VITAL
A ozonoterapia cura cancro?
É um tema recorrente — tão recorrente que João Vasco Barreira, oncologista, diz que é uma questão que já surgiu em consultas: O que é a ozonoterapia? É um tratamento para o cancro?
A ozonoterapia é o nome dado ao conjunto de terapêuticas realizadas com recurso a ozono clínico, “é usado em várias áreas da medicina”, diz o oncologista e co-autor da página The Twin Docs. Mas esta terapia pode ser utilizada no tratamento do cancro? O que diz a evidência?
Ozonoterapia trata cancro?
Não, “nem deve ser posta em cima da mesa para não atrasar ou interromper o tratamento convencional”, refere o médico.
Mas a ozonoterapia pode ter resultado noutros casos: “É usada, por exemplo, em ortopedia, através de injeções em músculos e articulações”, esse é o caso mais bem documentado.
Uma meta-análise de 2018 concluiu que a ozonoterapia intra-articular atenua eficazmente a dor em indivíduos com osteoartrose do joelho.
No mesmo ano, um estudo publicado na Ata Médica Portuguesa deu conta da eficácia a curto prazo da ozonoterapia em relação ao placebo e quando combinada com ácido hialurónico. Mas não demonstrou ser “superior em relação aos restantes tratamentos vigentes”.
“Não é um tratamento de primeira linha para nada”, diz João Vasco Barreira, mas pode ser uma hipótese em alguns casos, quando outro tipo de tratamentos não funciona.
De acordo com um documento do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (Amadora/Sintra), o ozono tem benefícios anti-inflamatórios e analgésicos.
O hospital refere ainda que este é “um tratamento seguro, minimamente invasivo, praticamente isento de efeitos secundários” e pode ser administrado em “qualquer articulação do corpo (joelhos, coluna, ombros, cotovelos, etc.)”.
Nesse sentido, pode ser utilizado como forma de mitigar efeitos secundários dos tratamentos oncológicos, como quando os pacientes relatam dores articulares, explica João Vasco Barreira.
Os resultados são variáveis, “dependem de condições de saúde prévias, bem como do cumprimento das orientações” dadas pela equipa médica, lê-se no documento disponibilizado pelo hospital.
A variação de resultados, diz o oncologista, depende também da dose e da forma como é administrada — por isso mesmo, é importante ter a certeza de que se está a fazer esse tratamento em sítios certificados, que sejam “regulados pela Entidade Reguladora da Saúde”.
Caso contrário, não há forma de garantir a segurança do procedimento. “Nunca se pode inalar o ozono e outras aplicações inadequadas podem ter implicações pulmonares, podem levar a irritação, inflamação ou mesmo embolias gasosas”. “É preciso muito cuidado”, sublinha o médico.
Outro dos grandes riscos, quando esta terapia é utilizada para fins não comprovados, é “adiar o tratamento convencional” para o cancro.
O oncologista diz que já teve um paciente que não quis fazer imediatamente os tratamentos aconselhados porque acreditava na ozonoterapia como tratamento para o cancro: “Aí há um risco real de progressão da doença”, conclui.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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