A pressão arterial baixa pode causar um AVC? “Por si só, não”
A hipertensão, ou seja, a pressão arterial elevada, é um dos principais fatores de risco para o Acidente Vascular Cerebral (AVC). Mas, num vídeo partilhado no TikTok, sugere-se que a pressão arterial baixa (hipotensão) também pode causar um AVC. Isto porque, adianta o autor, “a pressão está tão baixa que o sangue não consegue sair do coração e chegar ao cérebro”. Será mesmo assim? A hipotensão pode causar um AVC?
É verdade que a pressão arterial baixa pode causar um AVC?
Em declarações ao Viral, Elsa Azevedo, neurologista e professora na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), adianta que “a pressão arterial baixa, isoladamente, não causa um AVC”.
Tal como se explica num texto do National Heart, Lung and Blood Institute dos Estados Unidos (NHLBI), “a pressão arterial é a força com que o sangue exerce pressão contra as paredes das artérias à medida que o coração bombeia o sangue” e “a pressão arterial baixa ocorre quando o sangue circula pelos vasos sanguíneos a pressões inferiores ao normal”.
O ideal, para a maioria das pessoas, é ter uma pressão arterial “abaixo dos 120/80 mm Hg”, sublinha Elsa Azevedo.
Considera-se que a pressão arterial está um pouco alta “a partir dos 130/85, mas só é considerada hipertensão acima dos 140/90 mm Hg”.
Contudo, no caso da hipotensão, “não há propriamente um valor limite, porque varia com a pessoa e com as suas particularidades”, refere a médica consultada pelo Viral.
Ao contrário do que acontece com a hipertensão, o diagnóstico de hipotensão depende não só dos valores da pressão arterial, mas também se existem sintomas associados (ver aqui, aqui e aqui).
Por exemplo, uma pessoa pode ter uma pressão arterial de 90/50 e estar bem, “sem qualquer sintoma, e outra pessoa pode ter uma pressão um pouco mais elevada e ter sintomas”, aponta Elsa Azevedo.
Os sintomas típicos da pressão arterial baixa são “tonturas ou vertigens”, “náuseas”, “visão turva”, “sensação geral de fraqueza”, “confusão” e “desmaios”, lê-se no site do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa).
“Se não tiver nenhum sintoma, não há motivo para se preocupar”, sublinha-se num texto da Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH).
Quando existem sintomas, pode haver uma causa subjacente, daí a importância de consultar um médico nesse contexto. Isto é, a hipotensão relevante (com sintomas) é muitas vezes um sinal de alerta para um problema de saúde e não uma causa.
Segundo o texto da SPH, a pressão arterial pode diminuir por diversas razões, nomeadamente devido à “diminuição do volume sanguíneo” (que pode ocorrer como resultado de uma hemorragia abundante ou desidratação) e a “patologias graves, tais como o choque séptico (infeção grave) ou anafilático (reação alérgica), condições que podem pôr a vida em risco.
Alguns “problemas cardíacos”, “como a insuficiência cardíaca, o enfarte agudo do miocárdio, a bradicardia (frequência cardíaca baixa) e doenças das válvulas cardíacas”, também podem levar a uma diminuição da pressão arterial.
Além disso, certos “problemas endocrinológicos” e “neurológicos” podem causar pressão arterial baixa.
Existem ainda medicamentos, como “alguns antidepressivos, medicamentos usados no tratamento da doença de Parkinson” e alguns fármacos para tratar a hipertensão.
É importante perceber o que está a causar pressão arterial baixa com sintomas, porque, em certos casos, “pode ser perigoso, pois pode significar que o coração, cérebro ou outros órgãos vitais não estão a receber fluxo sanguíneo suficiente e que corre o risco de sofrer um ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral”, sublinha-se no texto do NHLBI.
Elsa Azevedo explica que “se houver problemas graves, como, por exemplo, a pessoa ter uma artéria quase bloqueada”, níveis baixos prolongados de pressão arterial podem fazer com que “não passe sangue suficiente para a zona do cérebro irrigada por aquela artéria”.
Apesar disso, “ter a tensão baixa, por si só, não é uma causa de AVC”, volta a sublinhar. “A primeira causa de morte e de incapacidade permanente em Portugal é o AVC” e o principal fator de risco “é a hipertensão”, acrescenta.
Quais os principais fatores de risco para o AVC?
Não há uma única causa para um AVC, existem, sim, fatores que aumentam o risco de ter este problema de saúde (ver aqui, aqui e aqui). Segundo Elsa Azevedo, “o principal fator de risco” para um AVC é a hipertensão arterial. A pressão arterial elevada, ao longo do tempo, provoca “lesões nas grandes artérias” e “nos ramos mais pequenos”.
Isto pode contribuir para “um AVC isquémico”, porque a hipertensão vai “tapando as artérias” e, a certa altura, “o sangue acaba por não conseguir passar”. E também pode “causar alterações nas paredes que fazem com que elas rompam mais facilmente”, dando origem a um AVC hemorrágico (saiba mais sobre os dois tipos de AVC neste artigo do Viral).
Além disso, “o tabagismo é um fator de risco muito importante para o aparecimento de placas que vão tapando as artérias responsáveis por levar o sangue ao cérebro”.
“A diabetes e o colesterol alto” também são fatores de risco relevantes. Tanto estas condições como outras “doenças do coração”, podem facilitar a formação de trombos (pedaços de sangue que ficam sólidos dentro do coração) que “podem seguir pelas artérias até ao cérebro e ocluir uma artéria cerebral”.
Outros fatores associados a um AVC são “a obesidade ou o excesso de peso”, “os maus hábitos alimentares”, “o consumo de álcool em excesso” e “o sedentarismo”, sublinha-se num texto publicado no balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24).