacos e terapêuticas. Ana João Pissarra lembra que, nos últimos 20 anos, a oncologia “teve uma franca evolução” e que a quimioterapia “continuar a ter o seu papel” no tratamento do cancro.

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Nas últimas duas décadas, a taxa de mortalidade por todos os tipos de cancro desceu: dados referentes aos Estados Unidos mostram que, em 2000, foi registada uma taxa de mortalidade de 198,8 mortes por 100.000 habitantes, enquanto em 2022 (dados mais recentes) o valor foi de 142,0 mortes por 100.000 habitantes. Estima-se que, em 2022, 70% dos sobreviventes estavam vivos cinco anos após o diagnóstico de cancro

Ana João Pissarra admite que a quimioterapia é uma terapêutica que assusta as pessoas, principalmente devido aos efeitos secundários associados, mas garante que é uma parte importante do tratamento oncológico.

Os efeitos secundários mais comuns da quimioterapia são cansaço, náuseas (enjoos), vómitos e diarreia. Dependendo do fármaco utilizado, é também possível sentir formigueiro ou dormência nos membros, ter queda de cabelo, perder o apetite, ter anemia, entre outros sintomas.

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12 Set 2024 - 09:46

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