“A geração mais doente da História”: A esperança média de vida dos cães diminuiu desde 1970?
No Instagram alega-se que “temos a geração de cães mais doentes da História” e que a esperança média de vida destes animais diminuiu desde 1970. O autor do vídeo acrescenta ainda que em 1970 os cães comiam sobras e viviam 20 anos e que em 2026, com “ração premium”, os cães têm “três doenças crónicas aos 10 e eutanásia aos 12”. Será mesmo assim? Estas afirmações são suportadas por evidência científica?
É verdade que a esperança média de vida dos cães diminuiu desde 1970? “Temos a geração de cães mais doentes da história”?
Em esclarecimentos enviados ao Viral, a Ordem dos Médicos Veterinários (OMV) adianta que “essa afirmação não tem suporte científico”, pois “os dados disponíveis não mostram uma diminuição da esperança de vida dos cães nas últimas décadas”.
Uma revisão publicada no Journal of the American Veterinary Medical Association em 2024, que analisou dados de longevidade canina entre 1981 e 2023, “concluiu que não existe evidência de que a esperança de vida dos cães domésticos tenha diminuído nas últimas décadas” e “os dados apontam para estagnação ou um ligeiro aumento”.
Segundo a OMV, “o principal problema nesta comparação é metodológico”, uma vez que “não existem registos populacionais consistentes e sistemáticos da mortalidade canina nos anos 70 que permitam uma análise fiável”.
Por outras palavras, “estamos a comparar dados atuais, baseados em grandes bases de dados clínicas e epidemiológicas, com perceções baseadas na memória, e a memória é, por definição, seletiva”.
Assim, “sem dados estruturados, não é possível afirmar que os cães viviam mais no passado, e a evidência disponível não suporta essa ideia”, refere a mesma fonte.
Como evoluiu a longevidade média dos cães nas últimas décadas?
Segundo a OMV, a longevidade dos cães é muito influenciada por vários fatores “que tornaram as comparações históricas muito difíceis”. Os principais são: o tamanho e raça dos cães; a esterilização; e o acesso a cuidados veterinários.
Em relação ao “tamanho corporal” e à “composição racial da população”, sabe-se que “raças pequenas vivem em média 10 a 15 anos” e “raças gigantes cerca de 8 a 10 anos”.
Além disso, “a composição racial da população canina mudou radicalmente desde os anos 70, com o crescimento expressivo de raças braquicéfalas (Bulldog Francês, Pug, Bulldog Inglês) e de raças gigantes, que têm longevidade estruturalmente mais curta por razões genéticas e biomecânicas”.
Nesse sentido, um estudo de 2024, com 584 mil 734 cães no Reino Unido, “confirmou que o tamanho corporal e o grau de achatamento do focinho são preditores independentes de longevidade mais curta”.
Isto significa que “a média de longevidade da população canina pode ter descido simplesmente porque hoje há muito mais cães de raças ‘da moda’ com uma longevidade menor, sem que isso signifique que os cães, por si só, estejam mais doentes ou a viver menos do que deveriam para a sua raça”, explicam os especialistas da OMV.
Outra variável importante é a esterilização. “A prevalência de cães esterilizados aumentou substancialmente nas últimas décadas, e a esterilização tem efeitos documentados na longevidade, geralmente positivos, mas não de forma uniforme”, avança a Ordem.
“Os animais esterilizados tendem a viver mais tempo, em parte porque o procedimento elimina o risco de doenças reprodutivas graves como a piómetra e a neoplasia mamária nas fêmeas, assim como a neoplasia testicular e a hiperplasia prostática benigna nos machos”.
Contudo, a esterilização também altera o perfil hormonal do animal, “o que em certas raças está associado a maior risco de determinados tipos de neoplasia e de doença osteoarticular”. Apesar de tudo, “o resultado na longevidade é positivo na maioria das situações”, sublinha a OMV.
A terceira variável relevante é o acesso a cuidados veterinários preventivos, tais como, “vacinação, desparasitação e check-ups regulares, que aumentaram de forma significativa e que alteraram os padrões de mortalidade registada, reduzindo as mortes por doenças infeciosas e parasitárias que eram comuns e fatais há 50 anos”.
Qual o papel da evolução da medicina veterinária neste contexto?
O papel da medicina veterinária moderna na longevidade canina “é central e provavelmente o fator mais determinante neste contexto, embora muitas vezes seja mal interpretado”, defende a OMV.
No passado, “muitos cães morriam precocemente sem diagnóstico”, aponta. Doenças como “insuficiência renal, cardiopatias ou neoplasias evoluíam de forma silenciosa e levavam à morte ou eutanásia mais cedo”.
Atualmente, esses cães são acompanhados e “vivem, hoje, tempo suficiente para desenvolver doenças que simplesmente não tinham oportunidade de manifestar no passado”.
Isto é, “não estamos necessariamente perante mais doença, mas sim mais tempo para que a doença se manifeste e maior capacidade para a identificar”, explicam os especialistas. “A doença crónica é, muitas vezes, o preço biológico de viver mais tempo” e os estudos populacionais mostram precisamente este padrão (ver aqui e aqui).
Por exemplo, “um cão que há algumas décadas morria aos 6 ou 7 anos, frequentemente ‘sem diagnóstico’, não era necessariamente mais saudável, era um cão cuja doença não foi identificada ou não teve tempo de se desenvolver”.
Hoje, “esse mesmo cão pode viver até aos 12 ou 14 anos, com essa doença diagnosticada, acompanhada e muitas vezes controlada durante anos”.
Assim, na perspetiva da OMV, “o aumento de diagnósticos não é um sinal de declínio da saúde canina, é, em grande medida, um reflexo do progresso”.
Ao longo dos anos, “houve uma evolução muito significativa nos meios de diagnóstico, como ecografia, TAC, ressonância magnética e análises laboratoriais mais completas, permitindo detetar doenças em fases precoces ou mesmo subclínicas”. Ao mesmo tempo, a capacidade de tratamento também evoluiu.
E da nutrição? Faz sentido afirmar que em 1970 os cães comiam sobras e viviam mais tempo?
“Não, essa afirmação não tem suporte científico e resulta de uma interpretação enviesada da evolução da medicina veterinária e da nutrição”, adianta a OMV.
A ideia de que os cães “viviam 20 anos em 1970” baseia-se “sobretudo em memória seletiva e não em dados epidemiológicos robustos”. Na realidade, “não existiam sistemas de registo populacional consistentes nem bases de dados clínicas comparáveis às atuais”.
Aliás, “a mortalidade precoce por doenças infeciosas, parasitárias, traumatismos ou ausência de cuidados médicos era relevante e frequentemente não documentada”, sublinha a mesma fonte.
Em relação às “chamadas ‘sobras da mesa’, do ponto de vista nutricional não constituem uma dieta adequada quando utilizadas como base alimentar”. Além de serem “inconsistentes” e “com composição variável”, muitas vezes, são “desequilibradas em nutrientes essenciais e com risco de exposição a substâncias potencialmente tóxicas”, esclarece a OMV.
A par do progresso da medicina veterinária, a evolução da nutrição veterinária “permitiu formular alimentos completos e equilibrados com base em requisitos fisiológicos definidos, operacionalizados por normas e boas práticas por entidades reguladoras, tais como, a AAFCO (nos EUA) e a FEDIAF (na Europa)”.
Existe evidência robusta de que a nutrição adequada “contribui para aumentar a longevidade e atrasar o aparecimento de doenças crónicas”.
O que se observa hoje “não é um agravamento da saúde canina associado à alimentação moderna, mas sim uma transição epidemiológica: os cães vivem mais tempo, são melhor acompanhados e, por isso, desenvolvem doenças típicas de idades mais avançadas, muitas das quais conseguimos atualmente diagnosticar e controlar”, conclui a OMV.
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